Mundo ficciónIniciar sesión
Acordei cedo naquela manhã, sentindo o peso da expectativa sobre os ombros. Antes de sair, peguei meu jaleco branco com todo o cuidado, segurando-o apenas pelo cabide para não amassá-lo; ele seria meu uniforme e meu escudo a partir de agora. Parei por alguns instantes em frente ao espelho e observei meu reflexo com uma mistura de nervosismo e orgulho.
Meus cabelos, compridos e extremamente pretos, caíam em ondas sobre os ombros, contrastando com a minha pele morena clara. Eu herdei da minha mãe os traços suaves, mas marcantes, que remetiam às nossas raízes indígenas, enquanto o tom da pele era uma mistura equilibrada com a ascendência branca do meu pai. Meus olhos, de um tom mel que quase puxava para o verde dependendo da luz, pareciam maiores por trás das lentes de contato que eu raramente trocava pelos óculos. Com apenas 1,56m de altura, eu sabia que minha estatura pequena às vezes enganava quem não conhecia a força que eu carregava. Meu corpo, definido por curvas naturais e suaves, estava sob uma vestimenta que eu não estava acostumada a usar. Dei uma última volta em frente ao espelho, conferindo minuciosamente se a roupa branca não estava transparente — a discrição sempre foi fundamental para mim. Olhei para meus lábios, que eram naturalmente marcantes, e respirei fundo. Aquela era eu: Clara. O Hospital Geral era algo desafiador. Eu tinha decidido dar uma pausa na arte e tentar algo diferente, mas, naquele momento, eu estava começando a ficar com medo. No corredor, escutei minha mãe orando por mim por trás da porta do quarto. A voz dela me deu a coragem que faltava para encarar os desafios daquele dia. E, por falar em desafio, decidi que iria dirigindo. Eu precisava vencer esse medo. Fiz um barulho indicando que estava saindo do quarto, para que minha mãe terminasse sua oração e eu não a atrapalhasse. Quando saí, ela estava andando em direção às escadas; olhou para trás e estendeu a mão para que eu descesse junto com ela. Nos olhamos, mas nenhuma palavra foi dita. Na cozinha, o café da manhã já estava pronto. Havia também uma carta do meu pai; ele tivera que viajar no meio da noite para cumprir uma agenda na cidade vizinha. Minha mãe começou a cantarolar uma música, e o som me alegrou. — Mãe, obrigada por acreditar em mim e me apoiar — eu disse, sentindo um nó de gratidão na garganta. — Filha, conte sempre comigo. Eu te criei muito bem e sei que pode vencer qualquer desafio — ela respondeu, dando uma piscadinha. Ao olhar para o relógio, entendi o recado: precisava ir. Peguei minhas coisas, dei um beijo em sua bochecha e saí. Ela reparou que peguei a chave do carro, mas não disse nada. Cheguei na garagem confiante, entrei, coloquei o cinto, liguei o motor... e não consegui sair. Quase comecei a chorar, mas lembrei da maquiagem leve que havia feito. Respirei fundo. Era muita informação para um dia só. Voltei correndo para a cozinha; minha mãe pegou as chaves, deu uma risada leve e me abraçou. Cheguei ao Hospital Geral com um frio na barriga. Desci do carro de aplicativo e conferi tudo uma última vez. Os dedos que por tantos anos tocaram pianos agora apertavam o botão do elevador para o 7º andar. Aquele hospital era lindo, mas ainda era um hospital — frio, como todos são. Ao chegar na recepção da odontologia, senti o peso da responsabilidade. Pela primeira vez, eu ia trabalhar de carteira assinada. Meu pai, que sempre cuidou da saúde naquele hospital e conhecia bem o Dr. Cavalcanti, havia conseguido a oportunidade para mim. Eu seria sua auxiliar. Não tínhamos se quer feito uma entrevista mas ele ja havia dado a certeza que a vaga era minha. Fui preparada para o meu primeiro dia! — Olá, Clara. É um prazer te conhecer — disse a recepcionista após eu me apresentar. — A sala de espera para as entrevistadas é a primeira à direita. Quando for sua vez, alguém irá chamar. Boa sorte! Ao entrar na sala, ouvi o sussurro de duas candidatas: "O Dr. Mike Cavalcanti é bem sério, pelo que ouvi falar, mas bem gentil. Estou ansiosa". Meu coração falhou uma batida. Voltei à recepção imediatamente. — Com licença, a minha entrevista era com o Dr. Marcos Cavalcanti, e não com o