Mundo de ficçãoIniciar sessão(POV Gabriel)
A imagem dela não me larga. É irritante, para ser sincero. Dirijo de volta para casa, as mãos firmes no volante do meu SUV, os olhos fixos na estrada molhada que reflete as luzes da cidade. Mas a minha mente? Ah, a minha mente insiste em voltar àquela cena, repetidamente, como um disco arranhado. Ela, ajoelhada no asfalto, os cabelos castanhos claros encharcados pela chuva, as mãos manchadas de tinta segurando o joelho ralado do meu filho. Um cuidado quase absurdo, uma delicadeza que não esperava.
Ana Clara. O nome ecoa na minha cabeça, um intruso, algo que não deveria ter permissão para se instalar ali.
Ela é um desastre ambulante. O carro velho, a roupa simples, o jeito impulsivo. Atravessou um sinal vermelho como se as regras do mundo fossem meros enfeites. Uma inconsequente, sim. Uma dessas pessoas que vivem no caos e arrastam todos para o seu turbilhão.
E, no entanto… A forma como ela falou com Leo, a suavidade na voz. O sorriso espontâneo que iluminou o rosto dela, mesmo sob a chuva. Balanço a cabeça, irritado comigo mesmo por sequer pensar nisso. É ridículo. Ela é apenas mais uma mulher irresponsável que terá que pagar pelo estrago que causou. Nada mais.
No banco de trás, Leo balança as pernas, alheio aos meus pensamentos turbulentos.
— Papai?
— Sim, filho.
— A moça era legal.
Seguro o volante com mais força, os nós dos dedos brancos.
— Você não conhece aquela mulher.
— Mas ela ajudou meu joelho.
Olho rapidamente pelo retrovisor. Ele levanta a calça, revelando o pequeno arranhão, um troféu de sua aventura.
— Eu estou bem — diz ele, com um orgulho que me desarma.
— Eu sei, campeão.
— Ela disse que eu sou corajoso.
Algo aperta no meu peito, uma sensação incômoda que não consigo identificar.
— Você é.
Ele sorri satisfeito, um sorriso puro e inocente, e volta a olhar pela janela, as gotículas de chuva escorrendo pelo vidro.
Quando chegamos à mansão, a chuva já se acalmou, deixando o ar com um cheiro de terra molhada. O portão de ferro forjado se abre automaticamente, revelando a longa alameda ladeada por jardins perfeitamente podados. A casa surge diante de nós, imponente, silenciosa e impecável.
Grande demais.
Silenciosa demais.
Saio do carro, o som da porta se fechando ecoa no silêncio. Abro a porta traseira e Leo se solta da cadeirinha, os olhos brilhando.
— Vamos entrar.
Leo segura minha mão, a pequena palma quente na minha, enquanto caminhamos até a entrada principal.
Ao entrar, a primeira pessoa que vejo é a senhorita Silva, a babá de Leo há três anos. Ela está reta como uma estátua, o rosto rígido, os olhos sem expressão.
— Boa noite, senhor Gabriel.
— Boa noite, senhorita Silva.
Ela olha rapidamente para o joelho de Leo, um movimento quase imperceptível.
— O que aconteceu?
— Eu caí — Leo responde, sem hesitação.
Ela apenas assente, a expressão inalterada.
— Venha comigo. Vou limpar.
Leo olha para mim, os olhos grandes e questionadores.
— Papai, você vem?
— Eu vou logo, filho.
Ele segue a senhorita Silva pelo corredor, a figura pequena desaparecendo na penumbra.
Observo os dois se afastarem. A forma como ela segura a mão dele é correta, cuidadosa, quase mecânica. Mas há algo ali que sempre me incomodou, e que hoje, estranhamente, parece ainda mais evidente.
Falta alguma coisa.
Calor.
Afeto.
A imagem dela volta sem aviso, como um flash. Ana Clara, ajoelhada no asfalto. Sorrindo para Leo.
Sacudo a cabeça novamente, tentando afastar a visão. Ridículo.
Entro na sala de jantar alguns minutos depois. A mesa já está posta com uma perfeição quase militar. Pratos alinhados, talheres simétricos, guardanapos dobrados com uma precisão que beira o obsessivo.
Leo entra correndo, a energia transbordando.
— Papai!
Ele escala a cadeira alta, própria para ele, os olhos curiosos.
— O que vamos comer?
— Lasanha — Marta responde com um sorriso caloroso.
— Boa!
Jantamos em relativa tranquilidade. Leo fala sobre a escola, sobre um desenho animado novo e sobre um colega que levou um dinossauro de brinquedo gigante para a aula e fez inveja para ele. Eu respondo automaticamente, mas minha mente continua distante, presa em pensamentos que não consigo controlar.
— Papai?
— Sim, filho.
— Você está bravo comigo?
Franzo a testa, surpreso com a pergunta.
