Mundo de ficçãoIniciar sessãoO que alguns chamam de “fio vermelho”, “Kismet” ou “caminho tecido pelas Parcas”, Dorian chama de destino. Para muitos, uma palavra usada para justificar os acasos da vida, bons ou ruins. Para sua antiga e insana família, no entanto, é o princípio de tudo. É nela que começa o sentido da existência de um Clérigo. Há um ano, o fio vermelho levou Dorian até Pensacola Beach, onde ele deveria encarar a verdade de sua linhagem e tecer o próprio caminho. Só não imaginava que sua sina o levaria a uma mulher com a intensidade de um furacão. Ao escolher se mudar, Catherine só queria a leveza de um recomeço em um novo lugar. Contudo, esse desejo acaba saindo dos eixos ao conhecer seu vizinho e sua irmã e perceber que algo nos dois parecia fora do lugar. Quando se vê envolta no mistério que os cerca, ela começa a duvidar da realidade. E algumas verdades não mudam apenas uma vida. Elas mudam tudo.
Ler maisChuto a porta do meu velho e companheiro Mustang enquanto ouço o falatório da minha mãe sem parar. Se ela ao menos me desse alguns segundos para responder uma de suas mil perguntas eu ficaria grata.
— Cat, você está aí? — Marie, minha adorada mãe, pergunta.
— Sim, estou esperando você me deixar falar. — Respondo e gemo de frustração quando as coisas que eu seguro quase caem no chão. — Mãe, eu estou a sete passos no mínimo de entrar na minha casa nova, será que pode esperar até eu entrar para fazer todas essas perguntas?
— Não seja grossa, Catherine! Estou preocupada com minha única filha, o que é normal. Quando for mãe vai entender. — Ela fala cheia de drama, com a sua mais conhecida intenção de me fazer sentir mal por ser uma filha ingrata.
— Ok, mãe, já falo com você. A senhora está indo parar nos meus peitos por alguns minutos! — Falo e antes de ouvir sua resposta enfio meu celular no sutiã. Essa era uma vantagem de ter seios fartos.
Faço o curto caminho até a porta com passos lentos para não derrubar nada. Quando paro, suspiro e mordo o lábio para não gritar.
— Puta que pariu! — Exalo frustrada.
Demoro uma eternidade para pegar as coisas no carro e agora preciso colocar tudo no chão para poder abrir a porta.
Parabéns Cat, eu deveria ganhar um prêmio por ser tão burra! Penso comigo mesma.
— Olá!
É com essa palavrinha de três letras que a merda acontece. Levo um susto do caralho, dou um pulo e todas as malditas coisas que seguro vão para o chão.
— Jesus! — Uma garota talvez da mesma idade que eu ou mais jovem rapidamente está do meu lado, me olhando envergonhada enquanto se abaixa pegando minhas coisas. — Eu não queria te assustar, sinto muito mesmo!
— Tudo bem, não foi nada. — Minto forçando um sorriso e pego o resto das coisas que ficaram no chão.
— Moro na casa ao lado, estava indo cuidar do jardim quando te vi chegar. Você está claramente de mudança e parecia muito frustrada, então pensei que uma pequena ajuda seria bem-vinda. — Ela fala rapidamente com as bochechas coradas. — Me chamo Adelaide, mas pode me chamar de Dee, porque odeio meu nome.
— Bem, Dee, você está certa, preciso de ajuda e você chegou no momento certo apesar do susto. — Falo sorrindo de verdade agora. — Me chamo Catherine, mas pode me chamar de Cat, não porque eu odeie meu nome ou algo do tipo.
Aproveito sua oferta de ajuda e enfio a mão livre no bolso, pegando a única chave que havia ali, então abro a porta.
— Kat? — Ela questiona, como se estivesse testando como meu nome soaria.
— Cat, como um gato. — Corrijo. — Minha mãe gosta de se diferenciar nos pequenos detalhes.
Exalo novamente, lembrando que minha mãe ainda ouve tudo isso já que o celular ainda está ligado nos meus peitos. Coloco rapidamente as coisas que seguro na única mesinha que vejo ali e tiro o celular do sutiã.
— Mãe? — A chamo.
— Está tudo bem, Cat? Ouvi você xingar pelo menos umas três vezes. — Ela fala com o tom irritado.
— Sim, estou bem, mãe. Posso te ligar assim que terminar de tirar todas as coisas do carro? Tenho certeza que aquele cara vai chegar a qualquer minuto com a mudança, e assim que tiver tudo dentro de casa eu retorno a ligação. — Digo torcendo mentalmente para ela aceitar numa boa.
