Mundo de ficçãoIniciar sessãoFugindo da rotina em Londres, Henrietta decide passar uns dias de verão na Cornualha. Ela busca tranquilidade e sol, mas tudo muda quando quase se afoga na costa britânica e é resgatada por Nicholas, um salva-vidas e biólogo marinho local. Enquanto ele mostra a ela a beleza selvagem das praias e os segredos do mar da Cornualha, o coração de Henrietta começa a derreter. Em meio a falésias imponentes e dias ensolarados, nasce uma paixão avassaladora. Agora, com o fim daqueles dias batendo à porta, ela precisa decidir se vai seguir a vida de antes, e se o seu primeiro amor pode se tornar o último.
Ler maisEstava a horas dirigindo até St Ives, na Cornualha. Estou longe de casa, porém a outra opção era passar as férias discutindo com meu pai, eu sei que ainda vou ouvir muitas coisas do meu pai por escolher a faculdade de designer de moda, mas como ele pode achar que eu continuaria trabalhando na empresa dele? Eu não tenho nada haver com o meio corporativo, sinto a frustração dele por eu não seguir seus passos e vou lidar com isso, mesmo que esteja sendo covarde fugindo dele por umas semanas.
Era empolgante a sensação de conhecer outra cidade e o clima era perfeito, esse era um dos verões mais quentes desses últimos anos. Quando cheguei em St Ives eu entendi porque falam tanto daqui, ela é esplêndida, por aqui tem galpões de salga, estúdios de artes, casas de barcos, armazéns de porto, as conhecidas e enormes casas vitorianas, bunkers, galerias de artes, comércio local, as tradicionais casas de pescadores e tantas outras coisas que vi. Escolhi passar as próximas duas semanas em uma casa de pescadores, a fishermen cottage é uma pequena construção de pedra pintada de branco, teto baixo com vigas de madeira escura e tem um cheiro reconfortante de café fresco misturado ao sal do mar que entra pela janela aberta. O espaço é pequeno, mas abraça a gente imediatamente. Muitas mudanças aconteceram e mesmo com modernidades aqui ainda é uma típica cidade do interior e litoral. Depois de guardar minhas coisas, olhei as mensagens no meu celular, tinha poucas, então respondi algumas e desliguei meu celular pra não descarregar. Desci pelas ruas estreitas até Porthmeor Beach, escolhi um lugar próximo do mar, estava tudo calmo e tinha poucas pessoas na praia. Peguei um livro pra ler, estava relendo Emma de Jane Austen. Deitei bruços sobre minha canga estampada com o mapa do metrô de Londres, agora eu podia aproveitar, essa pausa está sendo muito bem-vinda. Acabei cochilando e de repente uma onda avançou cobrindo me cobrindo inteira com uma água absurdamente fria. Dei um salto, tossindo e cuspindo água salgada, a maré de Porthmeor Beach havia subido tanto e minha bolsa agora flutuava bem longe de mim. O romance também tinha ido parar longe, parecia encharcado, parece que perdi o único livro que trouxe comigo. - Droga, droga, droga! Tentei andar, mas a areia parecia movediça, queria pegar minha bolsa e o que sobrou do livro, mas obviamente não estava dando certo. - Eu não recomendaria lutar contra o Atlântico por um livro. O mar sempre ganha. A voz era profunda, carregada com o sotaque arrastado e musical do sudoeste da Inglaterra. Ergui os olhos e o vi. Ele caminhava pela água com uma facilidade irritante, em pouco tempo ele pegou a minha bolsa e o livro ensopado. Ele usava uma bermuda preta e uma camiseta de salva-vidas, tinha ombros largos e uma postura atlética. A pele dele tinha aquele tom bronzeado de quem vivia sob o sol. Seu cabelo castanho estava bagunçado e úmido. Mas foram os olhos - de um verde impressionante - que me fizeram esquecer por um segundo que eu estava com água