Mundo ficciónIniciar sesiónTerça- feira
Pov Ana Clara
Relembro com detalhes o meu dia. Cada minuto. Cada decisão ruim. Cada pequena tragédia pessoal que me trouxe até aqui. Até o fatídico acontecimento.
E sinceramente? Não é de se estranhar que eu esteja no fundo do poço.
Não metaforicamente.
Não poeticamente.No fundo mesmo.
Daqueles fundos em que você olha para baixo esperando encontrar o chão… e descobre que ainda existe outro fundo.
Antes de tudo acontecer, eu estava sentada no chão da cozinha, encostada no armário, com o telefone desligado ao meu lado e uma colher na mão. A colher estava mergulhada dentro de um pote de brigadeiro. Não era brigadeiro para vender. Não era brigadeiro para cliente. Não era brigadeiro gourmet, artístico ou minimamente digno de aparecer no I*******m.
Era brigadeiro emocional.
Fiz para sobreviver psicologicamente.
Acontece.
Respiro fundo.
— Parabéns, Ana Clara — murmuro para mim mesma, limpando o nariz com as costas da mão. — Você conseguiu estragar absolutamente tudo.
A cozinha está um caos. Farinha espalhada pelo chão. Tigelas sujas na pia. Uma forma de bolo esquecida na mesa. Um saco de açúcar aberto como se tivesse sido vítima de um pequeno terremoto culinário. Parece a cena de um crime.
E talvez seja.
O assassinato brutal da minha dignidade profissional.
Fecho os olhos e imediatamente a voz da dona Sônia ecoa na minha cabeça como um pesadelo em replay.
— Você tinha um compromisso comigo!
— Um bolo de casamento não pode atrasar!
— Isso é falta de profissionalismo!
Eu aperto os olhos com força.
— Eu sei, dona Sônia — murmuro para o teto. — Eu estava presente na conversa original. Não precisava da reprise.
O problema não foi só o atraso.
Foi o dinheiro.
Sempre o dinheiro.
— Eu contratei você porque disseram que era responsável! — ela continuou, com aquela expressão típica de quem pagou por um bolo e recebeu uma crise existencial junto.
Eu estava tão nervosa que quase respondi:
"Responsável eu sou. Rica é que eu não sou."
Mas segurei.
Profissionalismo.
Ou pelo menos algo vagamente parecido com ele.
Solto um suspiro longo.
Minha conta bancária está praticamente em coma induzido.
Minha casa está com todas as contas atrasadas.
E aparentemente fazer bolos não paga as contas.
Quem diria?
Porque se você perguntar para qualquer criança de cinco anos, confeiteiros vivem cercados de açúcar, felicidade e dinheiro. Mas aparentemente a realidade é diferente quando você é uma confeiteira que também tenta ser artista.
Pintar é o meu sonho.
O problema é que sonho não paga boleto.
Quadro não paga conta de luz.
Inspiração artística não paga aluguel atrasado.
Então eu faço bolos.
Muitos bolos.
Bolos de aniversário. Bolos de casamento. Bolos temáticos. Bolos com flores de açúcar tão delicadas que deveriam vir com certificado de paciência infinita.
Os bolos pagam as contas.
Ou pelo menos deveriam.
Enfio outra colher de brigadeiro na boca.
— Isso é culpa sua — digo para o doce.
Ele não responde.
Covarde.
Levanto os olhos para o teto.
— Deus, se o senhor estiver me ouvindo… — começo.
Faço uma pausa dramática.
— Não precisa melhorar muito minha vida.
Outra pausa.
— Só um pouco já está ótimo.
Silêncio.
Nada acontece.
Nenhum milagre.
Nenhuma luz divina.
Nenhuma mala cheia de dinheiro.
Nem um bilionário batendo na minha porta dizendo:
"Ana Clara, tome aqui um milhão porque você merece."Nada.
Só eu.
O brigadeiro.
E a conta de luz vencida.
Respiro fundo.
Minha cabeça começa a latejar.
Talvez seja açúcar.
Talvez seja desespero.
Talvez seja os dois trabalhando juntos como uma equipe altamente eficiente.
Pego o celular.
Erro.
Erro gravíssimo.
Tem três mensagens do banco.
Duas da companhia de energia.
E uma da imobiliária a respeito do aluguel.
Fecho o celular imediatamente.
— Não vi nada.
Empurro o telefone para longe.
Se eu não olhar… tecnicamente os problemas não existem.
Isso é ciência.
Ou pelo menos negação avançada.
Encosto a cabeça no armário.
O cansaço chega como uma onda pesada.
