Mundo ficciónIniciar sesiónAssim que a porta se fechou, Mike começou a desabotoar e tirar a camisa. Meu coração parou. O pânico subiu pela garganta.
— PARA! O que você vai fazer? — gritei, recuando. Ele parou, assustado com a minha reação. — Desculpa... por um momento esqueci que você estava aqui. Minha madrugada foi cheia e estou com uma regata por baixo, não se preocupe — ele disse, a voz rouca de exaustão. — Preciso que pegue outra camisa para mim naquele armário, por favor. Temos que ser rápidos; meu pequeno paciente tem a paciência menor que ele. Senti minhas bochechas queimarem de vergonha. — Claro, doutor. Aqui está. Me dê essa suja, vou tentar tirar a mancha de sangue antes que marque o tecido. — Não precisa, eu mando fazer outra... — Ele parou, olhando para a minha roupa comum. — Onde está seu uniforme? Expliquei que demoraria três dias para ficar pronto. Ele assentiu e, enquanto se vestia, começou a me explicar sua filosofia: cada paciente ali era único, e o segredo estava em conhecer as necessidades antes mesmo de abrirem a boca. Logo o paciente chegou: um menino de seis anos, autista nível 2 de suporte. A mãe estava exausta; explicou que ele estava agitado e não conseguia ficar parado. Mike chamou outra auxiliar para me orientar, mas, no meio da consulta, ele a dispensou. Eu estava dando conta. Enquanto trabalhávamos, nossos olhares se cruzaram diversas vezes. Mike parecia tentar ler minha alma entre um instrumento e outro. Ele estava visivelmente cansado, mas a forma como tratava a criança era impecável. Quando a mãe e o menino saíram, o silêncio voltou à sala. Mike relaxou os ombros e olhou para mim com um meio sorriso. — Parabéns. Você é mais do que uma pop star. Dei um sorriso tímido enquanto ele pegava o celular, o brilho de urgência voltando aos seus olhos escuros. Fiquei sem saber se devia sair ou ficar. Parecendo ler meus pensamentos, Mike falou sem desviar os olhos da tela: — Você pode sair. Falei com a Dra. Julia e você irá acompanhar os atendimentos dela hoje. Tive que cancelar meus horários e você já deve imaginar o porquê. Amanhã nossa agenda está cheia, então preciso que fique até mais tarde. Pode ser? — Tudo bem, doutor. Ficarei até a hora que precisar. Vou procurar a Dra. Julia agora mesmo. Eu já estava com a mão na maçaneta quando a voz dele me deteve. — Clara... se você puder, tente não comentar com ninguém sobre o que viu ontem e hoje. Virei-me devagar. Era o momento de estabelecer quem eu era naquele hospital. — Dr. Mike, ontem eu não vi nada; saí antes de ver qualquer coisa, se está se referindo ao episódio do último andar. E hoje? Só vi uma cópia sua com o rosto machucado e a Bia quando saí do elevador. Nada mais. Eu, de fato, não tenho o que contar. E mesmo se tivesse, espero que saiba que jamais faria fofocas. O que precisar, estou à disposição. Tenha um bom dia e... Deus abençoe. Vi um breve momento de alívio suavizar a expressão dele. Saí da sala, mas antes que a porta batesse, ouvi sua voz: — Obrigado pela sua discrição. Fechei a porta e não pude conter um sorriso. Meu primeiro paciente tinha sido ótimo, apesar do caos. Eu sentia uma admiração genuína pela calma dele no atendimento, mesmo cercado por problemas. Mas quem era aquele homem idêntico a ele? Bati na porta da sala ao lado e encontrei a Dra. Julia lutando com alguns equipamentos sobre o carrinho auxiliar. Assim que me viu, ela soltou um suspiro de alívio. — Você foi enviada por Deus! Preciso de ajuda aqui, por favor. Este carrinho está uma bagunça, meu último atendimento foi uma correria e minha auxiliar acabou passando mal. Aproximei-me rapidamente. Enquanto organizávamos o material, comecei a cantarolar baixinho, um hábito que eu tinha ao me concentrar. Julia parou e me observou sorrindo. — Olha só... posso ver que, de fato, você tem muitas qualidades, hein? — Como assim? Alguém