gelada até a minha cintura. Ele me estendeu a bolsa e o livro que não tinha salvação, só podia torcer pra não ter perdido nada de importante. - Acho que isso aqui pertence a uma londrina. Quando peguei minhas coisas, os meus dedos frios roçaram brevemente nos dele, senti um arrepio que não tinha nada a ver com a temperatura da água. - An.. Obrigada - gaguejei, tentando manter a dignidade enquanto tentava tirar o cabelo molhado do rosto. - E… como você sabe que sou de Londres? Ele deu um sorriso de canto, apontando com o queixo para a canga que agora afundava na espuma da maré. - A linha Piccadilly está bem ali, submersa. Além disso, vocês, turistas da cidade grande, têm uma fé cega de que o oceano vai respeitar o espaço de vocês. Senti meu rosto arder, e desta vez não era o sol. Puxei a canga pesada da água para fora da água. - Eu olhei a previsão do tempo! Dizia que faria sol o dia todo. - O tempo, sim, mas você não olhou a tábua de marés, olhou? - Ele cruzou os braços, com um olhar de divertimento fixo em mim. - Na Cornualha, o mar sobe metros em pouco tempo. A Porthmeor não perdoa quem dorme no ponto. - Eu estava cansada. O trem de Paddington atrasou ontem, a estrada até aqui parece um labirinto de arbustos e... - Parei, percebendo que estava falando demais com um completo estranho, que sendo sincera é muito bonito. Suspirei, olhando para o livro destruído - Desculpe. Eu só queria um dia perfeito de praia. A expressão dele suavizou instantaneamente. O tom provocativo deu lugar a simpatia amigável. - O primeiro dia é sempre o mais difícil… Sou o Nicholas, a propósito. - E eu sou a Henrietta, mas prefiro ser chamada de Ettie, até hoje não sei porque meus pais escolheram esse nome. - Bem, Ettie, Henrietta não é ruim... - Ele olhou para cima, avaliando o céu. - O sol ainda vai durar algumas horas. Se você se mover para a parte alta da praia, perto das rochas, estará segura da maré. E há um quiosque ali em cima que serve o melhor chocolate quente com pimenta da costa. Você parece precisar de algo para se aquecer. Olhei para meus braços arrepiados pelo frio da água, depois voltei a olhar para ele. Havia algo intensamente reconfortante na presença dele. - Obrigada pelo resgate, Nicholas. E pelo aviso geográfico. - É o meu trabalho - ele disse, dando um passo para trás em direção ao mar aberto, mas sem desviar os seus belíssimos olhos. - Mas tente não dormir de novo perto da água. Eu posso estar ocupado salvando alguém que realmente saiba nadar. Ele piscou para mim, um gesto rápido e charmoso, antes de se virar e correr de volta ao posto de salvamento. Fiquei parada por um momento, tive vontade de rir, mas me limitei a franzir a testa. A minha canga pingava água gelada nos meus pés e o meu coração batia mais rápido do que deveria, e aqui estava eu observando ele. As férias na Cornualha definitivamente não seriam como eu planejava. Ainda sentia muito frio, me arrastei até a parte alta da praia, exatamente onde ele havia sugerido. Estendi a canga - que agora parecia pesar uma tonelada - perto de um paredão de pedras escuras e sentei, abraçando os meus joelhos. No entanto, não conseguia focar em nada. Os olhos verdes e o sorriso dele pareciam gravados na minha retina. Alguns minutos depois, uma sombra ficou na minha frente. - O chocolate quente com pimenta funciona melhor se você realmente o beber, em vez de apenas ficar aqui sentada congelando. Ergui os olhos. Nicholas estava parado ali, Ele segurava dois copos de papel que soltavam uma fumaça aromática. - Pensei que você estivesse trabalhando - Disse, aceitando o copo que ele estendeu. Seus dedos tocaram os meus novamente, e o mesmo arrepio de antes