Mundo de ficçãoIniciar sessãoEnfermeira dedicada e conhecida pela competência impecável, Mariana tenta seguir em frente após um término que virou assunto nos corredores do hospital. Traída por quem menos esperava, ela agora precisa lidar não só com a dor, mas com os olhares e sussurros que insistem em lembrar o que ela tenta esquecer. O encontro entre eles não deveria significar nada. Apenas uma forma de aliviar a tensão de plantões intermináveis e decisões que custam vidas. Mas não fica nisso. O que começa como um acordo silencioso rapidamente se transforma em algo perigoso — intenso demais para ser ignorado, proibido demais para ser assumido. Gabriel não perde o controle. Mariana não se permite sentir. Mas, entre salas de cirurgia, segredos e escolhas que não podem ser desfeitas, os dois descobrem que há sentimentos que não obedecem regras — e muito menos limites. Agora, eles terão que decidir até onde estão dispostos a ir… antes que tudo saia do controle.
Ler maisMariana percebeu que estavam falando dela antes mesmo de ouvir o próprio nome.
O corredor seguia no ritmo habitual — gente passando rápido, vozes cruzando o espaço, passos apressados —, mas havia algo diferente na forma como o silêncio surgia tarde demais quando ela se aproximava. — É verdade? — O doutor Lucas… com a doutora Cibele? O nome veio claro o suficiente para não deixar espaço para dúvida. Mariana continuou andando como se não tivesse ouvido. Não olhou para trás, mas o aperto nos prontuários aumentou um pouco mais do que o necessário. Agora não era mais impressão. Todo mundo sabia. — Ignora, amiga — disse Clara ao lado dela, ajustando o passo. — Eu tô ignorando. — Não parece. Mariana não respondeu. Entrou na sala de prontuários e começou a organizar os papéis, alinhando cada folha com uma precisão maior do que o normal, como se aquilo fosse suficiente para manter o resto no lugar. Não era. Minutos depois, Clara apareceu na porta. — Leva isso pro Alencar — disse, estendendo uma ficha. — Eu tô presa aqui. — Tá. O caminho até a sala dele era curto. Ainda assim, pareceu mais longo do que o normal. Mariana bateu uma vez antes de entrar. — Dr. Alencar? Gabriel ergueu o olhar. Não havia pressa no movimento, nem esforço em parecer acessível. Apenas parou nela o tempo exato de reconhecer quem estava ali. Mariana estendeu a ficha. — Pediram pra entregar isso. Ele pegou. Os dedos roçaram de leve nos dela, rápido demais para ser qualquer coisa — e, ainda assim, perceptível. — Obrigado. A voz saiu baixa, direta. Mariana assentiu e se virou para sair, mas a sensação ficou. Não do toque. Do momento. Porque, de alguma forma, ele já fazia parte do problema. O restante da manhã passou sem que ela conseguisse se concentrar de verdade em nada. Atendeu, respondeu, organizou — tudo no automático. As horas não passaram mais devagar — se arrastaram. Quando voltou à sala de prontuários, a porta se abriu antes que ela alcançasse a mesa. — Posso? Mariana reconheceu a voz antes de levantar o olhar. Cibele entrou como se tivesse todo o direito de estar ali. — Eu não ia deixar passar sem falar com você — disse, ajustando a manga com um gesto mínimo. Mariana não respondeu. — Algumas coisas… já não estavam bem antes. Silêncio. — Às vezes a gente só demora pra perceber. Mariana apoiou a ficha na mesa, alinhando as bordas com cuidado demais. — Se você veio aqui pra isso, perdeu tempo. Cibele inclinou levemente a cabeça, tranquila. — Não. Eu só acho que certas situações… não acontecem do nada. Uma pausa. — Ninguém trai sem motivo. O olhar de Mariana subiu devagar. — Então você tem um? Cibele sustentou, sem recuar. — Eu tenho o meu. E, pelo que parece… ele também teve o dele. O ar ficou mais pesado. Mariana não respondeu. Não precisava. Cibele sorriu de leve, discreto demais para ser inocente. — Enfim… achei justo você ouvir de mim. Virou-se e saiu. O silêncio que ficou