Mundo ficciónIniciar sesiónBruno tinha engolido cada palavra que havia dito sobre minhas horas extras. Ao que parecia, ele tinha saído do clube logo depois das dez da noite, então não tinha como saber a verdade sobre o assunto.
Eu tinha saído dos trilhos na noite passada. Apesar de trabalhar em um clube, aquele ainda era meu ambiente de trabalho. Pouco me importo com a atitude babaca de Dorian, estou mais decepcionada comigo mesma, e a única coisa que me deixa animada é ter recebido um e-mail antes de ir para o trabalho, confirmando minha entrada na academia de karatê que fica a poucos quilômetros da minha casa, o que também foi um tremendo alívio. Como é perto, posso ir andando; não posso me dar o luxo de me acomodar com uma rotina com meu Mustang.
Estou mais do que feliz quando saio depois de duas horas da academia. Sensei Denver é um homem forte e rigoroso na casa dos quarenta. Fico nervosa no começo porque, além de ser um mestre novo e desconhecido, tenho que mostrar como consegui uma faixa roxa duas pontas com tanta rapidez.
Sempre gostei de atividades físicas — apesar de amar dormir como se estivesse em coma e comer como uma louca esfomeada — e depois de um tempo passei de apenas academia para academia e karatê, um lembrete de que vou ter que agendar nem que seja uma hora na academia nos próximos dias.
Corro pela minha rua estranhamente deserta com minha mochila nas costas. Estou suada até as pontas dos dedos do pé, o que não é nada agradável. Paro com uma derrapada quando me aproximo da casa de Dee e o portão se abre com tudo, quase me fazendo bater de cara nele.
— Jesus! — exclamo, assustada, por quase virar uma panqueca.
— Calma aí, parece que está atrasada para pegar o trem — Dorian fala com aquele sorrisinho de sempre e então assobia baixo. — Veio de uma maratona?
Cruzo os braços e o olho de lado, fazendo meu cabelo amarrado em um rabo alto balançar e grudar contra meu corpo suado.
— Ok, tudo bem, acho que te devo um pedido de desculpas pela última noite — ele diz, colocando ambas as mãos nos bolsos da frente do jeans desgastado, e meus olhos seguem o movimento.
Calma, Cat. Não vai por aí.
— Você acha? — questiono com sarcasmo.
— Sinto muito por ter sido um idiota. Queria te compensar por aquilo — ele diz, me olhando com intensidade.
— Eu realmente não estou nem aí por aquilo, Dorian. Você apenas agiu como um da sua espécie — falo calmamente. — Não tem que me compensar por nada.
— Mas eu quero — ele insiste, parecendo sincero. — Não quis falar naquele sentido, me expressei mal. E agora quero te levar para comer algo, o que quiser.
Penso nas mil razões para ele estar me convidando e depois nas mil razões pelas quais eu não deveria aceitar. Veja, ele tinha agido errado, mas estamos tentando manter uma boa relação como vizinhos, certo? Certo.
— Como Dee te chantageou desta vez? — pergunto cheia de ironia. — Vai pagar sua manicure pelo restante do ano?
— Não minha manicure, mas minha depiladora — ele responde, sorrindo e arqueando uma sobrancelha. — Gosto das coisas lisas e macias por aqui.
Aperto meus lábios, me recusando a rir. Nos encaramos por um momento; o olhar dele é tão quente e intenso que não consigo evitar um estremecimento.
De novo, Cat. Não vai por aí.
— Tudo bem, vamos sair, contando que me leve a algum lugar que tenha hambúrguer bem gostoso, batata frita e molho muito, muito picante — cedo.
— Gosta das coisas quentes, Cat?
— Não são muitos que aguentam o calor do momento, Dorian — digo, sorrindo ferozmente. — Vamos ver até onde você consegue ir.
— Amor, eu amo um desafio — ele bufa alegremente e passa uma das mãos pelos cabelos rebeldes.
— Então somos dois — falo e começo a me mover. — Me dê uma hora, então vamos.
— Uma hora — ele concorda, e mesmo depois de chegar ao meu portão ainda sinto seus olhos em mim.
Me sinto como se tivesse acabado de assinar um acordo com o diabo.







