2 - Além do Controle

O carro deslizava pela rua silenciosa. Mariana observava as luzes da cidade passando pela janela, rápidas demais para que qualquer uma permanecesse. Nada ali acalmava o que se movia dentro dela.

Gabriel dirigia com a mesma calma de sempre, as mãos firmes no volante, o olhar fixo à frente. No hospital, aquilo era esperado. Ali, ao lado dele, ganhava outro peso.

— Pra onde estamos indo? — perguntou.

Ele lançou um olhar breve.

— Pra um lugar onde ninguém interrompe.

A resposta foi suficiente.

O silêncio voltou, mais carregado. Mariana encostou a cabeça no banco por um instante, fechando os olhos por um segundo mais longo do que deveria. Estava cansada — não só do dia, mas de tudo que ainda parecia preso dentro dela.

O nome dele quase veio à mente de novo.

Ela não deixou.

Quando abriu os olhos, a cidade já parecia diferente. As ruas mais vazias, os sons mais distantes. O carro virou uma esquina e, poucos metros depois, entrou em uma rua mais tranquila, quase escondida atrás do hospital.

Aquilo fez sentido — mais do que deveria. O prédio era discreto, bem cuidado, sem nada chamativo ou exagerado; apenas funcional, como ele.

Gabriel estacionou com precisão, saiu do carro e abriu a porta para ela sem pressa, como se aquele gesto fosse apenas mais um detalhe dentro de algo já decidido.

— Vamos?

Mariana hesitou por um segundo — não por dúvida, mas por consciência. Ainda dava tempo de ir embora.

Mas saiu.

O ar ali parecia diferente, mais quieto, mais isolado do resto da cidade.

Subiram em silêncio. No elevador, o reflexo dos dois lado a lado pareceu mais próximo do que o espaço realmente permitia. Mariana desviou o olhar primeiro.

O som leve do elevador parando foi quase um alívio.

Ao entrar no apartamento, ela percebeu imediatamente o padrão: tudo no lugar certo, sem excessos. Linhas limpas, poucos objetos, nenhum detalhe fora de controle.

Era um espaço que não convidava, apenas funcionava — como ele.

Mariana caminhou alguns passos, observando.

— Não sabia que você tinha um apartamento aqui perto.

Gabriel deixou as chaves sobre a bancada com um movimento preciso.

— Não é exatamente meu.

Ela o olhou de lado.

— Então é o quê?

Ele abriu o armário, pegando duas taças.

— Conveniente.

Fez uma breve pausa antes de completar:

— Quando o plantão não compensa ir embora.

Mariana assentiu de leve. Aquilo explicava mais do que ele disse.

— Vinho? — perguntou ele.

— Pode ser.

Ele serviu com calma, sem pressa, como se não houvesse nada além daquele momento. Mariana aceitou, levou a taça aos lábios e demorou um segundo antes de beber; o gosto veio forte, quente, descendo devagar.

O silêncio entre eles não era vazio.

Era espera.

Ela apoiou a taça na bancada, os dedos ainda presos ao vidro por um instante, como se precisasse de algo para manter as mãos ocupadas.

— Você sempre é assim?

Gabriel ergueu os olhos.

— Assim como?

— Como se já soubesse exatamente o que vai acontecer.

Ele inclinou levemente a cabeça, como se considerasse a pergunta. Um leve movimento no canto dos lábios — não chegou a ser um sorriso.

— Nem sempre.

Mariana sustentou o olhar por um segundo a mais, sem saber ao certo se aquilo a incomodava ou atraía.

O espaço entre eles diminuiu quase imperceptível, e foi ela quem sentiu primeiro — e quem decidiu não recuar.

Segurou a gola da camisa dele e o puxou. O beijo veio sem aviso, rápido, inevitável, sem dar espaço para qualquer pensamento.

Gabriel respondeu no mesmo instante, firme, preciso — como tudo nele. A contenção que ele mantinha no hospital desapareceu ali, substituída por algo mais imediato, mais físico.

As mãos dele encontraram o corpo dela com segurança, sem hesitação, como se aquilo já estivesse decidido antes mesmo de acontecer.

Mariana sentiu mais do que esperava, mais do que queria admitir. Quando se afastaram por um instante, a respiração dela veio descompassada, rápida demais; a dele, não. Os olhos dele permaneceram iguais — firmes, controlados, inalteráveis.

— Você não costuma fazer isso — disse ele, baixo.

Mariana sustentou o olhar.

— Às vezes as pessoas mudam.

A resposta ficou no ar.

E ele não questionou.

O restante aconteceu sem pausas, como se qualquer intervalo abrisse espaço para algo que nenhum dos dois queria enfrentar.

O tempo ali pareceu perder o ritmo e, quando tudo desacelerou, o silêncio voltou — mais pesado, mais presente, impossível de ignorar.

Gabriel se afastou primeiro, passando a mão pelos cabelos antes de se levantar. Não havia hesitação, nenhum traço de dúvida — apenas continuidade.

Ele se vestiu com a mesma calma de antes.

— Tenho que estar no hospital cedo amanhã.

A frase saiu simples e prática, como se aquilo não passasse de mais uma parte do dia.

Mariana permaneceu sentada na cama, observando. O corpo ainda sentia, mas a mente já começava a se reorganizar.

Não era arrependimento, mas também não era leve. Ele não olhou para trás, nem precisou.

— Espero que tenha resolvido o que precisava.

A porta se fechou sem pressa, o som discreto se espalhando pelo quarto e permanecendo mais do que deveria.

Mariana ficou ali por alguns segundos, olhando para o espaço vazio à frente.

O quarto parecia diferente agora, mais frio — ou talvez fosse só ela.

Levantou-se sem pressa, vestindo-se no mesmo ritmo em que tudo ainda parecia se acomodar dentro dela.

Quando saiu do apartamento, o corredor estava silencioso demais, e o elevador demorou alguns segundos a mais — ou pareceu.

Ao chegar ao térreo, Mariana saiu do prédio e parou. O hospital ainda estava ali, a poucos metros, iluminado, imutável, familiar demais.

Ela ficou em silêncio por um instante, observando.

Respirou fundo.

E seguiu, sabendo que, no dia seguinte, nada voltaria a ser simples.

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