Minha garganta aperta.
E antes que eu perceba, as lágrimas começam a cair de novo.
Droga.
Eu odeio chorar.
Principalmente porque meu nariz fica vermelho e meus olhos incham como se eu tivesse perdido uma luta física com um enxame de abelhas.
Mas hoje…
Hoje está difícil.
Muito difícil.
— Eu não aguento mais — sussurro.
A frase ecoa na cozinha silenciosa.
Passo a mão no rosto.
Uma parte pequena, minúscula e extremamente dramática da minha mente murmura:
“Talvez fosse mais fácil simplesmente desaparecer.”
Ou fugir.
Ou evaporar.
Ou ser abduzida por alienígenas extremamente gentis.
Qualquer coisa.
Mas então eu suspiro.
Porque mesmo na minha versão mais trágica e melodramática…
Eu sei que não faria isso.
Tenho medo demais.
E porque minha mãe teria um ataque.
E minha melhor amiga provavelmente me mataria antes.
Então não.
Infelizmente vou continuar viva.
Sofrendo.
Pagando contas.
E fazendo brigadeiro emocional.
Levanto-me do chão devagar. Minhas pernas estão dormentes.
— Ótimo — murmuro. — Agora além de falida eu também vou ficar paraplégica.
Caminho até a pia.
Lavo o rosto.
A água fria ajuda um pouco.
Olho para meu reflexo no pequeno espelho da cozinha.
Cabelo preso num coque bagunçado.
Olhos inchados.
Farinha na bochecha.
— Uau — digo para mim mesma. — Um espetáculo.
Se um príncipe entrasse aqui agora…
Ele fugiria.
Ou chamaria a polícia.
Respiro fundo.
Ok.
Hora de parar de surtar.
Eu preciso sair.
Preciso entregar o último pedido do dia.
Um bolo simples.
Nada de casamento.
Nada de drama.
Só chantili… e esperança.
Seco o rosto com uma toalha.
— Vamos lá, Ana Clara — digo para mim mesma. — Você consegue sobreviver mais um dia.
Pego a caixa do bolo com cuidado. Ele realmente está bonito. Camadas perfeitas. Cobertura lisa. Flores delicadas. Se confeitaria pagasse dignidade…
Eu seria milionária.
Mas não paga.
Então aqui estou.
Coloco a caixa no banco do passageiro do meu Fiat Uno guerreiro. Sim. Guerreiro. Porque esse carro já sobreviveu a coisas que deveriam ser tecnicamente ilegais.
Entro.
Respiro fundo.
Ligo o motor.
Ele faz um barulho estranho.
Eu olho para o painel.
— Não ouse morrer agora — aviso.
O carro treme.
Mas liga.
Vitória.
Saio devagar da rua.
O céu está cinza.
Começa a chover.
Claro.
Porque se minha vida fosse um filme…
Seria uma tragédia.
Dirijo pelas ruas molhadas tentando não pensar nas contas. Nem no sermão. Nem na palavra aluguel. A chuva engrossa. Os limpadores de para-brisa trabalham como atletas olímpicos. E minha cabeça continua girando.
— Vai dar tudo certo — murmuro.
Mentira.
Mas ajuda.
Aperto o volante.
O trânsito está lento.
Uma fileira de carros luxuosos aparece na minha frente. SUVs enormes. Sedãs elegantes. Carros que provavelmente custam mais do que minha casa inteira.
— Claro — murmuro. — Todo mundo rico resolveu sair hoje.
Respiro fundo.
Só preciso dirigir.
Entregar o bolo.
Voltar para casa.
E sobreviver.
Simples.
Muito simples.
O que poderia dar errado?
É exatamente nesse momento…
Que meu celular vibra.
Eu olho rapidamente para o lado.
Uma mensagem nova.
Do banco.
Meu coração aperta.
Meu cérebro decide, brilhantemente, pensar:
“Será que bloquearam minha conta?”
Eu olho de novo.
Só um segundo.
Um segundo minúsculo.
Quando levanto os olhos de volta para a rua…
Vejo a traseira de um carro preto gigantesco parada bem na minha frente.
— AH NÃO!
Eu piso no freio.
O carro derrapa.
A chuva ajuda.
Meu coração dispara.
E então: BAM.
O impacto ecoa pela rua.
Meu carro para.
Meu cérebro também.
Eu fico imóvel.
O mundo inteiro em silêncio.
Então sussurro:
— Pronto.
Engulo seco.
— Agora eu estou oficialmente ferrada.
E ainda nem sei…que o homem dentro daquele carro vai virar minha vida completamente do avesso.