percorreu meus braços. - Meu turno de observação na guarita acabou de terminar. Agora sou apenas um cidadão preocupado com uma turista que parece prestes a ter hipotermia. - Ele se sentou na areia ao meu lado, esticando as pernas longas. - Pode beber. Não está batizado. Levei o copo aos lábios. O líquido era espesso, doce e, logo em seguida, um calor picante atingiu o fundo da minha garganta, espalhando uma sensação reconfortante pelo peito. Aquele chocolate quente era obra divina. - Meu Deus - Suspirei, fechando os olhos. - Isso é maravilhoso. Acho que acabou de salvar minha vida pela segunda vez hoje. - Eu disse que o quiosque era bom. - Ele deu um gole no dele, observando o horizonte onde as gaivotas planavam baixo. - Então, Londres, não é? O que traz você para o fim do mundo no meio de uma semana de trabalho? - Como você sabe que é uma semana de trabalho? - Perguntei, curiosa, olhando para o perfil dele. O queixo dele era marcado, com uma barba por fazer de dois ou três dias e ele parecia ter uma idade próxima da minha . - Você tem aquela linha de expressão bem aqui, entre as sobrancelhas - Ele disse, tocando a própria testa para indicar. - É a marca registrada de quem passa o dia olhando para planilhas e respondendo a e-mails que começam com "conforme conversamos anteriormente". Além disso, você trouxe um computador na bolsa? Ela estava pesada. Soltei uma risada genuína, como ele era observador. - Tudo bem, você acertou. Eu trabalho com análise de risco financeiro na Empresa do meu pai. E sim, tem um notebook ali dentro que eu espero desesperadamente que seja à prova d'água, ou perderei os meus relatório deste mês inteiro. - Análise de risco? - Ele soltou uma risada contida, os olhos verdes brilhando de diversão enquanto se voltavam para ela. - E você não previu o risco de uma maré de sizígia na Cornualha? Irônico. - Ei! Eu estou de férias - Protestei, empurrando de leve o ombro dele com o meu. - Duas semanas inteiras para desligar meu cérebro. Mas o universo claramente tem um senso de humor peculiar. - Duas semanas é um bom tempo. Dá para aprender a respeitar o mar... e talvez até a gostar dele. - Ele virou o rosto na minha direção, a expressão suave, quase cúmplice. - O que mais está na sua lista de turista para essas duas semanas, Ettie? Além de inundar eletrônicos e livros? Olhei para o mar, que agora batia violentamente exatamente onde eu estava deitada minutos atrás. - Eu queria ler, caminhar pelas falésias que vi nas fotos e... não sei. Descobrir se a vida fora de Londres realmente existe, passei tempo demais focada em estudos e no trabalho que meu pai me deu, faz anos que não faço uma viagem tão longa. Eu ri e ele sorriu, um sorriso aberto que mostrava dentes muito brancos. Ele se levantou em um movimento ágil, limpando a areia da bermuda. - Ela existe. E é bem melhor. Se você sobreviver ao frio de hoje, amanhã de manhã dou aulas de surfe para iniciantes no canto esquerdo da praia. Às nove. Sem notebooks permitidos. Olhei para o copo vazio em minhas mãos, depois para ele. - Surfe? Naquela água congelante? - Eu te consigo uma roupa de borracha extra grossa - ele piscou. - Pense nisso como gerenciamento de risco, Ettie. Até amanhã? - Até amanhã, Nicholas. Pela primeira vez em tempos eu não estava pensando em nada, nem mesmo no problema com meu pai, só conseguia pensar em como acordar cedo no dia seguinte.A viagem de volta da Cornualha para Londres seguia perfeitamente bem. Apoiei a cabeça contra o vidro da janela, observando as paisagens, aos poucos apareciam os subúrbios da capital. No meu colo, eu segurava com cuidado uma bolsa com as coisas que ganhei nessas duas semanas, um