Capítulo 2 - Catherine

Contenho a vontade de chutar a porta do meu carro mais uma vez.

Estou morrendo de dor de cabeça e estressada além do limite, mas isso certamente é por causa do meu novo emprego. Tudo novo é frustrante, até mesmo minha casa nova me frustra.

Eu sou péssima em me adaptar a novidades.

Faz uma semana desde que me mudei e, porra, ando tanto sob pressão que quando ouço o toque do meu celular simplesmente grito. Não falo com Dee ou seu irmão durante esses dias e vejo, vez ou outra, movimentos na casa, já que a janela da minha cozinha dá para a janela da sala deles.

Mas hoje, uma plena segunda-feira, estou uma fera.

O idiota do meu chefe, tal de Bruno — o que tem de bonito tem de antipático — já me faz querer arrancar sua cabeça fora e jogar na caçamba de lixo mais próxima.

Mark, um amigo meu — e um dos sócios mais queridos de Bruno, que tem um extravagante clube onde rola de tudo, tudo mesmo — me diz sobre a vaga e eu acabo conseguindo um emprego administrando o lugar.

Um bom emprego e um bom salário. O problema é ter que aguentar as idiotices de Bruno, o que certamente vou ter que fazer por algum tempo. A última coisa que quero é voltar para minha cidade e para a casa da minha mãe, que jogaria um “eu te avisei” na minha cara na primeira oportunidade.

Saio da garagem e puxo a grande porta para baixo um pouco rápido demais, o som estrondoso me faz pular de susto.

— Jesus... — suspiro, passando as mãos pelo rosto. Se eu for nesse ritmo, acabo destruindo a casa. Que desastre.

Me viro para entrar em casa e dou de cara com Dorian me olhando sem qualquer expressão específica. Ele parece um detergente neutro em forma de gente.

— Oi? — pergunto, insegura, já que ele entrou no meu quintal e eu nem sequer ouvi seus passos.

— Ouço um estrondo e penso que você está com algum problema — ele diz, sem desviar o olhar.

— Apenas puxei a porta rápido demais, então o metal bateu forte no chão. Sou um pouco desastrada — dou de ombros.

— Um pouco? — o canto da boca dele se ergue.

— Não repita isso para o seu próprio bem — aviso, estreitando os olhos.

Me viro em direção à porta da frente. A casa tem um design estranho, mas, apesar disso, é confortável e o aluguel tem um bom preço.

Pego minhas chaves e encaixo a chave certa na fechadura.

— Você não está sendo uma boa vizinha — a voz de Dorian surge logo atrás de mim, grave e terrivelmente sedutora. Ele nem tenta.

Terrível porque ele parece um idiota como muitos outros homens, e ainda assim a voz dele é divina. É questionável eu me impressionar tanto com isso, mas e daí?

— Oh? Você veio até aqui sem ser convidado e ainda foi rude — viro para encará-lo.

Dorian me observa por um bom tempo. Então sorri. Um sorriso completo, mostrando os dentes.

Fico em silêncio por um segundo. Ele não tinha sorrido antes. E agora estou de boca aberta.

O sorriso ilumina o rosto dele de uma forma absurda, quase injusta. Lindo de morrer, e claramente com um aviso de “perigo” estampado em cada traço.

— Já que estou aqui, poderia me convidar para entrar. Ajudei a colocar os móveis aí dentro. Seja educada, vizinha — ele diz como se fosse óbvio.

— Você só ajudou porque sua irmã te chantageou — lembro sem hesitar.

— Isso não muda o fato de que ajudei, muda? — ele rebate.

Quero estapear esse sorriso convencido até ele desaparecer.

Respiro fundo várias vezes. Minha cabeça lateja.

Empurro a porta e aponto para dentro.

— Se quer entrar, vá em frente.

Dorian dá um passo à frente e para ao meu lado. Quando ele se aproxima, engulo em seco. Ele é grande, cheiroso e intimidador de um jeito irritante.

— Claro, vizinha. Aceito entrar e tomar algo — ele sorri de novo. — Será um prazer.

E entra na minha casa como se fosse dele.

Fico parada por um segundo, sem respirar direito.

Que merda.

Esfrego a têmpora e entro logo depois, fechando a porta. Tiro as sapatilhas e deixo perto do sofá. Quando piso no tapete felpudo, seguro um gemido de satisfação. Levanto o olhar e encontro Dorian me observando.

— O que foi? — corto, sem paciência.

— Você é estranha — ele diz, neutro.

— Olha só quem fala, o vizinho esquisitão — passo por ele em direção à cozinha.

Ele me segue.

— Cat como um gato. Você não me acha esquisitão — afirma com convicção.

— Dorian com D de doido. Já ouviu falar de modéstia?

— Já ouvi falar, mas pessoas como eu não usam essa palavra — ele responde.

Olho por cima do ombro.

— Pessoas como você?

— Pessoas incrivelmente lindas — ele diz, com um sorriso de lado.

Eu rio. Alto.

Abro a geladeira e pego duas Coca-Cola. Entrego uma a ele. Quando nossos dedos se encostam, sinto um arrepio estranho e prendo a respiração por um segundo.

Eu poderia entrar em combustão só com ele me olhando desse jeito.

— Sente-se — aponto para a banqueta.

Tomo dois comprimidos para enxaqueca e engulo com refrigerante.

— Não sei se isso é indicado sob termos médicos — ele comenta.

Sento na banqueta oposta e encaro ele.

— Você é médico?

— Não

— Então pronto.

Ele balança a cabeça, como se não acreditasse em mim.

— Você trabalha com o quê? — ele pergunta.

— Administro um clube a quatro quadras daqui — respondo.

— O “The Moon”? — ele me encara, curioso.

— Esse mesmo — confirmo. A dor já começa a aliviar.

— Vejo porque sua cabeça dói agora. Bruno não é uma pessoa fácil — ele murmura.

— Meu chefe é um cuzão. — Não penso duas vezes.

Ele ergue uma sobrancelha.

— Você fala o que pensa, né?

— Não falo nem metade — dou um sorriso curto. — Isso já me torna uma pessoa maravilhosa.

— Se falasse tudo, as pessoas sairiam chorando — ele comenta.

— Os homens pelo menos não — escapa antes de eu me segurar.

— O quê? — ele sorri.

— Nada — corto rápido. — Como vai Dee?

— Ela está bem. Trabalha muito — ele responde.

— Que bom.

O silêncio cai entre nós é incômodo.

Eu já estou inventando perguntas na minha cabeça quando o celular dele toca. Ele se levanta, encara o visor e lê algo com uma leve careta, digita rápido e guarda o aparelho no bolso.

— Tenho que ir — anuncia.

— Oh, que pena.

— Estava quase me colocando para fora, hein? — ele provoca.

— Jamais — respondo, inocente demais até para mim mesma.

Acho que ele ri baixo.

Abro a porta e fico esperando.

— Foi um prazer aceitar seu autoconvite para entrar em minha casa — falo, ajeitando uma mecha de cabelo.

— Tenho certeza que sim — ele responde, com aquele meio sorriso. — A gente se vê, Cat.

— Tenho certeza que sim, Dorian.

Ele sai, e fico parada até ele desaparecer na curva e entrar na casa ao lado.

Fecho a porta e volto para a cozinha. Faço um macarrão instantâneo e pego mais um refrigerante. E viva a minha saúde.

Levo tudo para a sala, coloco na mesinha que antes eu odiava, agora gosto. Pego meus documentos na bolsa e me sento no tapete.

Perfeito.

Essa vai ser uma noite maravilhosa.

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