Capítulo 3 - Dorian

Levou uma maldita semana para me acostumar apenas com a ideia de que ela tinha chegado, que era realmente ela. O que era engraçado, pois havia passado um ano miserável, entre a pressão que sentia pelo lado da minha família e a sensação de vazio.

Dee, minha irmã, acreditava nessa coisa toda de destino. Antes, eu discutia e virava um maldito troglodita com qualquer um que tocasse em tal assunto. O vazio em meu peito foi crescendo conforme o ano passou, me deixando irritado e intocável, me fazendo odiar ainda mais toda aquela merda.

Então eu senti.

Uma semana atrás eu senti quando ela chegou. A sensação foi tão forte que me fez tropeçar, e bem, eu nunca tropeçava. Os olhos de Dee quase saltaram de suas órbitas, e depois veio aquele sorriso de satisfação em seu rosto. Ela adorava me ver daquele jeito.

Aquela história toda de destino era verdadeira afinal.

Era isso ou eu estava me tornando um psicopata fascinado por minha vizinha, que era excepcionalmente linda. Na verdade, a palavra linda não era suficiente para descrevê-la.

Seus cabelos castanhos escuros ondulados batiam um pouco acima da cintura, seus olhos verdes em um tom escuro me lembravam duas pedras preciosas, a boca grande e naturalmente rosada me fascinava, e seu corpo, puta que pariu, minhas palavras nunca fariam jus à beleza de Catherine.

Quando a vi pela primeira vez, parada com os braços cruzados sobre o peito, amaldiçoei do céu à terra. Cat era alta, com seios exuberantes, cintura fina e quadril largo, a minha maldição sem dúvidas.

— No que está pensando? — a voz de Dee me tira dos meus pensamentos.

— Nada — resmungo, mentindo. Não tinha uma única chance no mundo de Dee saber sobre o que eu estava pensando.

— O que está sentindo? — ela pergunta pela milésima vez.

— Hoje está mais forte, é como se uma corda estivesse amarrada em meu pescoço, querendo me arrastar direto para ela — respondo, engolindo em seco.

— Deus, isso soa…

— Louco? Estranho? — questiono, levantando meu olhar. — Acredite, eu sei.

— Quando vai contar para eles?

— Não por agora, e nem você vai — falo, fitando-a. — Ela é completamente humana, Dee, não é como se eu pudesse chegar e falar sobre toda essa merda como se fosse a coisa mais natural do mundo.

— Você já… — Dee começa e então pigarreia. — Já tentou ler a mente dela?

— Isso só vai funcionar se ela aceitar o laço, e eu nunca faria isso sem o consentimento dela — digo, me levantando do sofá e indo pegar uma bebida na mesinha da sala com diversas garrafas de whisky. — Catherine está aqui há uma semana e já acho que isso não vai acontecer.

— Você é muito negativo, Dorian — Dee fala com uma careta, e antes que eu leve o copo aos lábios ela balança a mão, fazendo o copo sair da minha mão e ir para a dela, sem derramar nenhuma gota. — Grata.

— Pensei que tínhamos combinado de não usar o poder desde o último acontecimento? — acuso, servindo outro copo.

— Já me desculpei por aquilo, não é como se fosse minha culpa.

— Dee, a língua do cara não saiu da sua boca sozinha — falo, suspirando. — Demos sorte que ele não podia mais falar e ficou instável o suficiente para ser internado em uma clínica psiquiátrica.

— Dorian, aquele homem ia abusar de uma adolescente indefesa, arrancar apenas a língua dele foi bondade minha — diz com a voz cheia de raiva, a mesma raiva que eu também sentia sempre que me lembrava do desgraçado.

— Tudo bem, apenas tenha cuidado — falo, exalando alto.

Bebo metade da dose no meu copo, pensando se deveria ou não começar a falar sobre o assunto com minha irmã, sabendo que se começasse ela não pararia.

Porra, eu tinha que falar.

— Você ainda não sente essa coisa? — pergunto a ela.

— Dorian, você sabe muito bem que não é assim que funciona, por isso mesmo se chama “kismet”.

— Nossa mãe chama de fio vermelho — murmuro, mas na realidade não me importo como chamam.

— Tanto faz — diz Dee, colocando o copo na mesinha de centro. — Quando você soube?

— Eu apenas acordei e senti como um puxão, se assim posso dizer. Apenas sabia que estava acontecendo e que aqui era o lugar — falo, dando de ombros.

— Exatamente, fratello, você não escolheu isso, simplesmente aconteceu. Há uma ordem natural nos acontecimentos, só tem que aceitar e ter paciência.

Fácil dizer. Penso, terminando minha bebida.

— Sabia que ela está trabalhando no The Moon? — pergunto para Dee.

