Ele é dono do hospital e do meu coração

Ele é dono do hospital e do meu coração PT

Romance
Última atualização: 2026-04-22
Victoria Barros   Atualizado agora
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Índice

Clara vive em dois mundos opostos: a precisão silenciosa dos corredores do hospital, onde atua como auxiliar, e a alma vibrante das teclas de seu piano. Ela aprendeu a passar despercebida, mas sua fé e sua música emitem um brilho que atrai o que ela menos esperava — o olhar atento do Dr. Mike. ​Mike é a personificação da lógica e do controle. Um médico brilhante e metódico que nunca se deixa levar pelo improviso, até encontrar em Clara a harmonia que faltava em seus dias. Entre promessas sussurradas de "nunca soltar a mão" e o calor de abraços que dizem mais que mil diagnósticos, eles caminham por uma linha tênue onde a ética profissional e o desejo colidem. ​Mas o que acontece quando o silêncio do hospital é quebrado por segredos e flagras inesperados? Em um ambiente onde cada movimento é vigiado, Clara e Mike precisam descobrir se a conexão entre eles é uma nota passageira ou a melodia de uma vida inteira. ​Uma história sobre o encontro da cura com a arte, e como o amor pode ser o remédio mais potente — e perigoso — de todos.

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Capítulo 1

O Peso de algo novo

​Acordei cedo naquela manhã, sentindo o peso da expectativa sobre os ombros. Antes de sair, peguei meu jaleco branco com todo o cuidado, segurando-o apenas pelo cabide para não amassá-lo; ele seria meu uniforme e meu escudo a partir de agora. Parei por alguns instantes em frente ao espelho e observei meu reflexo com uma mistura de nervosismo e orgulho.

​Meus cabelos, compridos e extremamente pretos, caíam em ondas sobre os ombros, contrastando com a minha pele morena clara. Eu herdei da minha mãe os traços suaves, mas marcantes, que remetiam às nossas raízes indígenas, enquanto o tom da pele era uma mistura equilibrada com a ascendência branca do meu pai. Meus olhos, de um tom mel que quase puxava para o verde dependendo da luz, pareciam maiores por trás das lentes de contato que eu raramente trocava pelos óculos.

​Com apenas 1,56m de altura, eu sabia que minha estatura pequena às vezes enganava quem não conhecia a força que eu carregava. Meu corpo, definido por curvas naturais e suaves, estava sob uma vestimenta que eu não estava acostumada a usar. Dei uma última volta em frente ao espelho, conferindo minuciosamente se a roupa branca não estava transparente — a discrição sempre foi fundamental para mim. Olhei para meus lábios, que eram naturalmente marcantes, e respirei fundo. Aquela era eu: Clara.

​O Hospital Geral era algo desafiador. Eu tinha decidido dar uma pausa na arte e tentar algo diferente, mas, naquele momento, eu estava começando a ficar com medo. No corredor, escutei minha mãe orando por mim por trás da porta do quarto. A voz dela me deu a coragem que faltava para encarar os desafios daquele dia. E, por falar em desafio, decidi que iria dirigindo. Eu precisava vencer esse medo.

​Fiz um barulho indicando que estava saindo do quarto, para que minha mãe terminasse sua oração e eu não a atrapalhasse. Quando saí, ela estava andando em direção às escadas; olhou para trás e estendeu a mão para que eu descesse junto com ela. Nos olhamos, mas nenhuma palavra foi dita.

​Na cozinha, o café da manhã já estava pronto. Havia também uma carta do meu pai; ele tivera que viajar no meio da noite para cumprir uma agenda na cidade vizinha. Minha mãe começou a cantarolar uma música, e o som me alegrou.

​— Mãe, obrigada por acreditar em mim e me apoiar — eu disse, sentindo um nó de gratidão na garganta.

— Filha, conte sempre comigo. Eu te criei muito bem e sei que pode vencer qualquer desafio — ela respondeu, dando uma piscadinha.

​Ao olhar para o relógio, entendi o recado: precisava ir. Peguei minhas coisas, dei um beijo em sua bochecha e saí. Ela reparou que peguei a chave do carro, mas não disse nada. Cheguei na garagem confiante, entrei, coloquei o cinto, liguei o motor... e não consegui sair. Quase comecei a chorar, mas lembrei da maquiagem leve que havia feito. Respirei fundo. Era muita informação para um dia só. Voltei correndo para a cozinha; minha mãe pegou as chaves, deu uma risada leve e me abraçou.

​Cheguei ao Hospital Geral com um frio na barriga. Desci do carro de aplicativo e conferi tudo uma última vez. Os dedos que por tantos anos tocaram pianos agora apertavam o botão do elevador para o 7º andar. Aquele hospital era lindo, mas ainda era um hospital — frio, como todos são.

