Mundo de ficçãoIniciar sessãoPreciso que fique até mais tarde hoje.
Bruno disse com aquela voz arrogante de sempre, assim que cheguei.
Apenas para se familiarizar com o movimento.
Ele malditamente voltou a abrir aquela boca para falar, e não foi a última vez. Aquele cara gosta de ouvir a própria voz.
E eu, como a precisa funcionária que sou, apenas concordei de boca fechada, temendo que, se falasse algo, não sairia nada de bom.
Sou uma pessoa levada facilmente ao limite; apenas minha mãe e Val, minha melhor amiga, são capazes de me aguentar nesses momentos.
Entro no banheiro para funcionários e tranco a porta, sabendo que, se eu não ligar para minha mãe, ela certamente usaria chantagem emocional e diria para eu voltar para casa.
Resolvo ligar para Val.
O celular toca quatro vezes até ela atender.
— Não acredito que já está com saudade! — Val praticamente grita ao atender.
— Eu sempre estou com saudade de você, Val. — sorrio. — Como estão as coisas por aí, bonita?
Ela solta um suspiro forte.
— Daquele jeito, Cat. — E eu já sei exatamente do que ela está falando. — Não precisa dizer nada, já ouvi você repetir isso tantas vezes que, se disser mais uma, vou atravessar minha mão pelo celular e te estapear.
— E mesmo assim você ainda não me escuta? — ela ri abafado.
Val está em um relacionamento de seis anos. Ela ama Tyler, mas, com o tempo, a relação dos dois desanda e ele simplesmente não se importa mais com nada relacionado a ela. Mesmo assim, ela tem receio de terminar, o que é ridículo. Val é incrível, não deveria estar presa a alguém assim, e isso me deixa louca.
— Ok, mudando de assunto, está tudo bem? — ela pergunta.
— Não e sim. Meu novo chefe é um idiota, mas não quero falar sobre esse babaca. Me conta alguma novidade, preciso me distrair.
— Certo… então deixa eu te contar uma coisa do livro que eu estava lendo dois dias atrás...
Ela começa a narrar uma das histórias mais insanas dos romances dela, como se fosse algo completamente real.
Eu rio de tudo o que ela me conta. Nem sempre porque é engraçado, mas porque Val tem o dom de fazer qualquer história soar divertida só pela forma como conta.
— Aposto que você avaliou muito bem essa leitura — zombo, ainda rindo.
— Pode apostar, filhota. Me fez rir, chorar, quase infartar… cinco estrelas!
Engasgo com outra risada.
Minha amiga é impossível.
— Val, obrigada… já não me sinto uma merda — profiro com sinceridade, soltando um suspiro. — O que eu faria sem você?
— Sinceramente? Eu não sei. Eu literalmente sou sua luz no fim do túnel.
Balanço a cabeça sorrindo e abro a torneira; logo alguém bateria na porta achando que eu tinha me afogado na privada.
— Tenho que ir, ainda estou no trabalho.
— Me liga mais vezes, sinto sua falta — ela diz, a voz ficando embargada. — Eu te amo, vadia.
— Também sinto sua falta, amo você, bonita — desligo o celular e o enfio no bolso de trás do jeans.
Arrumo minha blusa e lavo as mãos. Respiro fundo, destranco a porta e saio, dando de cara com uma das atendentes. Aceno para ela e saio rapidamente, pronta para enfrentar qualquer coisa que aconteça ali durante as noites.
Paro quando chego ao escritório de Bruno; ele não diz o que devo fazer enquanto o clube está em movimento. Bato na porta e espero até ouvir o “entre” para abri-la.
— Catherine — ele diz, me olhando de cima a baixo, como sempre. — Posso te ajudar?
— Você quer que eu faça algo específico hoje à noite? — pergunto sem qualquer emoção.
Estou cansada e ainda mal-humorada, mas algumas horas extras seriam um grande alívio para minha carteira.