— Por quê?
— Porque eu saí do carro.
Suspiro, a irritação se misturando com uma pontada de culpa.
— Não estou bravo. Só não faça isso de novo, ok?
— Tá bom.
Depois do jantar, o levo até o quarto. Ele escova os dentes, o som suave da escova preenchendo o silêncio, enquanto eu observo a pequena bagunça de brinquedos espalhados pelo chão.
Quando ele finalmente se deita, puxo o cobertor até seu queixo, um gesto familiar e reconfortante.
— Papai?
— Hum?
— A moça da chuva vai voltar?
A pergunta me pega desprevenido, um golpe no estômago.
— Não, filho.
Ele parece pensar por um momento, os olhos fixos no teto.
— Eu gostei dela.
— Você gosta de todo mundo que fala com você por dois minutos.
— Não gosto não.
Isso quase me faz sorrir, um leve tremor nos lábios. Apago a luz do quarto e saio, deixando-o entregue aos seus sonhos.
O corredor está silencioso, a casa mergulhada em uma quietude que me parece opressora.
Caminho até o escritório particular da casa, mas antes mesmo de sentar-me à mesa, a imagem dela volta outra vez. Cabelos presos, rosto molhado, os olhos verdes vivos que me desafiaram. A forma como ela enfrentou minhas acusações sem abaixar a cabeça, sem se intimidar.
Uma mulher pobre.
Caótica.
E completamente inadequada para qualquer coisa que envolva minha vida.
Pego o celular e envio uma mensagem curta para minha assistente, a decisão já tomada.
Agende a reunião com a motorista do acidente. Amanhã, 9h.
O problema será resolvido.
Simples assim.
Ou pelo menos deveria ser.
Na manhã seguinte, terça-feira, chego ao escritório pouco antes das oito. O prédio da Monteiro Tech domina a avenida central como um monumento de vidro e aço, imponente e frio. Funcionários entram e saem com pressa, suas vozes abafadas pelo burburinho da cidade. O elevador sobe silenciosamente até o último andar, me levando para o meu santuário de poder.
Minha secretária se levanta quando entro, a postura impecável.
— Bom dia, senhor Monteiro.
— Bom dia.
— Os advogados chegaram mais cedo. Estão aguardando na sala de reuniões.
— Advogados?
— Sim, senhor. Representantes da família Albuquerque.
Meu humor despenca imediatamente, um peso gelado se instalando no meu peito. Os pais da minha falecida esposa.
Entro na sala de reuniões, a tensão palpável no ar. Dois homens de terno escuro se levantam, seus rostos sérios.
— Senhor Monteiro.
— Vamos direto ao ponto.
Um deles abre uma pasta, os papéis farfalhando.
— Representamos os senhores Humberto e Helena Albuquerque, avós maternos de Leonardo.
Já sei onde isso vai dar. Uma sensação de pavor me invade.
— Eles pretendem solicitar formalmente a guarda do menino.
O silêncio que se segue é pesado, sufocante.
— Com base em quê?
— O tribunal tem levantado questionamentos sobre a estabilidade familiar do senhor. E não preciso explicar por quê. Sua reputação anda em baixa.
Sinto meu maxilar travar, a raiva borbulhando.
— Eu sou o pai dele.
— Sim. Mas o senhor é viúvo, trabalha muitas horas por dia e não possui uma estrutura familiar considerada ideal para uma criança pequena. Bebedeira... mulheres.
— Isso é absurdo.
— O tribunal pode considerar que os avós oferecem um ambiente mais estável.
Estável. Uma palavra elegante para dizer que eu não sou suficiente.
— Eles vão lutar pela guarda.
Os advogados se levantam minutos depois, deixando um conjunto de documentos sobre a mesa, um lembrete frio da batalha que se aproxima.
Fico sozinho na sala, o silêncio agora ensurdecedor.
Olho pela janela enorme do escritório. A cidade se estende lá embaixo, movimentada e indiferente, alheia à minha tormenta.
Estrutura familiar estável.
Repito mentalmente as palavras, o gosto amargo na boca.
Uma família.
Uma esposa.
Uma mãe presente.
Então, sem aviso, uma memória surge, vívida e inesperada. Uma mulher ajoelhada no asfalto. Falando com meu filho como se ele fosse a coisa mais importante do mundo naquele momento.
Ana Clara.
A forma como Leo sorriu para ela.
A naturalidade.
O carinho.
Uma ideia começa a tomar forma na minha mente.
Fria.
Prática.
Calculada.
Pego o cartão que recuperei do bolso do paletó. O nome dela está ali. Ana Clara. E pela primeira vez desde o acidente, um pensamento completamente novo se forma. Talvez aquela mulher inconsequente possa ser útil.
Muito útil.
E, de repente, o caos dela não parece tão ruim assim. Talvez seja exatamente o que precisamos.







