O papel em minhas mãos parece queimar. Não é um papel qualquer; é o contrato. O mesmo que Gabriel Monteiro me entregou ontem, com aquela frieza calculista que me irrita e, confesso, me intriga. As palavras dançam diante dos meus olhos, cada cláusula um golpe na minha já abalada dignidade. “Casamento por conveniência”, “duração de um ano”, “aparências públicas”, “quantia a ser paga”. É tudo tão formal, tão desprovido de qualquer emoção, que sinto um nó na garganta.Estou sentada na minha pequena cozinha, a luz fraca da manhã mal consegue afastar as sombras. A xícara de café esfria na minha frente, intocada. O cheiro de tinta e baunilha, que normalmente me acalma, hoje parece sufocante. Olho para a pilha de contas na mesa, um lembrete cruel da minha realidade. A carta do banco, a notificação de despejo, as dívidas do hospital que se acumulam como uma montanha intransponível. Minha vida, que já era um caos, agora parece estar em queda livre.Ontem à noite, depois que Gabriel foi embora,
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