não era o mesmo de antes. Quando finalmente conseguiu um intervalo, Mariana seguiu até a copa. O ambiente estava mais vazio, o som distante do hospital abafado pelas paredes. Ela apoiou a xícara na bancada e começou a mexer o café sem perceber. — Turno pesado? A voz veio atrás dela, e Mariana se virou, encontrando Gabriel encostado na entrada, observando com calma. Por um segundo, ela não respondeu. — Dá pra dizer isso. Ele se aproximou sem pressa, pegando outra xícara; o porcelanato devolveu um leve eco quando ele a apoiou. — Não parece só isso. Ela soltou um riso curto, sem humor, girando a colher uma vez antes de parar. — E você sempre acha que tem mais coisa? — Quando tem. O silêncio voltou, mais denso. Mariana levou a xícara aos lábios, sentiu o calor, mas não bebeu. — Você não perguntou — disse, sem encará-lo. — Perguntar o quê? Ela virou o rosto, o olhar parando nele por um segundo a mais do que o necessário. — Se é verdade. Gabriel sustentou o olhar, impassível. — Não preciso. A resposta veio baixa, limpa. Mariana desviou o olhar, a unha batendo de leve na borda da xícara. — Todo mundo acha que precisa. — Eu não sou todo mundo. Ele tomou um gole de café e apoiou a xícara com cuidado, como se encerrasse o assunto. — Você devia voltar. — Eu sei. Mas não saiu. O ar entre eles ficou suspenso por um instante — e ele também não disse mais nada. Quando voltou ao trabalho, o dia seguiu como uma sequência de tarefas que ela cumpria sem realmente perceber. Tudo funcionava, mas nada fazia sentido. Quando o turno terminou, o hospital já estava mais silencioso. Ao atravessar as portas, o ar da noite bateu no rosto, frio o bastante para fazê-la respirar de verdade. Mariana parou por alguns segundos. Ir embora era o esperado. Mas não foi. Caminhou pelo estacionamento sem direção clara, o olhar passando pelos carros até parar no dele, mais ao fundo, discreto como sempre. Desviou o olhar e deu alguns passos, pronta para ir embora — mas parou antes de ir longe demais. O corpo queria sair dali. A cabeça também. Ainda assim, não foi o que aconteceu. Ela voltou. Parou ao lado do carro, hesitou por um instante e bateu de leve no vidro. Gabriel ergueu o olhar, como se não esperasse, e destravou a porta. — Aconteceu alguma coisa? Mariana entrou. O silêncio dentro do carro era mais fechado, o cheiro leve de couro e algo amadeirado ficando mais evidente quando a porta se fechou. — Não. Ele a observou por um instante, o olhar firme, atento. — Então? Ela manteve os olhos no para-brisa, acompanhando a própria respiração desacelerar aos poucos. — Eu só não queria voltar agora. A frase saiu baixa, mas firme. Gabriel não respondeu de imediato. Apenas continuou olhando, como se medisse algo que ela não disse. — Isso não parece o seu tipo. Mariana soltou um riso curto, quase inaudível. — Acho que eu também não estou mais sendo o meu tipo. O silêncio voltou, mais próximo dessa vez. Gabriel apoiou o braço no volante, inclinando levemente o corpo na direção dela, diminuindo a distância sem tocar. — E o que você está sendo agora? Mariana virou o rosto e sustentou o olhar. — Alguém que não quer pensar. Ele assentiu de leve. — Pensar evita problema. — Não evitou. O ar pareceu mais denso depois disso. Gabriel manteve o olhar nela por um segundo a mais, então desviou. — Isso costuma ter consequência. Nenhum dos dois disse mais nada. Ele virou o rosto para frente e ligou o carro. O motor respondeu baixo, estável. Mariana encostou a cabeça no banco, mantendo os olhos fixos no para-brisa enquanto tentava organizar o que ainda parecia fora do lugar. Não era simples, nem seguro — e, mesmo assim, não se moveu. Quando o carro começou a andar, permaneceu em silêncio, sem tentar voltar atrás.A manhã entrou pela casa nova como um hóspede querido, com luz suave, cheiro de café fresco e o vento despertando o quintal. A jabuticabeira estava carregada