​Ao chegar na recepção da odontologia, senti o peso da responsabilidade. Pela primeira vez, eu ia trabalhar de carteira assinada. Meu pai, que sempre cuidou da saúde naquele hospital e conhecia bem o Dr. Cavalcanti, havia conseguido a oportunidade para mim. Eu seria sua auxiliar. Não tínhamos se quer feito uma entrevista mas ele ja havia dado a certeza que a vaga era minha. Fui preparada para o meu primeiro dia!

​— Olá, Clara. É um prazer te conhecer — disse a recepcionista após eu me apresentar. — A sala de espera para as entrevistadas é a primeira à direita. Quando for sua vez, alguém irá chamar. Boa sorte!

​Ao entrar na sala, ouvi o sussurro de duas candidatas: "O Dr. Mike Cavalcanti é bem sério, pelo que ouvi falar, mas bem gentil. Estou ansiosa". Meu coração falhou uma batida. Voltei à recepção imediatamente.

— Com licença, a minha entrevista era com o Dr. Marcos Cavalcanti, e não com o Dr. Mike. A sala de espera é a mesma?

​A recepcionista me olhou com compreensão.

— Ah, me desculpe, não conseguimos contato com você. O Dr. Marcos não estará mais atendendo; ele precisou se aposentar e o seu filho, que trabalhava no exterior, assumiu o lugar do pai. A vaga é para trabalhar com o Dr. Mike agora.

​Tentei disfarçar o nervosismo e voltei para a sala. Todas as outras meninas pareciam ter anos de experiência, e eu só tinha os meus estudos recentes e a vontade de mudar de vida.

​— Clara Lins? — uma moça bonita chamou.

Acompanhei-a até a sala. A porta já estava aberta. O Dr. Mike estava de costas, servindo-se de um copo de água. Quando ele se virou, o ar pareceu faltar nos meus pulmões. Eu estava preparada para um homem com a idade do meu avô, mas o Dr. Mike era jovem, de uma beleza impactante e olhos escuros que pareciam ler minha alma. Na verdade, ele tinha quase a minha idade...

​— Olá. Clara Lins, certo? — ele perguntou, com uma voz firme que preencheu a sala. — Obrigado, Bia. Pode sair e deixar a porta aberta, por favor — disse para a moça que me acompanhou.

— Olá. Isso mesmo — respondi, tentando manter a voz estável.

​— Bom, Clara, vou ser sincero: meu pai colocou uma pressão enorme em mim para te contratar. Mas decidi que vou escolher uma auxiliar por suas capacidades, e não por seus contatos. Você entende?

O impacto das palavras dele foi direto, mas eu não baixei o olhar.

— Claro que entendo. E concordo plenamente com sua decisão.

​— Que bom! — Ele deu um leve aceno com a cabeça, parecendo apreciar minha franqueza. — Gostaria de informar também que, a partir de hoje, eu atenderei exclusivamente pessoas com necessidades especiais. Temos outros médicos para o público geral. Fiquei no exterior me especializando e quero implementar isso no nosso hospital. Você tem alguma experiência com pessoas atípicas? Acredita "levar jeito" para isso?

​Senti um brilho nos olhos. Aquilo mudava tudo.

— Nossa, que iniciativa incrível. Seria uma honra fazer parte disso, se me permitir. Desde a minha adolescência, trabalho em orfanatos e centros de terapia para pessoas atípicas... através da música, claro. Mas fiz cursos para entender melhor as diversas condições e manejos.

​— Interessante. E como você acha que a arte pode te ajudar sendo uma auxiliar de odontologia?

— Estar familiarizada com esse público me ajuda a ler sinais que outros não veem — respondi com convicção. — Estou aqui para tornar o seu serviço o mais fácil possível. Aprendo rápido e tenho um olhar atento. A maioria das pessoas tem medo de dentista, Dr. Mike... assim como têm medo de palco ou de multidões. Meu papel é ser a calma no meio desse medo.

​Continuamos a entrevista por mais alguns minutos. Ele era técnico, exigente, mas parecia me ouvir de verdade. Por fim, ele me dispensou, dizendo que o RH ligaria até o final do dia com o resultado. Ao me levantar, notei um gesto humano por trás da armadura de médico: ele massageou as têmporas com cansaço e abriu a gaveta para pegar um remédio. O estresse que eu ouvira no corredor ainda estava lá.

​Antes de cruzar a porta, parei e me virei.

— Obrigada. Boa tarde e... que Deus te abençoe!

Vi um lampejo de surpresa atravessar o rosto dele. Era como se ele não estivesse acostumado a receber uma bênção gratuita no meio de um dia tão pesado. Saí da sala e, finalmente, ao chegar na rua, consegui respirar. Meu coração parecia ter perdido o ritmo, meus pulmões estavam apertados e minhas mãos suavam frio. Chamei o carro e voltei para casa em silêncio.

​A resposta veio no final da tarde. Fase de teste. Três meses de experiência começando em dois dias. O e-mail com horários e salário parecia oficializar minha nova vida, mas o destino tinha outros planos para aquela noite.