— Apenas observe o movimento nas diferentes áreas. Hoje é sexta, o clube estará bem movimentado, isso é uma coisa boa, vai ajudar nos seus cálculos administrativos quando ficar até tarde em um dia no meio da semana — ele diz, se encostando na cadeira ou, melhor, quase se deitando nela. — Combinado?
— Claro, claro — falo entre os dentes. — Se for isso, já estou indo.
Me viro querendo sair daquele pequeno cômodo, mas suas palavras me param
— Só mais uma coisa, Catherine — ele acrescenta, e eu me viro apenas até certo ponto, o suficiente para vê-lo com um sorriso debochado. — Sorria enquanto estiver perto dos clientes, aposto que, se fizer um esforço, é capaz disso.
Conto até dez, bem devagar, me segurando para não mandar ele tomar no cu.
— Tenho certeza de que as pessoas que frequentam o clube são agradáveis, não vai ser preciso qualquer esforço — retruco rudemente e abro a porta. — Boa noite, Sr. Gonzalo.
Seria um milagre se eu não perdesse meu emprego por isso, já que o bastardo arrogante gosta de sempre estar por cima.
Passo pela porta dos funcionários que dá direto no bar do clube. Cumprimento os dois barmans e a outra barwoman. Passo por debaixo do balcão e me sento em um dos bancos do outro lado.
Já passam das 20 horas e o clube já está com um bom movimento. Cruzando os braços, observo o lugar que tenho que admitir, é incrível. Estou trabalhando aqui há alguns dias, mas nunca parei para olhar bem o ambiente. Não frequento muito clubes, prefiro barzinhos ou algo do tipo, mas estou gostando daqui, apesar do proprietário ser quem é.
Uma enorme pista de dança toma conta da direita do local. Do outro lado, algumas mesas redondas com cadeiras ao redor estão espalhadas de forma bem alinhada e organizada. Mais ao fundo, perto das mesas, há um palco de tamanho considerável para um bom show, e logo atrás, um enorme televisor.
A música ainda soa baixa nos alto-falantes. No piso superior estão alguns camarotes e a mesa do DJ. Seguro um assobio impressionado — agora entendo por que Bruno, apesar de jovem, é bem-sucedido. O clube The Moon é fodidamente luxuoso.
De esguio vejo um Cosmopolitan deslizar pelo balcão em minha direção. Lanço um olhar ao barman que enxuga as mãos em um pano sobre o ombro — acho que o nome dele é Matteo, não tenho certeza.
— Não acho que seja certo beber durante o trabalho, mas agradeço — digo, pegando a taça. Não é meu drink favorito, mas está delicioso.
— Posso te garantir que o chefe, apesar de ser um idiota, não vai se importar — ele responde com um sorriso, dando de ombros. — Sou Matteo, não sei se fomos devidamente apresentados.
Eu tinha acertado o nome dele, pelo menos.
— Acho que não. Apenas lembro de Bruno apontando o dedo para cada funcionário e dizendo seus nomes enquanto me mostrava o lugar — explico, oferecendo a mão por cima do balcão. — Cat.
— Tenho certeza de que foi horrível passar pelo tour do sofrimento — Matteo comenta, apertando minha mão de leve.
— Oh Deus, eu literalmente não parava de pensar que Bruno andava com algo enfiado no rabo. Ninguém pode ser daquele jeito o tempo todo — sussurro, só para ele ouvir.
Matteo ri, balançando a cabeça enquanto seca alguns copos.
— Ele é assim, acredite. Mas você vai se acostumar — ele afirma, olhando o movimento aumentar. — Tenho que começar a me mover, Cat. A gente se fala depois?
— Claro — respondo com um sorriso.
— Peça qualquer outra bebida por minha conta — Matteo pisca e sorri amplamente. — Foi um prazer, gata.
Aceno ainda sorrindo e volto a me virar para frente, observando o movimento.
Sinto meu coração acelerar quando vejo duas formas passarem pela entrada.
Merda.
Estão vindo direto para mim e preciso lutar para manter o equilíbrio sobre o banco.
O que diabos está acontecendo comigo?