livro de fotografias antigas da costa britânica que Sam havia garimpado em um sebo - Com dedicatórias hilárias escritas nas margens de quase todas as páginas - Também tinha o par de brincos de cerâmica pintados à mão de Chloe, o vestido que foi feito por mim e um colar que tinha uma concha como pingente dado por Nicholas, que sempre guardarei com carinho. Eu sabia que as coisas que eu vivi aqui eram de fato o maior presente, nunca cansaria de olhar pro anel no meu dedo e me lembrar dele. Me despedir deles foi difícil, mas eu sabia que era só um “até logo”. Ao abrir a porta de madeira do apartamento, o aroma familiar de café fresco e livros antigos
A minha última semana na Cornualha passou voando, foram dias tão especiais. Depois do festival, passamos bastante tempo na praia, inclusive eu estava cada vez melhor no surfe - Tinha conseguido surfar por quase dois minutos seguidos - Eu estava gostando do mar pra valer, Nicholas tinha razão, eu só precisava conhecer o mar e as ondas gigantes não me impediriam de curtir a praia. Teve um dia que nós fizemos trilha pela costa até uma vilazinha de pescadores, Mousehole. Foram quilômetros de caminhada com o vento batendo no rosto e muitas conversas. Teve um momento que minhas pernas simplesmente travaram, eu não tinha costume com trilhas, o Nicholas me segurou em suas costas e continuou o caminho como se não fosse nada, ele era um cavalheiro. Quando chegamos lá, devoramos uns sanduíches de presunto no píer de pedra. Aconteceu alguns beijos, e em todos meu corpo respondia com intensidade, Chloe e Sam viram um desses beijos, fiquei grata por não comentarem nada. Numa noite, o Nicholas m
O porto de St Ives parecia ter sido transportado para outra era. O Sea Shanty Festival transformara a enseada de pescadores em um anfiteatro de luzes, muitas vozes ecoavam contra as paredes de pedra dos armazéns centenários. Havia dezenas de tochas e fogueiras na areia que projetavam sombras dançantes na água, enquanto cordões de lâmpadas de filamento amarelo cruzavam as ruelas, criando um teto flutuante de estrelas artificiais, era realmente bom estar aqui e ver tudo isso. Tenho certeza que cheguei na hora, depois de passar a manhã com Chloe finalizando nossas roupas, tive bastante tempo pra me arrumar. Foi muito bom quando nós almoçarmos com os rapazes, Sam era muito falador e contava muitas histórias sobre a amizade deles, e sem dúvidas desde nossa última conversa Nicholas estava incrivelmente mais romântico. É maravilhoso ter me apaixonado por um cara divertido, responsável e amável, e eu ainda tive a alegria de ter ganhado dois amigos. Me sentia radiante, a Cornualha ainda não
Na segunda, acordei por causa de uma notificação de mensagem, bem alta, que eu não via a hora de receber. Nicholas: Acabamos de atracar no porto! O mar estava agitado, mas deu tudo certo. O sinal voltou e a primeira coisa que pensei foi em você. Onde fica exatamente essa sua cottage? Queria te devolver seu moletom e te levar pra tomar café da manhã. Era tudo que eu queria, digitei o endereço da cottage, que fica bem na subida da encosta de Porthmeor. Mal tive tempo de prender o cabelo quando ouvi três batidas firmes na porta. Franzi o cenho, confusa com a rapidez dele, e girei a chave, mas ao abrir a porta, meu coração deu um salto. O Nicholas estava parado na soleira e parecia cansado da expedição em alto-mar - os seus olhos tinham um pouco de olheiras de quem passou a noite acordado - mas o sorriso de canto continuava impecável. Ele vestia um suéter de tricô azul-marinho e segurava um buquê generoso de flores, identifiquei lavandas, margaridas brancas e pequenos ramos amarelos
Último capítulo