Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu já tive dias ruins antes. Mas hoje resolveu competir pelo primeiro lugar no ranking das maiores tragédias da minha existência.
A porta da minha casa fecha atrás de mim com um rangido cansado, como se até ela estivesse julgando minhas escolhas de vida. Apoio a testa na madeira por alguns segundos e suspiro profundamente. O cheiro de tinta me recebe imediatamente, misturado com o de açúcar e baunilha que ainda escapa das caixas vazias de bolo espalhadas pela mesa da cozinha.
Minha vida, resumida em dois aromas: arte que não paga contas e açúcar que mal consegue pagá-las.
Jogo minha bolsa sobre a cadeira e caminho até a cozinha. As caixas de transporte estão abertas, algumas manchadas de chantilly, outras com respingos de chocolate seco. A lembrança do sermão da cliente volta inteira, nítida, como se a mulher estivesse escondida atrás da geladeira pronta para me atacar novamente.
“Uma hora e quinze minutos atrasada, Ana Clara. Uma hora e quinze! Você tem ideia do que é organizar uma festa para cinquenta convidados?”
Tenho.
É basicamente a mesma coisa que organizar a própria falência, só que com balões caros.
“Eu jamais contrataria alguém tão irresponsável se soubesse que você não tem estrutura profissional.”
Estrutura profissional.
Olho ao redor da cozinha.
A batedeira antiga da minha mãe vibra como um helicóptero sempre que eu ligo. A mesa é pequena demais para os bolos que eu tento produzir. O forno funciona… quando quer. E o chão ainda tem uma mancha de corante azul que eu juro que um dia vou limpar.
Sim.
Estrutura profissional impecável.
Abro a geladeira e encaro o interior vazio por alguns segundos.
Uma cenoura.
Meio limão.
Um pote suspeito que talvez seja iogurte ou talvez seja ciência.
Fecho a porta.
— Fantástico, Ana Clara — murmuro para mim mesma. — A falência agora vem acompanhada de fome.
Caminho até a sala e me deixo cair no sofá velho. As molas reclamam imediatamente, como se estivessem participando do drama. Olho para o teto descascado.
Silêncio.
Então o pensamento volta.
Banco.
Hospital.
Aluguel.
Minha garganta aperta.
As contas estão empilhadas sobre a mesa de centro como um pequeno monumento à desgraça financeira. Pego uma delas e olho o número no canto inferior.
Respiro fundo.
— Ótimo — digo para o teto. — Perfeito. Maravilhoso. Eu só preciso vender aproximadamente… três rins.
Penso por um momento.
— Ou talvez quatro.
Minha cabeça cai para trás no sofá.
Por alguns segundos, considero seriamente a possibilidade de desaparecer do planeta. Sumir. Evaporar. Virar poeira artística no vento.
— Eu poderia simplesmente morrer — murmuro.
Faço uma pausa.
— Não de verdade, claro. Só… dramaticamente.
Imagino meu próprio velório por um momento. Pouca gente. Algumas flores baratas. Talvez alguém dizendo: “Ela fazia bolos razoáveis”.
Suspiro.
— Patético.
Viro o rosto e meus olhos caem na tela em branco encostada no cavalete perto da janela.
Ela está me encarando.
Em silêncio.
Como se dissesse: “E então, artista? Qual é o plano agora?”
— Meu plano? — respondo para a tela. — Excelente pergunta.
Levanto do sofá e caminho até ela. Passo os dedos pela superfície limpa da tela.
— Talvez eu pinte algo revolucionário. Algo que mude o mundo da arte. Algo que venda por milhões.
Penso um pouco.
— Ou talvez eu pinte mais um girassol triste que ninguém vai comprar.
Encosto a testa na tela.
— Eu realmente estraguei tudo, não foi?
A lembrança do acidente surge imediatamente.
O SUV preto.
O amassado enorme.
O olhar gelado.
Gabriel Monteiro.
CEO bilionário.
E eu bati no carro dele com um Fiat Uno que provavelmente vale menos que o relógio dele.
Solto uma risada fraca.
— Claro que eu bati no carro de um magnata. Por que não? Já que o universo resolveu me humilhar, vamos fazer direito.
Tiro o cartão do bolso e olho para ele.
Dourado.
Elegante.
Intimidante.
Gabriel Rodrigo Monteiro.
Amanhã, nove da manhã.
A frase dele volta à minha memória com perfeição irritante.
“Vamos discutir como você vai pagar por isso.”
— Ótimo — murmuro. — Eu posso oferecer duas coisas.
Levanto dois dedos.
— Um Fiat Uno emocionalmente abalado… e um talento moderado para chantilly.
Suspiro profundamente.
De repente, o peso do dia inteiro me atinge ao mesmo tempo. O sermão da cliente. O acidente. As contas. O medo constante de perder a casa.
Sento-me no chão da sala.
E então, para minha grande vergonha pessoal, começo a chorar.
Não aquele choro elegante de filme.
Não.
É o choro feio.
Nariz vermelho.
Respiração falhando.
Drama completo.
— Eu só queria… cinco minutos de paz — murmuro entre soluços.
Depois de um tempo, as lágrimas diminuem.
Passo a manga da blusa no rosto e olho novamente para o cartão.
Amanhã.
Nove da manhã.
Se ele exigir dinheiro… eu estou perdida.
Se ele chamar a polícia… eu estou perdida.
Se ele me processar… eu estou muito, muito perdida.
Suspiro.
— Excelente, Ana Clara. Absolutamente excelente.
Levanto-me do chão com a dignidade de um gato molhado.
— Tudo bem.
Aponto para mim mesma.
— Plano de sobrevivência.
Levanto um dedo.
— Acordar.
Segundo dedo.
— Ir ao escritório do magnata assustador.
Terceiro dedo.
— Não desmaiar.
Penso um momento.
— Se possível.
Jogo o cartão sobre a mesa e olho mais uma vez para a tela em branco.
— E se tudo der errado… — murmuro.
Faço uma pausa dramática.
— Eu sempre posso virar confeiteira de funerais.
Cruzo os braços.
— Aposto que esse mercado é estável.







