Mundo de ficçãoIniciar sessãoForço um sorriso que deixaria Bruno orgulhoso quando Dorian e Dee param na minha frente, ambos ridiculamente lindos como dois anjos descidos do céu.
— Olá, Cat — Dorian diz, sorrindo lindamente para mim.
Caramba, a noite está começando a ficar interessante.
Dee se inclina e me abraça, me deixando ainda mais desconfortável e desajeitada.
— Cat, não sabia que ficava até tarde no trabalho — ela comenta.
— Hora extra, mais ou menos — respondo com desconforto. Quem não ficaria sob aqueles dois pares de olhos fixos em você?
— Mais ou menos parece bom, assim podemos beber algo, nós três — ela sugere meigamente, e eu nunca conseguiria dizer não, mesmo se quisesse.
— Como está lidando com o seu chefe? — Dorian pergunta, sentando ao meu lado, enquanto Dee se acomoda no outro banco. Me sinto uma fatia de queijo no meio de um misto-quente.
— Como um bom soldado — resmungo e coloco a taça vazia no balcão, me virando para o bar novamente. — Não sei como alguém o suporta.
— Eu acho Bruno amável — Dee diz, quase imediatamente.
— Adelaide diz isso porque o namorou por algum tempo — Dorian comenta, e fico ainda mais chocada. — Por isso nós o conhecemos.
— Você deveria ganhar um Prêmio Nobel — ironizo, rindo secamente. — Hoje ele praticamente disse que eu era uma funcionária azeda e infeliz.
— Não acho que ele esteja errado — Dorian provoca.
— Claro que você concorda. Ambos são ignorantes, nunca discordariam da opinião um do outro — retruco, encarando-o fixamente.
— Cat tem razão, não seja babaca, Dorian, ou vou começar a contar seus segredinhos sujos para ela — Dee ameaça, sorrindo maldosamente para o irmão. — Assim Cat terá algo para usar contra você.
— Acho que vamos ser ótimas amigas, Dee — digo.
— Que Deus nos ajude! — Dorian dramatiza.
Depois de mais alguns insultos, entramos em uma conversa sobre a faculdade que frequentamos e coisas aleatórias. Peço mais dois drinks e me surpreendo com a quantidade de risadas que dou. Meus vizinhos são agradáveis e leves; faz tempo que não conheço pessoas assim.
Dee conta que eles estão em Pensacola Beach há apenas um ano e que ela e o irmão sempre moraram juntos, saindo de casa pela primeira vez há quatro anos, quando os pais se divorciaram.
Ela me pergunta sobre meus pais e se tenho irmãos. Tomo mais um gole do drink antes de responder. Falar sobre isso sempre é uma merda.
— Meu pai e meu único irmão morreram em um acidente de lancha há cinco anos — falo, engolindo em seco, forçando meus olhos a permanecerem secos. — Bateram em uma rocha durante um passeio ao entardecer e a lancha simplesmente explodiu.
— Sinto muito — Dorian diz primeiro, e pelo calor em seus olhos sei que está sendo sincero.
— Obrigada — digo sob a música que agora está estourando pelo clube. — Às vezes eu penso que sou uma filha muito ruim para minha mãe, mas estávamos ambas sufocadas depois do acidente. Minha mãe se tornou uma pessoa muito emocional e sempre usa isso como chantagem. Sou realmente ruim, não sou? Por dizer essas coisas?
— Não, você não é uma pessoa ruim! — Dee aperta de leve minha mão. — Eu e Dorian somos experts quando o assunto é drama familiar, acredite. Nossa mãe liga apenas para saber se não nos matamos ainda. Acho que às vezes ela se esquece que tem dois filhos.
— Quantos anos de diferença vocês têm? — pergunto curiosa.
— Tenho 26 e ela 23 — Dorian responde, bebendo o conteúdo do copo. — E você, Cat?
— 26 também — respondo, com os olhos presos nos dele.
— Almas gêmeas — ele fala, erguendo o copo, pedindo por mais uma.
Levo um susto quando Dee agarra meu braço, me fazendo olhá-la.
— Temos que dançar essa música! — ela fala já de pé. — Por favor, Cat!
Droga...
Eu conheço a música que começa a tocar. É “Pony”, de Ginuwine, e eu amo, aliás, mas tenho um problema com dançar em público. A verdade é que eu não sei dançar muito bem. Porém Dee não me dá nem chance de dizer isso; sai me puxando para a pista de dança como alguém em uma missão. Quando ela para, já se balançando e rebolando com seu quadril estreito, eu quero virar pó e desaparecer.
Coloco uma mecha do meu cabelo atrás da orelha e olho ao redor, procurando uma fuga. Dee se agarra a um cara e começa a dançar com ele, me deixando um pouco surpresa, já que ela parecia sempre tão acanhada, mas logo deixo isso de lado e comemoro mentalmente — aquela é minha deixa.