— Aquele cara, você quer dizer o que você pegou alguns meses atrás? — Ela questiona rindo levemente. — Vai se aproveitar do homem de novo, Cat?
— Jesus, mãe... — murmuro, segurando para não rir de Dee, que me olha tímida, certamente ouvindo tudo isso, porque o maior defeito da minha mãe é falar alto demais, como se tivesse um microfone embutido na garganta.
— Certo, me ligue depois. — Minha mãe fala rindo. — Não demore, quero saber como são as condições da sua nova casa. Até mais, querida.
— Tchau, mamãe. — Me despeço e desligo.
Volto a olhar para Dee, que ainda segura minhas coisas.
— Pode colocar isso em qualquer lugar.
Ela faz o que digo e depois passa as mãos na blusa. Dee é linda. Seus cabelos loiros ondulados estão presos em um rabo alto. Ela não é muito alta, não como eu que pareço uma girafa, e não preciso de muito para perceber sua delicadeza. Seus olhos azuis marcantes gritam meiguice.
— Você vai me ajudar a tirar o resto das coisas do carro? — questiono, e ela me olha sorrindo abertamente.
Uau.
— Claro! — Dee responde entrelaçando as mãos na frente do corpo. — Posso te ajudar a arrumar tudo também, se quiser e não te incomodar. Quer dizer, vamos ser vizinhas então acho certo começarmos a nos conhecer.
Olho bem para ela, analisando se ela seria uma boa vizinha ou não. Minha cota de vizinhos nas minhas últimas duas casas não foi agradável.
— Eu adoraria — digo por fim, me rendendo ao charme dela.
Ela abre a boca para falar algo, mas o barulho alto de uma buzina a corta.
— Bem na hora. — Falo abrindo a porta da frente novamente e vejo Dean descendo do caminho. — Minha mudança chegou.
— Puta merda, ele é o cara que você pegou? — Dee pergunta me olhando com a boca aberta.
Mordo o lábio e balanço a cabeça afirmando.
Eu entendo seu espanto, de verdade. Dean é o típico cara que você olha e começa a imaginar como seria se ele te pegasse e te levasse para a cama. Pense no corpo de Channing Tatum e você terá uma ideia de como Dean se parece. Moreno de olhos escuros e uma boca de matar, literalmente, porque o que ele faz com ela é insano.
— Kit! — Ele me cumprimenta quando nos aproximamos e vem em minha direção, me abraça forte. — Não demorei, hm?
— Não, Dean, não demorou. — Sorrio e aponto para a outra mulher. — Essa é Dee, minha vizinha.
Dee oferece a mão para ele, que aceita e a beija no rosto suavemente. E posso estar louca, mas acho que ela suspira.
— Vocês duas vão ajudar a descer as coisas? — Dean pergunta passando a mão pelos cabelos. — Há coisas pesadas, seria bom se tivesse outro homem para ajudar.
— Assim você nos ofende. — Cruzo os braços, o que faz o olhar dele ir para meus seios.
— Você sabe que não quis dizer nesse sentido. — Ele se defendo, zombeteiro.
— Bem, meu irmão está em casa...
— Você tem um irmão? — Pergunto interrompendo Dee.
— Sim, moramos os dois juntos. — Ela responde com um sorriso carinhoso. — Espere um segundo que vou chamá-lo.
Antes que eu diga algo, ela sai em disparada para a casa ao lado.
— Qual a diferença entre nós duas e um adolescente? — pergunto, revirando os olhos.
Dean ri e se encosta no caminhão, cruzando os braços.
— Eu sei que você dá conta do recado — Ele articula, sorrindo malicioso.
Bufo e me encosto ao lado dele.
— Não vai rolar, Dean. Combinamos que seria só uma noite.
— Podemos abrir o caso e entrar em um novo acordo. — Ele fala ainda sorrindo.
— Não vai...
Paro de falar quando vejo Dee e seu irmão saírem de casa e caminharem em nossa direção.
— Cat, este é Dorian, meu irmão — Dee professa, com um sorrisinho travesso.
Bem, o irmão de Dee não é adolescente. Pelo contrário, eu poderia muito bem melhorar a descrição que fiz sobre Dean e jogá-la para Dorian.
Merda, o cara é um maldito deus grego saído diretamente de algum livro de romance adulto. Seus cabelos são de um preto profundo, diferente do loiro de Dee, mas seus olhos, azuis brilhantes e intensos, me olham como se pudessem perfurar meu corpo e ver minha alma do começo ao fim.
Não sei quanto tempo ficamos nos encarando, mas possivelmente tempo suficiente para fazer Dean pigarrear, desviando nossa atenção.
— Prazer em te conhecer, Catherine — Dorian fala sem sorrir.