outra vez, como sempre. Era quase um relógio natural daquela família: quando os galhos pendiam com frutos escuros e doces, significava que mais um ciclo havia se completado e que, apesar do que viveram, eles continuavam ali — juntos, fortes, vivos. Mariana estava na cozinha com os cabelos presos em um coque apressado, pijama confortável e um sorriso ainda meio sonolento enquanto mexia o café. Não era mais a mulher que fugia, nem a que tremia diante do próprio passado. Era outra. Inteira. Reconstruída. Livre. Do corredor, uma voz familiar cortou a manhã: — Mãããe! O meu lanche não cabe na lancheira! Guilherme — agora com quase sete anos — surgiu com a lancheira aberta, três brinquedos dentro e nenhum alimento. Mariana riu baixo. — Gui, a lancheira é pra comida, amor. — Mas o dinossauro fica com fome na escola! Ela ergu
O quintal parecia suspenso no tempo. As luzinhas nos varais acenderam quando o sol se escondeu, transformando o jardim em um universo íntimo. As velas tremeluziam, o arco de flores brancas respirava com o vento, e a jabuticabeira balançava como quem dá sua bênção. Gabriel estava diante do arco, o coração acelerado de um jeito raro até para ele. Ao lado, Eduardo ajeitava o livro, orgulhoso. O juiz de paz não pôde ir, mas um colega simpático estava ali para oficializar. Matheus e Clara sentaram-se no primeiro banco. Guilherme corria segurando a caixinha das alianças como se carregasse um tesouro. Matheus e Clara ocupavam o primeiro banco, mãos entrelaçadas com calma. Guilherme corria ao redor deles segurando a caixinha das alianças como se levasse um tesouro, o passo leve e orgulhoso demais para a própria idade. — Campeão — Gabriel chamou, abaixando-se na altura do filho. — Lembra do combinado? Guilherme ergueu a caixinha no ar, cheio de importância. — Vou levar devagar, sem tropeçar
O quintal tinha cheiro de jabuticaba madura, vento leve e luz dourada. Parecia que o fim de tarde havia sido desenhado sob medida para aquele dia. Gabriel passara a manhã pendurando luzinhas finas no varal que cruzava o jardim, pequenos pontos de luz que cintilavam como constelações domésticas. No centro, diante da jabuticabeira, uma mesa rústica e clara fora transformada em altar. Sobre ela se erguia um arco de flores brancas, com ramos de eucalipto fresco, rosinhas delicadas entrelaçadas ao jasmim miúdo, e galhos curvados que formavam uma moldura perfeita. As luzes refletiam nas pétalas, dando ao arco uma vida própria. Ali seria o coração da cerimônia. O lugar onde o “sim” encontraria destino. Potes de vidro com velas estavam espalhados pelo gramado, formando um corredor luminoso até o altar. Bancos de madeira cobertos por mantas claras aguardavam os poucos convidados que testemunhariam o recomeço daquela família. Era íntimo, simples e bonito de um jeito que não pedia ostentação, ap
Uma semana havia passado desde o confronto com Gisele. Uma semana em que o mundo, enfim, parecia respirar do jeito certo. Mariana acordava com Gabriel ao lado; Guilherme corria pela casa com uma leveza nova, como se o peso que nunca deveria ter existido tivesse finalmente caído de seus ombros. E pela primeira vez desde o acidente, eles falavam do futuro sem medo — apenas com cuidado, amor e cautela verdadeira. Foi Gabriel quem sugeriu: — Vamos procurar uma casa. Uma que seja nossa… dos três. Mariana disse sim sem hesitar — talvez pela primeira vez em anos. Começaram as visitas no fim de semana. A primeira casa era moderna, envidraçada, tão perfeita que parecia cenário. Mas o jardim simétrico parecia pedir silêncio, não risadas. Guilherme tentou abraçar uma árvore fina que quase entortou. Mariana achou a cozinha impessoal. Gabriel resumiu: — Aqui não tem cheiro de casa. Eles foram embora. A segunda era charmosa, antiga, com janelas enormes e piso de madeira. Guilherme correu pelo





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