Servir

​Procurei a Nicolly e me informaram que ela já havia ido almoçar. Ao chegar no refeitório, vi que ela estava sentada na mesma mesa daquele segurança asqueroso. Me preocupei se ele a estava importunando também e fui direto até ela.

​— Nicolly, você está bem?

​— Oi, amiga! — disse ela, alegre como sempre. — Estou ótima, e você?

​— Estou bem. Um pouco cansada, mas bem! Não tem ninguém te incomodando, não, né? — eu disse, olhando fixamente para ele.

​— Lógico que não, menina! Por que isso de repente? A propósito, este é o Lincon, é segurança aqui do hospital.

​Eu o ignorei e disse a ela que iria pegar minha comida. Eles conversavam de forma casual e riam como bons amigos. A comida estava difícil de descer com aquele homem próximo a mim. Eles terminaram e Nicolly disse que iria me esperar. Ele saiu como se nada tivesse acontecido. Assim que ele estava a uma distância segura, ela se virou e disse:

​— Menina, o que deu em você? Tem alguma coisa rolando entre vocês dois? Me diz que não, por favor! Ele é casado com uma amiga minha. Diz que não, por favor!

​— Como assim ele é casado? — eu disse, surpresa.

​— Ah, não... está acontecendo algo, né? — disse ela, em um tom dramático e triste

Decidi não contar nada para ela. E se fosse coisa da minha cabeça?

​— Eu só não fui muito com a cara dele — eu disse, um pouco sem jeito.

​— Huumm... entendi — respondeu ela, desconfiada.

​Terminei de comer meio à força; já havia perdido o apetite. Nicolly precisou sair antes de mim, já que ela tinha descido primeiro. Fiquei pensando no que fazer para melhorar a logística dos horários dos pacientes quando me dei conta de que estava na hora de retornar. Antes de sair, percebi que alguns médicos de outros andares almoçavam ali. Pensei comigo mesma: "O Mike é filho do dono, ele jamais se juntaria a todos assim... eu acho".

​Subi pensando em como era legal a ideia de dois amigos fazer um hospital juntos, com tantas especialidades, e em como aquele hospital era enorme. Quando voltei para a sala, o Mike estava me esperando. Percebi uma marmita em cima da mesa. "Ele prefere comer sozinho a se juntar aos funcionários?". A sala dele era dividida em duas partes: uma para atendimentos odontológicos e a outra era um escritório; normalmente, ele fechava a divisória do escritório durante os atendimentos, mas, fora isso, estava sempre aberta.

​— Clara, você chegou na hora certa. Vem ver o que pensei em fazer.

​Ele fez sinal para que eu fosse até o computador. Puxou uma cadeira para que eu sentasse e me mostrou um rascunho de uma sala de reunião. A primeira coisa que reparei, porém, foi um post-it com um versículo grudado em sua mesa. A segunda coisa, que quase me fez perder os sentidos, foi o perfume dele. Logo ele disse algo que eu não ouvi direito, então pedi perdão:

​— Desculpe, não entendi.

​— O que você acha? — ele perguntou.

​Desta vez, dei atenção ao computador de fato e li: "Sala de Espera Sensorial". Ele tinha desenhado a sala de reuniões com alguns itens sensoriais. Olhei para ele encantada e sorri.

​— Acho que, pelo seu sorriso, meu desenho está péssimo, não é?

​— Não é isso, Dr. Imagina! Estou encantada com a sua ideia. Uma sala de espera assim permite que nossos pacientes se acalmem e, mesmo que haja atrasos, talvez não percebam tanto.

​— É exatamente isso, Clara. Você tem o dom de me entender. — Ele estava animado, e isso me deixou feliz.

​— O senhor quer que eu procure alguma empresa que faça esses serviços?

​— Primeiro: não quero empresa nenhuma. Segundo: não posso fazer reformas grandes no momento. — Enquanto ele falava, eu olhava para a tela imaginando tudo o que poderia ser feito. Ele continuou: — Terceiro, e o mais importante... quero que você faça.

​Quando ouvi aquilo, virei-me para ele com tudo, assustada, e agora quem estava rindo era ele.

​— Eu? Como assim? Por quê?