Ele oferece sua mão e eu a pego, sentindo sua pele áspera e quente contra a minha. Para Dean ele apenas acena de leve com a cabeça.
— Apenas Cat — murmuro com a voz falhando.
Merda.
— Vamos começar? Tenho outras mudanças para fazer — Dean profere, parecendo estar sem paciência agora.
Desvio meus olhos de Dorian.
— Venha me ajudar do lado de dentro, vamos deixar o pesado para os machões — digo colocando um sorriso no rosto.
— Não que você não consiga pegar pesado, gata, porque você consegue muito bem — provoca Dean.
— Obrigada por ajudar, Dorian. — Agradeço.
— Tudo bem, concordei porque Dee vai pagar as compras do mercado por dois meses por isso. — Dorian fala, dando de ombros.
— Não de ouvidos a ele, Dorian gosta de me envergonhar em público — Dee resmunga, com o rosto vermelho.
Passo meu braço suavemente no de Dee, a levando para dentro de casa.
— Não precisa ficar com vergonha por isso, eu estou agradecida pela ajuda inesperada que você me ofereceu. — Falo para ela. — Seu irmão deve me achar uma exploradora.
— Isso não é verdade desde que fui eu quem ofereceu ajuda. — Dee diz, sorrindo timidamente. — Dorian é difícil no começo, então você vai possivelmente querer estrangular ele a cada vez que o ver.
— Não sou uma pessoa fácil também — falo rindo.
— Então vamos torcer para que não aconteça nenhum assassinato. — Dee brinca.
Aceno sorrindo e a chamo para olhar a casa comigo. É boa e com uma ótima reforma, os dois quartos possuem banheiros, a cozinha tem um bom tamanho e já estou louca para usá-la, — não que eu cozinhe muito bem — a mesinha que tem na sala é a única coisa que me incomoda.
— Não gostei disso, por que alguém faria uma mesinha de centro fixa no chão? — Falo para Dee e olho de esguio quando Dean e Dorian entram com um dos meus sofás.
— Não tenho a mínima ideia, mas você pode encomendar um carpete ou tapete sob medida. — Dee diz avaliando a mesinha.
— É uma boa solução. — Concordo. — Só de pensar em desfazer todas as caixas, já me sinto cansada.
— Ainda bem que vai ter ajuda então.
— Nem sei como agradecer por isso. — Digo sorrindo com sinceridade. — Já não sabia mais o que era ter vizinhos agradáveis.
— Digo o mesmo, Cat, o casal que morava aqui antes era terrível. — Ela fala e estremece.
Olho novamente para os dois homens enormes na minha sala, que descem o último sofá. Não possuo muitos móveis no momento, desde que me desfiz de muitos antes de vir para cá, mas tenho o suficiente para toda a casa.
— Terminamos, Cat. — Dean fala pegando um lenço no bolso de trás e limpando o suor da testa, enquanto Dorian, ao contrário dele, não parece ter suado nem um pouco.
— Obrigada, Dean. Tenho fé que não vou precisar dos seus serviços por um bom tempo, não aguento mais me mudar.
— Se precisar de qualquer coisa, me liga. — Dean pisca para mim e me abraça, em seguida vai embora.
Fico no meio da sala, entre Dee e Dorian, em um silêncio constrangedor.
— Eu já estou indo também. — Dorian fala por fim. — Dee, não se esqueça de fazer as compras no mercado.
Faço uma careta quando ele sai sem dizer mais nenhuma palavra. Dee troca o peso de um pé para o outro, parecendo muito incomodada com a atitude rude do irmão.
— Pronta para abrir algumas caixas? — Pergunto a ela, para impedi-la de se sentir mal por algo que não é culpa dela.
— Nunca estive tão pronta para algo na vida. — Responde.
— Infelizmente vou precisar do vinho que está em alguma delas para fazer isso. Eu sinto meus músculos protestarem só de pensar em tudo que temos que fazer.
Nós duas começamos a abrir as caixas e tirar todo o conteúdo delas, arrastamos e colocamos todos os móveis que eu tenho no lugar certo. Paramos apenas para beber vinho e pedir comida em um restaurante que Dee gosta e diz ser um dos melhores da cidade.
Rimos e conversamos bastante, não sobre assuntos profundos ou pessoais, até porque acabamos de nos conhecer, e acho que para isso a confiança precisa estar em outro nível. Nunca tenho certeza se meus vizinhos vão ser agradáveis ou se vão se tornar meus inimigos.
Quando terminamos, tenho um enorme sorriso no rosto. Dee boceja, mas também parece satisfeita com nosso trabalho. Quando ela diz que vai embora eu a abraço e agradeço mais uma vez.