Dr. Mike. A sala de espera é a mesma? A recepcionista me olhou com compreensão. — Ah, me desculpe, não conseguimos contato com você. O Dr. Marcos não estará mais atendendo; ele precisou se aposentar e o seu filho, que trabalhava no exterior, assumiu o lugar do pai. A vaga é para trabalhar com o Dr. Mike agora. Tentei disfarçar o nervosismo e voltei para a sala. Todas as outras meninas pareciam ter anos de experiência, e eu só tinha os meus estudos recentes e a vontade de mudar de vida. — Clara Lins? — uma moça bonita chamou. Acompanhei-a até a sala. A porta já estava aberta. O Dr. Mike estava de costas, servindo-se de um copo de água. Quando ele se virou, o ar pareceu faltar nos meus pulmões. Eu estava preparada para um homem com a idade do meu avô, mas o Dr. Mike era jovem, de uma beleza impactante e olhos escuros que pareciam ler minha alma. Na verdade, ele tinha quase a minha idade... — Olá. Clara Lins, certo? — ele perguntou, com uma voz firme que preencheu a sala. — Obrigado, Bia. Pode sair e deixar a porta aberta, por favor — disse para a moça que me acompanhou. — Olá. Isso mesmo — respondi, tentando manter a voz estável. — Bom, Clara, vou ser sincero: meu pai colocou uma pressão enorme em mim para te contratar. Mas decidi que vou escolher uma auxiliar por suas capacidades, e não por seus contatos. Você entende? O impacto das palavras dele foi direto, mas eu não baixei o olhar. — Claro que entendo. E concordo plenamente com sua decisão. — Que bom! — Ele deu um leve aceno com a cabeça, parecendo apreciar minha franqueza. — Gostaria de informar também que, a partir de hoje, eu atenderei exclusivamente pessoas com necessidades especiais. Temos outros médicos para o público geral. Fiquei no exterior me especializando e quero implementar isso no nosso hospital. Você tem alguma experiência com pessoas atípicas? Acredita "levar jeito" para isso? Senti um brilho nos olhos. Aquilo mudava tudo. — Nossa, que iniciativa incrível. Seria uma honra fazer parte disso, se me permitir. Desde a minha adolescência, trabalho em orfanatos e centros de terapia para pessoas atípicas... através da música, claro. Mas fiz cursos para entender melhor as diversas condições e manejos. — Interessante. E como você acha que a arte pode te ajudar sendo uma auxiliar de odontologia? — Estar familiarizada com esse público me ajuda a ler sinais que outros não veem — respondi com convicção. — Estou aqui para tornar o seu serviço o mais fácil possível. Aprendo rápido e tenho um olhar atento. A maioria das pessoas tem medo de dentista, Dr. Mike... assim como têm medo de palco ou de multidões. Meu papel é ser a calma no meio desse medo. Continuamos a entrevista por mais alguns minutos. Ele era técnico, exigente, mas parecia me ouvir de verdade. Por fim, ele me dispensou, dizendo que o RH ligaria até o final do dia com o resultado. Ao me levantar, notei um gesto humano por trás da armadura de médico: ele massageou as têmporas com cansaço e abriu a gaveta para pegar um remédio. O estresse que eu ouvira no corredor ainda estava lá. Antes de cruzar a porta, parei e me virei. — Obrigada. Boa tarde e... que Deus te abençoe! Vi um lampejo de surpresa atravessar o rosto dele. Era como se ele não estivesse acostumado a receber uma bênção gratuita no meio de um dia tão pesado. Saí da sala e, finalmente, ao chegar na rua, consegui respirar. Meu coração parecia ter perdido o ritmo, meus pulmões estavam apertados e minhas mãos suavam frio. Chamei o carro e voltei para casa em silêncio. A resposta veio no final da tarde. Fase de teste. Três meses de experiência começando em dois dias. O e-mail com horários e salário parecia oficializar minha nova vida, mas o destino tinha outros planos para aquela noite. Minha mãe, Flora, ainda não tinha voltado da visita ao meu irmão. Quando liguei, a tensão na voz dela me fez pegar a bolsa na mesma hora. Minha sobrinha, Liz, estava com febre alta no Hospital Geral. Corri para lá, levando apenas alguns snacks e o coração em prece. No corredor da pediatria, encontrei minha cunhada, Brenda, com o olhar perdido. — O pediatra disse que é o dentinho nascendo antes da hora — explicou ela, tentando se acalmar. — Mas