Começo a passar pelas pessoas que dançam como se não houvesse amanhã, corpos suados e cheios daquelas tintas fluorescentes para pele. Paro de súbito quando mãos grandes e firmes seguram meu quadril, me impedindo de continuar minha fuga.
— Parece que está fugindo, como um gatinho assustado — a voz grossa de Dorian perto do meu ouvido me causa arrepios no corpo.
— Eu apenas não sei dançar muito bem. Se Dee tivesse me dado chance de dizer isso, eu não teria que correr para fora da pista de dança — falo alto, um pouco irritada, mas não tiro suas mãos de mim. Não seria tão hipócrita.
— Esse é o problema? — Dorian pergunta e me puxa levemente para trás, me fazendo encostar em seu corpo. — Posso te ajudar com isso.
— Eu acho que não — digo rapidamente. — Não preciso aprender qualquer coisa. Sou ruim, mas não tão ruim.
Dorian não diz nada. Quase acho que ele vai me soltar e deixar por isso mesmo, mas então seu aperto fica mais forte e, naquele momento, outra música já toca. Ele move as mãos e me faz balançar conforme me guia.
Fecho os olhos e aperto os lábios, sentindo meu coração bater desesperadamente como as asas de um beija-flor. Deixo ele me levar — poderia culpar aqueles poucos drinks, mas foda-se. Eu estou dançando colada ao meu vizinho gostoso, sentindo seu peito firme contra minhas costas, e com os olhos ainda fechados deixo meus pensamentos irem para onde não deveriam.
Dorian é alguns centímetros mais alto do que eu, mas nem isso me impede de sentir sua respiração quente e rápida contra minha nuca. O aperto em minha cintura se desfaz e eu quase protesto, mas ele tem outra ideia. Me vira de frente para ele e volta a colocar as mãos em minha cintura. Abro os olhos e perco o ar quando encaro aquelas duas esferas azuis. Coloco minhas mãos em seus ombros, sentindo seus músculos e sua tensão.
Pelo menos eu não sou a única afetada ali.
Ele se abaixa, a boca perto da minha orelha.
— O que está fazendo? — Dorian pergunta.
— O quê?
— Você estava se esfregando em mim — ele responde, me fazendo encará-lo.
— Desculpe? Acho que não ouvi direito? — falo, tirando minhas mãos dele e o obrigando a tirar as dele de mim.
— Não que isso me incomode, mas não tenho certeza do que você estava fazendo — ele diz, me olhando com um sorrisinho.
Olho para ele por um momento, irritada com o que ele acabou de dizer. Percebo que estou chamando muita atenção, parada como uma estátua, com punhos cerrados.
— Escute, Dorian, se eu me esfreguei em você, deve ser porque você se agarrou na minha cintura e me arrastou contra você! — rujo, encarando-o. — Vai se foder, idiota!
Me viro para sair dali, ou acabaria atacando alguém — e ele seria minha principal vítima.
— Cat, não foi isso que eu quis dizer — Dorian fala, segurando meu braço. — Você entendeu errado...
— Dorian, me solte — falo, olhando do braço dele para o rosto. Quando ele solta, volto a encará-lo. — Quando você crescer e agir conforme sua idade a gente conversa, parceiro. Você não tem o direito de colocar suas mãos em uma mulher, fazer o que estava fazendo comigo e depois dizer o que acabou de falar. Eu até achei que você podia ser um idiota, mas não imaginei que fosse um completo.
— Cat...
— Boa noite! — exclamo e vou até o bar com passos longos e rápidos.
Passo por debaixo do balcão, parando apenas para agradecer e me despedir de Matteo, atravesso a despensa e vou até meu armário, pego minha bolsa procurando as chaves do meu carro.
Bufo alto ao sair do clube. Tudo bem, eu posso até ter me esfregado contra o cara, mas ele também estava fazendo isso. Meu vizinho idiota é grande e esperto o suficiente para saber o que estava fazendo. Não sei qual é a dele, mas sinceramente não me importo. Gosto da irmã dele e quero manter uma boa vizinhança; o pequeno ocorrido com ele não vai estragar isso.
Entro no meu carro e suspiro, tirando meus saltos e gemendo com o alívio que sinto.
Dirijo devagar porque bebi, usando esse tempo para pensar no resumo que vou dar para Bruno — um que precisa ser bom o suficiente, considerando que fui uma péssima funcionária, bebendo e dançando com clientes da noite. Quando finalmente deito na minha cama para dormir, um estranho sorriso surge no meu rosto. Apesar de todo o estresse, minha vida está tendo alguma ação novamente e eu estou vivendo outra vez — isso tem que contar.
Meus olhos pesam e eu os abro e fecho lentamente algumas vezes, mas tenho certeza de que, antes de adormecer, vejo uma grande águia branca me encarando do lado de fora da minha janela.







