a carona

​Fui buscar minhas coisas e pensei: "Ele não almoça com os funcionários, mas dá carona para eles?". Esse homem ainda é um mistério para mim. Peguei minha bolsa e saí. Ficamos na recepção conversando um pouco com outros médicos sobre alguns casos, até que a Renata disse estar pronta. Mike me chamou de canto e perguntou discretamente:

​— Vou deixar eles primeiro e depois deixo você, por ser mais perto, tudo bem? Se não quiser, posso te deixar primeiro sem problemas. Moramos pertinho, não será...

​Eu o interrompi:

— Tudo bem, sem problemas. — o fato de ele ter perguntado isso, mostra que ele se importa em como me sinto. E fiquei agradecida por isso

​— Então, vamos? — chamou ele.

​O caminho, enquanto eles estavam no carro, passou voando. Eles contaram que pretendiam se casar este ano, e a Renata disse que já me conhecia: eu havia cantado no casamento de uma prima dela. Essa informação foi nova para mim; eu nem imaginava. Então, ela perguntou se eu ainda fazia esse tipo de evento e se poderia cantar no dela.

​— Eu dei uma pausa na música. Precisei reiniciar minha mente e tentar algo novo. Mas posso cantar uma ou duas músicas se você quiser muito — respondi, completamente acanhada.

​— MEU DEUS, é claro que eu quero! Me passa seu contato, vamos nos falar.

​Passei meu número para ela e continuamos conversando sobre casamentos e festas.

Assim que a porta se fechou, o carro mergulhou em um silêncio constrangedor. Mike colocou uma música, o que ajudou um pouco, mas não resolveu. A casa da Renata ficava a cerca de vinte minutos da minha. Morar em cidade grande tem suas desvantagens: uma viagem de vinte minutos, de repente, virou quarenta. Assim que pegamos a avenida para o nosso bairro, demos de cara com um trânsito intenso, algo que não era comum para aquele horário.

​— Ah, não acredito... pelo jeito, vou chegar atrasado ao curso. — ele disse mais para si mesmo.

​— Mike, se for mais fácil, me deixe em uma padaria ou estabelecimento aqui perto. Eu chamo um carro ou vejo se meu pai pode vir me buscar. Assim você não se atrasa.

​— Eu jamais faria isso. Disse que te levaria em casa e farei — respondeu ele, um pouco sério. — Mas, além disso, preciso pegar minha câmera em casa.

​— Desculpe a intromissão... você faz curso de fotografia?

​— Sim. Você gosta também? Não vai me dizer que é mais uma de suas profissões — brincou ele.

​— Eu gosto, gosto muito, mas não sei "operar" uma máquina. Assim como amo carros, mas morro de medo de dirigir. — Não sei o porquê confessei isso.

​— Mas você tem carteira de motorista?

​— Tenho, desde os dezoito anos, acredita? Mas, por algum motivo, não dirijo. Nunca sofri nenhum acidente, e olha que eu vivia na estrada para cumprir agendas... simplesmente tenho medo.

​— Quer perder o medo agora? Posso deixar você levar o carro até sua casa.

​— NÃO! De jeito nenhuml— Meu coração chega errou uma batida. Eu de fato não iria dirigir. Não mesmo.

​— Estou apenas brincando. Nem eu gosto de dirigir em um trânsito assim.

​Quase interrompendo a frase dele, um motoqueiro bateu no retrovisor do meu lado do carro. Eu tomei um susto e gritei. Mike olhou assustado e, acredito que por instinto, pegou em minha mão.

​— Você está bem? — perguntou ele, preocupado.

​— Sim, estou. Desculpe o grito — respondi, com vergonha da minha reação.

​Então, reparei em nossas mãos e senti o calor dele. Suas mãos eram enormes, quentes e... "Que é isso, Clara? Para de pensar besteira", repreendi-me em pensamento. Ele tirou a mão de cima da minha e a voltou para o volante. Pude ver que fora uma reação repentina até para ele.

​Eu precisava quebrar aquele silêncio e precisava pensar em outra coisa.

​— Mike, posso te falar o que pensei?

​Ele me olhou com um ar de dúvida.

​— Pode, claro! Me diga tudo o que está pensando — ele disse com uma voz rouca.

​"Tudo o que está pensando"... Isso eu não poderia fazer! De jeito nenhum!

​— Então, sobre a sala sensorial...

​— Ah, sim, claro. Continue — disse ele.

​— Eu pensei que, além dos pacientes, precisamos dar uma certa atenção para seus acompanhantes, que muitas vezes estão exaustos.

​— Que ideia maravilhosa, Clara. Continue...

​— Bom, eu pensei em uma coisa um pouco ousada. Não sei se você concordaria...

​Ele me olhou enrugando a testa, nitidamente tentando entender o que eu queria falar.

​— Queria fazer algumas coisas de surpresa — eu disse antes que ele pensasse algo errado, já que eu havia, nitidamente, escolhido as palavras erradas...

​— Surpresa de mim? Isso não será um problema. Confio em você e, de qualquer forma, não estarei muito presente no consultório esses dias.

​Isso me causou uma certa tristeza.

​Continuamos então conversando sobre a sala e sobre algumas ideias que fomos construindo juntos. Ao chegar ao meu condomínio, ele me contou que éramos, de fato, "vizinhos": ele morava no condomínio ao lado. Ele insistiu em entrar e me deixar na porta de casa; assim que estacionamos, ele desceu e esperou que eu entrasse em casa.

​Meus pais não estavam; tinham um compromisso na igreja e, como pegamos trânsito, cheguei um pouco depois do meu horário habitual e não deu tempo de vê-los. No caminho, eu já havia avisado minha mãe. Ao chegar à cozinha, deparei-me com meu bolo favorito: chocolate com uma calda que só ela sabe fazer. Gosto da calda quente, então liguei o fogão e o cheiro aqueceu minhas narinas. Que cheiro maravilhoso! Minha mãe era maravilhosa.

​Após comer, subi, tomei um banho e fui estudar melhor o que poderíamos fazer na sala sensorial. Sem perceber, peguei no sono e só acordei com o celular despertando no dia seguinte.

​Cheguei ao trabalho antes de todos daquele andar. Fui direto para a futura sala sensorial. Será que seria esse o nome? Ou poderíamos chamar de "Espaço Acolher"? Me questionei sobre o assunto enquanto estava perdida em pensamentos.

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