ela pegou uma virose, provavelmente pela gengiva aberta. — Ai, cunhada, que susto! Não parei de orar um minuto — confessei, abraçando-a. Para distraí-la, acabamos falando da entrevista. — E o "velho" Dr. Cavalcanti? É assustador? — Brenda perguntou com um sorriso de lado. — Velho? Menina, é o filho dele. E de velho só a cadeira onde ele estava sentado... — rimos juntas, mas corei ao perceber o quanto eu tinha reparado na aparência do Dr. Mike. Ele era bem mais alto que eu, uns 20cm talvez. Seu sorriso era lindo, era o que de se esperar devido sua profissão. Sua barba e seus cabelos estavam perfeitamente alinhados em um tom de castanho médio e seus olhos escuros que pareciam capazes de ler minha alma. Depois que meu irmão chegou e a situação de Liz estabilizou, decidi caminhar pelo hospital para conhecer meu futuro local de trabalho. Evitei o 7º andar, por puro nervosismo, e acabei no último andar — um terraço acolhedor, com sofás, plantas e até um pequeno palco. Parecia um refúgio. Mas o refúgio durou pouco. Ao me aproximar do palco, ouvi barulhos de beijos e risos contidos. A vergonha me atingiu em cheio. Saí correndo, fugindo da intimidade alheia, e quase atropelei alguém que saía do elevador: Dr. Mike. — O que você está fazendo aqui? — ele perguntou, direto e surpreso. Expliquei sobre minha sobrinha, mas ele não pareceu convencido pela minha pressa. — Me refiro a este andar. É permitido apenas para funcionários. E você parece que viu um fantasma. — Eu não sabia... desculpa! — gaguejei. — Saí correndo porque não queria atrapalhar o que estava acontecendo ali atrás. Virei as costas e entrei no elevador sem olhar para trás. Fui rude, eu sei, mas a vergonha era maior que minha educação. No dia seguinte, meu pai, Otávio, me levou para o meu primeiro dia oficial. O carro cheirava ao café que ele tomara cedo. — Filha, se não der certo, tenho três músicas novas escritas para você gravar — ele disse, com aquele jeito manso de quem sabe o que fala. Dei um beijo em seu rosto e desci, encorajada. Porém, assim que as portas do elevador se abriram no térreo, a realidade me deu um soco no estômago. Bia, a moça bonita que me acompanhara na entrevista, estava saindo aos prantos, amparada por um policial. Sua voz estava embargada, mas as palavras ecoaram pelo saguão: — Acho que, por ele ser um Cavalcanti, pensou que eu não o denunciaria... O sangue fugiu do meu rosto. Apertei o botão do 7º andar com os dedos trêmulos. "Ele", o Cavalcanti da denúncia... seria o Dr. Mike? O homem que cuidava de crianças com necessidades especiais seria capaz de algo que exigisse a polícia? As portas se abriram no andar da odontologia. O silêncio ali era ensurdecedor. Fui direto para a recepção, onde Renata me deu as primeiras instruções. Ela mencionou que o Dr. Mike queria me apresentar o andar pessoalmente, mas estava "resolvendo um pequeno problema". O problema tinha nome e farda: assim que passamos pela porta dele, dois policiais saíram da sala. Consegui ver o rosto de Mike de relance e apenas dei um aceno discreto com a cabeça. Renata me mostrou a copa, os banheiros, os vestiários e as salas. Todos os funcionários eram simpáticos, mas a apreensão pairava no ar como uma nuvem carregada. Eu era a única ali que não sabia o que estava acontecendo. — O primeiro paciente do Dr. Mike já está a caminho e não deu para cancelar — explicou Renata, nervosa. — Mas os demais do dia foram suspensos. Fiquei na copa esperando. O silêncio era estranho, e eu sentia que Renata tinha me "escondido" ali para que eu não visse o movimento lá fora. Dez minutos antes do atendimento, a ansiedade venceu. Saí para o corredor e, ao virar a esquina da sala de consulta, parei abruptamente. Um homem, assustadoramente parecido com o Dr. Mike, saía da sala dele. Tinha o rosto vermelho, a roupa manchada de sangue e um pequeno curativo no lábio. Ele me mediu de cima a baixo, endireitou a postura e lançou uma risadinha maliciosa para o Mike. O Dr. o empurrou com força para fora e fez um sinal seco para que eu entrasse. Hesitei. Aquilo era uma loucura? Mas Mike me lançou um olhar — um pedido silencioso de ajuda — e eu tomei coragem. Entrei 






