A Proposta Mais Absurda da Minha Vida

Quarta-feira, dia de vender meu rim.

(Pov Ana Clara)

A primeira coisa que faço quando acordo é olhar para o teto e pensar seriamente na possibilidade de desaparecer da face da Terra. Não morrer exatamente. Morrer exige esforço, planejamento e provavelmente algum dinheiro para um velório digno, e eu mal consigo pagar a conta de luz. Desaparecer seria mais simples. Talvez eu pudesse virar uma dessas pessoas que largam tudo e vão vender coco em uma praia distante. O problema é que até para vender coco você precisa comprar coco primeiro, e eu tenho a forte suspeita de que o banco não aprovaria um financiamento para isso depois do meu histórico financeiro. Solto um suspiro dramático e puxo o cobertor até a cabeça como se aquilo pudesse me proteger da realidade. Não protege. A realidade continua ali, me esperando como um cobrador de dívidas particularmente irritado.

E a realidade, neste momento específico, tem o formato do sermão que levei ontem.

— Inacreditável, Ana Clara. Simplesmente inacreditável.

A voz da senhora Regina ecoa na minha memória com a mesma delicadeza de uma britadeira.

— A festa começou às cinco. Os bolos chegaram às seis. Às seis! Você faz ideia do constrangimento que eu passei?

Tenho, sim. Ela me contou em detalhes. Muitas vezes. Em vários tons diferentes de indignação.

— Minha filha chorou na frente de todos os convidados!

O que, considerando que era uma festa de seis anos com cinquenta crianças cheias de açúcar correndo pelo salão, me pareceu um pouco dramático. Mas aparentemente drama é um direito exclusivo de clientes ricas.

A culpa é minha. Totalmente minha.

Se eu não tivesse batido no carro daquele homem absurdamente rico, absurdamente irritante e absurdamente bonito, eu teria chegado a tempo. Os bolos estariam alinhados na mesa como pequenas obras de arte açucaradas e eu teria recebido um sorriso satisfeito em vez de um discurso sobre profissionalismo, pontualidade e a importância de não destruir eventos sociais importantes.

Resultado final: cliente perdida.

E eu estou oficialmente a um passo de vender meus próprios órgãos no mercado negro.

Viro para o lado na cama e encaro a parede descascada do meu quarto.

— Parabéns, Ana Clara — murmuro para mim mesma. — Você conseguiu estragar absolutamente tudo.

Minha vida neste momento é uma coleção impressionante de pequenos desastres. Pintura não paga contas. Essa é a verdade feia que ninguém conta quando você decide seguir o sonho artístico em vez de escolher uma profissão sensata como contabilidade ou odontologia. Pintar me faz feliz. Pintar me faz sentir viva. Pintar também paga exatamente zero boletos quando ninguém está comprando quadros de uma artista desconhecida que vive num bairro esquecido da cidade. Então eu faço bolos. Muitos bolos. Bolos de aniversário, bolos de casamento, bolos temáticos com unicórnios, dinossauros, princesas e personagens que eu nunca vi na vida. O açúcar paga as contas. A tinta paga… bom, a tinta paga o privilégio de continuar tentando.

Levanto-me da cama com a dignidade de alguém que foi atropelado por um caminhão emocional. Caminho até a cozinha, preparo café e tomo o primeiro gole enquanto olho para a pequena mesa cheia de contas empilhadas. O aluguel da casa. A conta de luz. O cartão de crédito que eu deveria ter cancelado meses atrás. O pagamento atrasado do hospital. Esse é o mais dolorido de todos.

Minha mãe. Se ela estivesse aqui, ela saberia o que fazer. Ela sempre tinha palavras de conforto. 

Só de pensar nisso, meu peito aperta como se alguém tivesse apertado um botão secreto dentro de mim.

— Ótimo — digo para o silêncio da cozinha. — Agora além de falida eu estou melodramática.

Bebo mais café.

Funciona um pouco.

Decido trabalhar. Porque quando a vida está um desastre completo, pelo menos posso fingir que sou uma artista atormentada em vez de apenas uma adulta incompetente. O pequeno cômodo que uso como ateliê fica nos fundos da casa. A tela em branco ainda está no cavalete exatamente como eu deixei ontem, silenciosa e acusadora. Cruzo os braços e encaro a tela.

— Não começa — aviso.

Ela começa.

Porque uma tela em branco é basicamente um julgamento silencioso sobre todas as escolhas ruins que você fez na vida.

Pego um pincel.

Passo tinta azul.

Depois vermelho.

Depois passo os dois juntos e faço uma bagunça que provavelmente nenhum crítico de arte chamaria de “profunda”, mas que neste momento representa perfeitamente meu estado emocional.

— Isso — murmuro. — Dor. Sofrimento. Crise existencial.

A campainha toca.

Congelo.

Não estou esperando ninguém.

A campainha toca de novo.

— Se for cobrança, eu não estou em casa! — grito automaticamente.

Silêncio.

Suspiro e caminho até a porta.

Quando abro, meu cérebro leva alguns segundos para processar o que está vendo.

Um carro preto enorme está estacionado na frente da minha casa. Elegante. Caro. Provavelmente mais caro que tudo o que eu possuo somado.

E ao lado dele está ele.

O homem do acidente.

O homem que quase me fez ter um infarto financeiro ontem.

O homem com os olhos mais frios que eu já vi.

Gabriel Rodrigo Monteiro.

Ele está vestido como se tivesse acabado de sair de uma revista de negócios. Terno impecável. Postura rígida. Expressão séria.

E está olhando diretamente para mim.

— Senhorita Ana Clara — ele diz.

Levo três segundos para reagir.

— Não são nem oito horas e já está na minha casa. Pelo que eu saiba combinamos de eu estar no seu escritório às nove....O que foi? — cruzo os braços. — Veio terminar de me humilhar pessoalmente ou trouxe uma calculadora gigante para me mostrar quanto da minha vida eu devo vender para pagar seu carro?

Ele não parece ofendido.

Na verdade, ele parece… curioso.

O que é ainda mais irritante.

— Posso entrar?

— Não.

Silêncio.

— Eu gostaria de conversar.

— Conversar geralmente é o que acontece antes de um processo judicial.

— Não pretendo processá-la.

Isso me pega desprevenida.

— Então veio cobrar à vista?

— Não.

Inclino a cabeça.

— Então o que exatamente o senhor quer?

Ele me observa por um momento como se estivesse avaliando alguma coisa invisível.

— Eu tenho uma proposta.

Rio.

Alto.

Porque claramente o universo decidiu que minha vida virou uma comédia.

— Eu bato no seu carro e aí o senhor aparece na minha casa e acha que consigo ver algo bom nisso? O que quer? Quer que eu trabalhe como escrava ou motorista particular para pagar a franquia do carro?

— Não.

— Faxineira?

— Não.

— Cobaia para algum experimento corporativo?

— Também não.

Cruzo os braços novamente.

— Então desembucha, porque eu tenho uma crise existencial em andamento.

Ele respira fundo.

E diz, com a maior calma do mundo:

— Eu quero que você se case comigo.

O silêncio que se segue é tão absoluto que eu tenho certeza de que até o universo ficou constrangido.

Pisca.

Pisca de novo.

— Desculpa — digo lentamente. — Acho que meu cérebro travou. O senhor acabou de propor casamento?

— Sim.

Dou um passo para trás.

— O senhor bateu a cabeça no acidente?

— Não.

— Porque isso explicaria muita coisa.

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