Mundo ficciónIniciar sesión— Não seja um covarde! — acuso quando Dorian mergulha apenas uma pequena pontinha da batata frita que segura no molho com Carolina Reaper, uma pimenta extremamente forte. Mas, caramba, o molho estava suave e ele parecia prestes a pedir alguns litros de água só por preocupação.
— Não sou um covarde — ele fala, estreitando os olhos para mim, mas logo suspira, sorrindo. — Talvez só um pouco.
— Que decepção — exalo, pegando meu sanduíche e jogando molho de alho sobre ele. Em seguida, dou uma boa mordida. Aquela merda gordurosa era o paraíso. — Vai ficar encarando essa batata por quanto tempo?
— O que eu ganho se comer? — pergunta, me olhando.
— Você não vai sentir fome, já é um bom começo — digo docemente. — Não te convidei para sair, você que fez o convite. Não te devo nada.
— Não seja malvada, estamos nos conhecendo — Dorian diz com um sorriso que faz qualquer mulher ter uma palpitação. — Como dois bons vizinhos.
— Tudo bem, vamos fazer aquele clichê de vinte perguntas. Isso é o que você ganha — cedo, colocando meu sanduíche sobre a bandeja e apontando para ele. — Come.
Se o olhar que ele me deu tivesse algum poder, de preferência algum que reduz pessoas a cinzas, eu estaria em pó naquele momento. Sorrio maldosamente e ele olha para o teto como se pedisse ajuda divina. Em seguida, coloca um pouco mais do molho na batata e a enfia na boca. Seu rosto sobe dois tons de vermelho e eu explodo em uma gargalhada.
— Mulher má! — Dorian fala entre uma crise de tosse, então pega sua cerveja e bebe metade de uma só vez. — Como você aguenta isso? Arde como o inferno!
Dou de ombros, ainda sorrindo.
— Eu te disse antes, gosto de comida picante — volto a pegar meu hambúrguer. — Vamos lá, faça sua primeira pergunta.
— Qual sua cor favorita? — ele pergunta, me surpreendendo um pouco. Nunca pensei que ele fosse por esse lado.
— Verde e vermelho. Não me faça escolher entre as duas, porque acho que uma complementa a outra — respondo sem desviar os olhos. Sempre gostei de manter contato visual, mas com Dorian parecia diferente. Só não entendo ainda em que sentido. — Você foi para alguma faculdade?
Eu e Dee falamos sobre isso, mas ele se absteve de responder.
— O que te faz pensar que eu não me formei? — ele pergunta, mas faço uma careta. Não era assim que esse jogo de perguntas funcionava. — Ok, eu me formei em artes.
Vago.
— Não seja tão ruim assim. Quero respostas mais complexas ou vou apenas responder suas perguntas com sim ou não — digo, olhando feio para ele.
— Ok, mas agora é minha vez de perguntar — Dorian diz, e eu me preparo. — Por que você veio para cá? Não preciso ser um gênio para saber que não foi só por causa do problema com sua mãe.
Bebo um pouco da gin tônica que tinha pedido, pensando em como deveria responder aquilo. Mamãe costumava dizer que eu era um livro aberto, mas por Deus, não sabia que era para tanto.
— Meu ex estava se tornando uma pedra no meu sapato — respondo, dando de ombros. — A gente tinha uma relação mais fria que o Alasca, mas alguns caras não aceitam muito bem quando uma mulher termina o relacionamento. Isso me fez me mudar mais do que eu gostaria, mas agora não terei mais esse problema.
— Entendo — Dorian murmura, e vejo seu maxilar tensionar, mas prefiro ignorar isso.
— Enfim... — murmuro e volto a olhar para ele. — Você trabalha com o quê? Disse que se formou em artes, mas não disse se trabalha com isso.
Dorian me analisa por um momento e, se eu fosse uma pessoa cheia de pudor, ficaria constrangida com o jeito que ele me olha.
— Dou aulas particulares e, uma vez na semana, vou a um orfanato aqui perto ensinar arte para as crianças e adolescentes — diz. Isso me deixa surpresa. Ele dá um sorriso que ainda não tinha mostrado: pequeno, tímido. — Dee também vai, só que ela dá aulas de culinária.
— Isso é lindo, Dorian — falo sincera, com um sorriso genuíno. — Gostaria de fazer ações assim, mas não fui muito privilegiada quando se trata de dons nessa área. O máximo que já fiz foi doações para abrigos de animais. Eu e minha mãe até levamos alguns cachorros para passear algumas vezes, mas só.
— Qualquer ação, desde que seja boa e ajude, já é uma coisa boa — ele diz, e eu seguro um suspiro. Ele não é um completo idiota afinal. — Por que sua relação com seu ex era fria? Você não o amava?