​Minha mãe, Flora, ainda não tinha voltado da visita ao meu irmão. Quando liguei, a tensão na voz dela me fez pegar a bolsa na mesma hora. Minha sobrinha, Liz, estava com febre alta no Hospital Geral. Corri para lá, levando apenas alguns snacks e o coração em prece.

​No corredor da pediatria, encontrei minha cunhada, Brenda, com o olhar perdido.

— O pediatra disse que é o dentinho nascendo antes da hora — explicou ela, tentando se acalmar. — Mas ela pegou uma virose, provavelmente pela gengiva aberta.

​— Ai, cunhada, que susto! Não parei de orar um minuto — confessei, abraçando-a.

​Para distraí-la, acabamos falando da entrevista.

— E o "velho" Dr. Cavalcanti? É assustador? — Brenda perguntou com um sorriso de lado.

— Velho? Menina, é o filho dele. E de velho só a cadeira onde ele estava sentado... — rimos juntas, mas corei ao perceber o quanto eu tinha reparado na aparência do Dr. Mike. Ele era bem mais alto que eu, uns 20cm talvez. Seu sorriso era lindo, era o que de se esperar devido sua profissão. Sua barba e seus cabelos estavam perfeitamente alinhados em um tom de castanho médio e seus olhos escuros que pareciam capazes de ler minha alma.

​Depois que meu irmão chegou e a situação de Liz estabilizou, decidi caminhar pelo hospital para conhecer meu futuro local de trabalho. Evitei o 7º andar, por puro nervosismo, e acabei no último andar — um terraço acolhedor, com sofás, plantas e até um pequeno palco. Parecia um refúgio.

​Mas o refúgio durou pouco. Ao me aproximar do palco, ouvi barulhos de beijos e risos contidos. A vergonha me atingiu em cheio. Saí correndo, fugindo da intimidade alheia, e quase atropelei alguém que saía do elevador: Dr. Mike.

​— O que você está fazendo aqui? — ele perguntou, direto e surpreso.

Expliquei sobre minha sobrinha, mas ele não pareceu convencido pela minha pressa.

— Me refiro a este andar. É permitido apenas para funcionários. E você parece que viu um fantasma.

— Eu não sabia... desculpa! — gaguejei. — Saí correndo porque não queria atrapalhar o que estava acontecendo ali atrás.

​Virei as costas e entrei no elevador sem olhar para trás. Fui rude, eu sei, mas a vergonha era maior que minha educação.

​No dia seguinte, meu pai, Otávio, me levou para o meu primeiro dia oficial. O carro cheirava ao café que ele tomara cedo.

— Filha, se não der certo, tenho três músicas novas escritas para você gravar — ele disse, com aquele jeito manso de quem sabe o que fala. Dei um beijo em seu rosto e desci, encorajada.

​Porém, assim que as portas do elevador se abriram no térreo, a realidade me deu um soco no estômago.

​Bia, a moça bonita que me acompanhara na entrevista, estava saindo aos prantos, amparada por um policial. Sua voz estava embargada, mas as palavras ecoaram pelo saguão:

— Acho que, por ele ser um Cavalcanti, pensou que eu não o denunciaria...

​O sangue fugiu do meu rosto. Apertei o botão do 7º andar com os dedos trêmulos. "Ele", o Cavalcanti da denúncia... seria o Dr. Mike? O homem que cuidava de crianças com necessidades especiais seria capaz de algo que exigisse a polícia?

​As portas se abriram no andar da odontologia. O silêncio ali era ensurdecedor.

​Fui direto para a recepção, onde Renata me deu as primeiras instruções. Ela mencionou que o Dr. Mike queria me apresentar o andar pessoalmente, mas estava "resolvendo um pequeno problema". O problema tinha nome e farda: assim que passamos pela porta dele, dois policiais saíram da sala. Consegui ver o rosto de Mike de relance e apenas dei um aceno discreto com a cabeça.

​Renata me mostrou a copa, os banheiros, os vestiários e as salas. Todos os funcionários eram simpáticos, mas a apreensão pairava no ar como uma nuvem carregada. Eu era a única ali que não sabia o que estava acontecendo.

​— O primeiro paciente do Dr. Mike já está a caminho e não deu para cancelar — explicou Renata, nervosa. — Mas os demais do dia foram suspensos.

​Fiquei na copa esperando. O silêncio era estranho, e eu sentia que Renata tinha me "escondido" ali para que eu não visse o movimento lá fora. Dez minutos antes do atendimento, a ansiedade venceu. Saí para o corredor e, ao virar a esquina da sala de consulta, parei abruptamente.

​Um homem, assustadoramente parecido com o Dr. Mike, saía da sala dele. Tinha o rosto vermelho, a roupa manchada de sangue e um pequeno curativo no lábio. Ele me mediu de cima a baixo, endireitou a postura e lançou uma risadinha maliciosa para o Mike.

​O Dr. o empurrou com força para fora e fez um sinal seco para que eu entrasse. Hesitei. Aquilo era uma loucura? Mas Mike me lançou um olhar — um pedido silencioso de ajuda — e eu tomei coragem. Entrei

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