​— Porque você é sensível, já trabalhou com crianças atípicas e vejo que entende o meu jeito. Já tive muitos auxiliares experientes, mas você parece estar sempre um passo à frente. Sabe o que eu quero, então ninguém melhor do que você! Mas não fará isso sozinha, fique tranquila. Já conversei com um estagiário de Neuropediatria e ele irá te ajudar nas partes técnicas também.

​— Meu Deus, que honra! Muito obrigada mesmo por essa oportunidade.

​— Imagina. Amanhã você tem o período todo da manhã para estudar como e o que fazer, ok? Nossos atendimentos serão apenas após o almoço, pois preciso resolver umas questões com a diretoria.

Logo que ele terminou de falar, Renata apareceu e disse que precisava falar com o Mike a sós. Eu saí imediatamente, e ele pediu para que, ao sair, eu deixasse a porta aberta. Assim eu fiz, mas antes que pudesse me afastar completamente, ouvi Renata dizer:

​— A Cassandra voltou, Mike.

​Saí curiosa para saber quem era Cassandra e por que precisavam falar sobre ela a sós. Mas logo percebi que aquilo não era da minha conta; eles certamente tinham seus motivos. Fui até a copa e tomei um pouco de café. Não era muito o meu costume, mas eu precisava de um ânimo para continuar com os atendimentos do dia; acordar cedo nunca foi algo de que eu gostasse.

​Tomei o café e fiquei esperando na sala de reuniões, já imaginando o que poderíamos fazer ali. Logo a Renata me chamou e disse que o próximo paciente entraria em breve.

​Confesso que o resto do dia foi um pouco estranho. Mike continuava com toda a atenção e amor aos pacientes e, em alguns intervalos, falávamos sobre a sala sensorial, mas sempre que ele pegava o celular, eu notava que ficava tenso e irritado.

​O dia terminou e o Mike parecia exausto. Dava a impressão de que carregava o mundo nas costas.

​— O senhor precisa de mais alguma coisa, Dr.? — perguntei em um tom amigável. Tentei transmitir que eu estava ali para ajudá-lo.

​— Não, Clara. E já disse que pode me chamar de Mike, né? E "senhor"... poxa, me sinto um vovozinho — disse ele, brincando. — Eu nem sou tão mais velho que você. Cinco anos não são o suficiente para me chamar de "senhor".

​— De fato, não é mesmo. E você — dei ênfase na palavra para ele ver que aprendo rápido — não é um vovozinho — respondi, rindo. — Chamo assim por respeito.

​— Sim, eu entendo e admiro sua educação. Meu pai havia me falado que o seu pai era um paciente antigo dele.

​— Sim, eu mesma já passei aqui algumas vezes. Toda a minha família, na verdade. Mas confesso que fazia um certo tempo que eu não vinha — fiz um sinal de "rendição". — Mas, pelo que reparei, alguns dos médicos mais antigos não atendem mais aqui.

​— Meu pai aposentou muitos deles. — Ele ia dizer algo mais, porém a Dra. Júlia apareceu.

​— Mike, meu amigo, meu querido amigo, meu quase irmão... — disse ela, parecendo uma criança prestes a pedir algo. — Eu não vou conseguir dar carona para a Renata e para o Rubens (o namorado dela). Você pode me fazer esse favor? Sei que não é no caminho da sua casa, mas prometi que os levaria. Só que tenho um date em uma hora.

​— Eu levo, né! Mas saiba que está me devendo uma... uma não, duas, já que são dois passageiros — respondeu ele.

​— Três, então! Leva a Clara também! — ela disse isso e saiu apressadamente.

​— Imagina, Dr. Não precisa me levar, não. Eu chamo um carro rapidinho. Nem moro tão longe daqui.

​— Eu reparei na sua ficha. Você mora no mesmo bairro que eu, inclusive — disse ele, enquanto arrumava as coisas para ir embora.

​— Olha que interessante! Mas eu posso ir sozinha, não quero incomodar.

​— Bom, a escolha é sua. Mas, se quiser, podemos ir falando sobre a sala sensorial. Você já teve alguma ideia?

​— Tudo bem, agora você me convenceu! Vou pegar minhas coisas. Onde te encontro? No caminho te conto o que pensei.

​— Vou ficar esperando na recepção. A Renata é a última a sair, pode ir com calma — disse ele, com uma cara de tédio fingida.

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