Não sei onde ele quer chegar com isso, mas não gosto do caminho. Falar sobre meu antigo relacionamento me faz mal.
Rob era o típico homem que não se empenhava muito na cama. E meu ex era horrível nisso. Aliás.
— Rob era o típico homem que não se empenhava muito na cama — murmuro secamente. Ele perguntou, então eu respondo. — Quer estar dentro, mas quando acaba e só ele está satisfeito, fica por isso mesmo. Você já passou por alguma frustração sexual, Dorian?
— Não — ele responde baixo, parecendo irritado. Pois bem, eu também estou.
— Vou te dizer como é estar com alguém e ter que aguentar frustração sexual e amorosa só para evitar o fim da relação — falo, me inclinando para frente. — É uma merda e cansativo. Você se sente tão mal que acha que o problema está em você. Você nem se reconhece depois de um tempo.
— Não sei como você conseguiu achar que o problema era você — ele diz, mais sério.
— Eu percebi isso depois de um tempo. A culpa dele ser um fracasso na cama e um idiota sem amor não era minha — falo, sorrindo. — Já ouviu aquele ditado? “Mulher de gene forte não foi feita para homem fraco”?
Dorian ri, balançando a cabeça.
— Aposto que foi difícil não dar um golpe nele — diz.
— Você não tem ideia — respondo, e meu sorriso aumenta. — A cada vez que ele falava alguma merda, eu queria simplesmente mantê-lo apagado com um mata-leão.
— Ele ainda está atrás de você? — pergunta, e já nem sei se estamos nas vinte perguntas.
— Eu o ameacei e me mudei pela segunda vez — explico. — Acho que ele percebeu que eu estava falando sério. Terminei com ele há mais de dois anos e ele não parava de me ligar todo dia. Não caía na real. Mas isso agora é passado.
— Por que você não o denunciou? — Dorian questiona.
— Porque, no fundo... bem no fundo, o Rob é um cara bom. E sei que agora ele vai seguir a vida dele. Ele entendeu que nunca vou voltar para nossa relação — digo, e vejo sua expressão mudar, mais tensa. — Vamos mudar de assunto. Não quero sofrer indigestão, e isso vai acontecer se continuarmos nisso.
Dorian desvia o olhar, mais chateado do que eu esperava. Levanta um dedo para o garçom e pede mais uma cerveja e outra gin para mim.
Quando o garçom volta, percebo que seu maxilar ainda está travado. Uau, ele realmente ficou incomodado.
— Quer saber qual foi o melhor emprego que tive antes de terminar a faculdade e começar a administrar de verdade? — pergunto, tentando mudar o clima.
— Sem dúvida — ele responde, levando a garrafa aos lábios.
Mordo o lábio, apreciando sua expressão de interesse. Tinha ganhado a atenção dele. Ótimo.
— Trabalhei em um sex shop por dois anos, e eles estão entre os melhores anos da minha vida — digo, sorrindo quando ele me olha incrédulo.
— Está falando sério? — questiona.
— Estou — aceno. — Bruno deve ter ficado impressionado com seu currículo.
Rio e finjo dar um soco nele por cima da mesa.
— Eles não assinam a carteira como sex shop. Usam outro nome. Falar de sexo ainda é tabu, então os donos preferem assim para não prejudicar a linha de trabalho dos funcionários — explico, mexendo uma mecha do cabelo.
— Interessante. Nunca te associaria a um trabalho assim — ele diz, erguendo uma sobrancelha. — Não estou julgando. Só estou curioso. Quais são os fetiches mais estranhos que você já viu?
Essa pergunta quase me faz rir e estremecer ao mesmo tempo.
— Posso dizer que foram muitos — respondo, rindo. — Mas nunca entendi o fetiche com furries. Encomendavam muitas fantasias de animais. Diga um animal, grande ou pequeno, e eu já vi virar fantasia.
Dorian ri alto e eu fico, mais uma vez, fascinada com sua risada rouca.
— E qual é o seu? — ele pergunta, colocando algumas batatas na boca.
— Eu não tenho algo assim — respondo, sorrindo. — Não sou tão ousada nesse nível. Sou daquelas que preferem um bom sexo selvagem e, se o momento pedir, um pouco de carinho.
Assim que as palavras saem da minha boca, me arrependo. No segundo seguinte, Dorian engasga e entra em crise de tosse novamente. Fico me debatendo se devo bater nas costas dele ou não.
Posso culpar o álcool pela minha língua solta, mas não faria isso. Era bom demais ver aquela reação em Dorian — ainda melhor o olhar que ele me dá depois.
Santa mãe... não sei se isso é um sonho ou um pesadelo, mas sei que, para o bem ou para o mal, o resultado vai me deixar contente.