Depois de trancar as portas e tomar um banho demorado, me jogo na minha enorme cama e finalmente ligo para minha mãe. Quando fecho os olhos para dormir, tenho certeza de que me mudar para cá foi uma boa ideia.
E que as coisas finalmente vão começar a dar certo para mim.
Meus olhos encontram um par de olhos que oscila sem parar entre o azul inebriante e um forte violeta. Eles me encaram com raiva e decepção, enquanto seu peito largo sobe e desce em uma velocidade anormal.— Merda! — solto, quase tombando uma cadeira.— O que...Dee interrompe a própria frase quando segue meu olhar. Val nem sequer diz nada; apenas solta o ar e aperta minha mão, tentando me transmitir algum conforto.Dorian está parado no fundo, os braços inertes ao lado do corpo e os punhos cerrados com tanta força que, mesmo daquela distância, consigo ver os nós brancos de seus dedos.Abro e fecho a boca repetidamente, como um peixe fora d’água. Dou um passo à frente, mas ele simplesmente desvia o olhar e começa a sair do clube.— Você ligou para ele? — grito para Dee.— Ele já estava aqui. Estava preocupado que eles fossem aparecer — responde apressadamente. Seu rosto está vermelho, mas sei que não é de vergonha. — Eu mandei uma mensagem para ele, apenas para que ficasse ciente.— O
— Ian? — reconheço, olhando para o homem que para diante de mim.Ele veste uma camiseta azul-marinho justa e uma calça jeans de cós baixo que, por incrível que pareça, fica muito bem nele, deixando visíveis todos os seus músculos torneados. Seus cabelos loiros estão puxados levemente para trás com extrema perfeição, e aqueles olhos verdes-claros me encaram, cheios de surpresa.Eu me esqueci de como Ian é grande e lindo.— Assim que entrei, reconheci você. Esse cabelo lindo e esse corpo incrível são inconfundíveis! — exclama ele.Forço um sorriso e me levanto, aproximando-me dele. Quando oferece a mão e aqueles olhos brilhantes se voltam para os meus, suspiro, sem jeito, ao perceber que ele me puxa para seus braços em um abraço apertado e bastante significativo..— Você parece bem, Ian. Não sabia que ainda fazia parte do show — comento quando me afasto, tentando ignorar os olhares perplexos das minhas duas amigas, que agora nos encaram com espanto. Mas sei que o espanto é por causa del
Meu celular vibra, e sorrio ao ler a mensagem de Dorian.Dorian: Tudo bem por aí, amor?Tenho que me lembrar de, futuramente, pedir a ele para falar em italiano para mim, trocar “amor” por “amore” e sussurrar baixinho coisas absurdas no meu ouvido.Balanço a cabeça e digito rapidamente uma resposta. É a terceira mensagem que ele me manda desde que nos conhecemos. Lembro que ele me disse não gostar muito de celulares.Eu: Sim, estou fora com Dee e Val. Vamos mostrar alguns lugares para sua irmã.Uma buzina soa alta atrás de mim, e eu pulo de susto. Estou esperando por Dee e Val na frente do clube, enquanto as duas lidam com o cara na entrada. A resposta de Dorian chega, e eu literalmente suspiro.Dorian: Tomem cuidado. Se precisar de mim, me ligue e estarei aí. Sinto sua falta, Cat.Guardo o celular na pequena bolsa que trouxe. Por um momento, penso que seria ótimo se Dorian estivesse aqui, e não a seis horas de distância. Ainda estou ressentida comigo mesma por ter sido horrível com e
Oito horas depois — das quais passamos mais de cinco dirigindo até Jacksonville e quase duas ouvindo um médico explicar a situação da minha mãe, além de assinar os papéis de sua liberação do hospital — finalmente a levamos para casa. Gemo de cansaço e fecho a boca para não começar a xingar como um marinheiro.Eu amo minha mãe, Marie, com todo o meu coração, mas, se em perfeito estado de saúde ela já era uma peça rara, imagine com uma perna quebrada e um pulso torcido.Dee, a verdadeira calma em pessoa, responde pacientemente a todas as perguntas dela. Mesmo quando minha mãe reclama sem parar, sua expressão permanece serena e atenta. Quase pergunto se ela não pode usar seus poderes para silenciá-la, mas logo me sinto um monstro em forma de filha. Então me calo e começo a pensar.Eu sabia do que Dorian era capaz. Ele também tinha me contado quais eram os dons da irmã, mas eu ainda estava completamente perdida naquele mundo sobrenatural em meio à realidade mundana. E, pensando nisso, com





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