— Não brinca? — ela me olha, parecendo surpresa. — Bruno vai devorá-la inteira!

— Acho mais fácil ela chutar as bolas dele — falo, rindo levemente.

— Acho que deveríamos ir até lá hoje à noite — Dee sugere e eu quase posso ver sua mente girando. — Posso pedir ao Bruno para mantê-la lá até mais tarde.

Concordo com um aceno, me sentindo um pouco mal por isso. Vi como Cat estava irritada pelo comportamento de Bruno, ela certamente o faria engolir os próprios olhos.

Esse pensamento me faz rir enquanto vou para meu quarto.

Me jogo na cama, tentando ignorar a vontade de ir até a casa ao lado novamente. Tenho que me controlar, isso é um pouco doentio.

A ideia de arrastar qualquer pessoa para o nosso mundo faz meu peito se apertar. Eu queria ter qualquer outra escolha, mas sou obrigado a pelo menos tentar. É isso que fazemos na nossa egoísta família.

Veja, as famílias Gray, Verlon, Amistac e Kitsun são de longa linhagem com poderes sobrenaturais.

Parece chocante, não é? Se eu fosse uma pessoa normal e alguém viesse com esse papo para cima de mim, eu certamente pensaria que a pessoa estava prestes a me atirar pedras de tão louca.

Há muitos e muitos anos, quando criaturas sobrenaturais andavam pelo mundo sem qualquer preocupação, uma bela metamorfa, em sua forma humana, cheia de luxúria e sempre em busca de mais poder, resolveu enganar um “nephilim”. Eles também estavam por aí, desfilando pelo mundo como se fossem os donos.

Luri, a metamorfa, conseguiu o que queria, usou e abusou do nephilim, que por sinal não era um cara muito legal também. Alguns meses depois nasceu seu primeiro filho, uma mistura única dos dois DNAs. Luri, claro, escondeu seu filho como um grande tesouro. A criança cresceu mostrando dons extraordinários, e anos depois começou sua própria linhagem ao engravidar uma humana. Porém, só algum tempo depois deram um nome para tais humanos que possuíam dons que desafiavam o poder do criador.

Os Clérigos.

É, você não leu errado: Clérigos, como em D&D.

E assim como no jogo, os clérigos usavam seus dons conforme sua fé, boa ou ruim. Qualquer emoção era sua fonte para controlar o poder. Ninguém foi tão forte quanto o original, Leones, filho da metamorfa com o nephilim, óbvio.

Enquanto uma criança clériga crescia, ela podia dar sinais de possuir mais de um dom ou nenhum, o que não seria uma boa coisa, infelizmente.

Os dons eram: metamorfose, telecinese (tanto pelos olhos quanto pelas mãos), incrível força e velocidade idêntica à de um anjo. Metamorfose era o dom mais precioso para os clérigos, mas apenas uma pequena parcela era abençoada. E também havia a telepatia, que era o dom que apenas casais unidos pelo destino poderiam possuir.

Se um clérigo casasse com outro, poderiam ler a mente um do outro. Se um clérigo se unisse a um humano, apenas ele poderia ler a mente do parceiro.

Essa é a parte da história entre o lance de fio vermelho, kismet, destino…

Eu, Dorian Gray, como um perfeito clichê, fui abençoado — ou amaldiçoado — com a metamorfose, e Dee com a telecinese. Nós dois somos fortes e rápidos como a luz.

Fecho os olhos, desta vez pensando em todas as formas de meu destino estar errado. Essa merda é estranha até para mim.

Sabia que o que sinto pela minha vizinha não é amor. Não pode ser. Não com apenas uma semana e duas conversas.

Não. É algo diferente. Chamativo. Curioso. Como algo proibido que você não consegue parar de olhar.

Me levanto, abro a janela e, com um leve e familiar estalo quase inaudível, deixo de ser Dorian e me transformo em uma águia. Voo sentindo o ar fresco e o vento forte. Quando chego à praia, sobrevoo por um momento a casa que venho evitando por tanto tempo.

Desço planando até o fundo. Sei que ele já sabe que estou aqui — ele me espera há meses.

Agradeço por ser uma área fechada quando volto à forma humana. Quem criou a metamorfose certamente esqueceu de criar um armário invisível para depois da transformação. Corro até o varal e pego uma calça caqui e uma camiseta.

— Vejo que minhas roupas caíram bem em você — ouço sua voz profunda e fico tenso.

Termino de me vestir rapidamente e me viro, encarando o homem que tanto se parece comigo. Passo a língua pelos lábios, os umedecendo, e caminho até a pequena varanda mais à frente.

— Já estava na hora, Dorian — ele fala duramente.

Encaro seus olhos e finalmente abro a boca.

— Oi, pai.

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