falou que eu tinha qualidades? — perguntei curiosa. Na hora, não pude deixar de pensar que poderia ter sido o Dr.Mike, será que era sobre mim que ele digitava em seu celular? Então a Dra.Julia me afastou de meus pensamentos respondendo: — Sim, mas por enquanto vou deixar em segredo quem me contou isso — ela deu risada. Antes que eu pudesse insistir, meu estômago roncou. Julia olhou o relógio assustada. — Meu Deus, estou tomando o seu almoço! Vá comer, menina. Só não acompanho você porque prometi ao Mike que iríamos encontrar o advogado agora. Desci ao refeitório e assim que cheguei lá pensei em desistir. Tinha muitas pessoas, provavelmente dos outros andares do hospital. Me virei e assim que cheguei próximo a porta de saída Nicolly a assistente da Dra.Julia me chamou; Nicolly — ou Nick, como ela insistiu que eu a chamasse — percebeu minha hesitação e segurou minha mão com firmeza. — Onde você vai, Clara? Vamos buscar a comida juntas. Fui sincera e confessei minha vergonha. Nick apenas sorriu. No caminho para a fila, ela explicou que tinha um problema crônico de saúde que às vezes a fazia passar mal, mas que estava sob controle. A comida tinha um aspecto e um cheiro maravilhosos; decidi me alimentar bem, prevendo que o resto do dia exigiria muito de mim. Enquanto comíamos, descobrimos que tínhamos quase a mesma idade — apenas um dia de diferença. Nick era apenas um dia mais velha e ela era vibrante e apaixonada por aniversários. — Já reservei a área de festas no último andar para o meu dia, — contou ela, animada. — Você gosta mesmo de festas, hein? Falta meses para o nosso aniversário. O lugar é tão disputado assim? — Todo final de semana tem alguma comemoração lá — Nick suspirou, e seu semblante escureceu. — Só espero que, depois do que o Peter e a Bia fizeram, os diretores não fechem o lugar. — Não sei quem é Peter, muito menos o que fizeram — admiti. Nick olhou ao redor, garantindo que ninguém estivesse ouvindo. — Eu não gosto de fofoca, acho horrível, mas preciso te contar antes que você ouça versões erradas. O Dr. Mike tem um irmão gêmeo, o Peter. Foi ele quem indicou a Bia para trabalhar com o antigo Dr. Marcos. Ontem à noite, eles estavam lá na área de festas e o Peter descobriu que a Bia o estava traindo. Ele viu uma mensagem no celular dela, jogou o aparelho longe e deu um soco em sua barriga. Senti um calafrio. Por poucos minutos, eu não presenciei uma cena de violência. — O Dr. Mike estava no andar — continuou Nick. — Ele costuma ir lá em cima para respirar um pouco e interveio antes que o irmão fizesse algo pior. O Peter vem dando problemas faz tempo, mas o Mike só descobriu a gravidade agora que voltou do exterior a poucos meses. Tem algo além do Peter, mas não sei exatamente o que é. Deve ser algo com relação as finanças talvez. Por isso ele vive estressado e tomando remédio para dor de cabeça. Dinheiro não compra paz, Clara. Lembrei-me do semblante cansado de Mike e da forma como ele massageava as têmporas. Com delicadeza, pedi que Nick não me contasse mais nada; eu sentia que estava invadindo a privacidade dele. — Só mais uma coisa — Nick completou. — O Mike bateu no irmão hoje cedo, dentro da sala, por isso o Peter estava machucado. E a Bia só chamou a polícia porque o Mike se recusou a dar dinheiro a ela para abafar o caso. Ficaram a madrugada inteira em negociação ao que parece a dra.Julia também estava, mas ele disse para a Bia que ela podia denunciar o irmão, ele não ia interferir. Agora, as pessoas estão inventando que a Bia tinha um caso com o Mike... mas é tudo mentira. E vou te falar viu, quem tenta difamar o "patrãozinho" ganha a mim como inimiga. Em pouco tempo de conversa, passei a admirar a amizade entre Mike e Julia, o caráter resiliente dele e a espontaneidade de Nick. Senti, pela primeira vez, que me daria bem naquele lugar. Terminamos de comer e fomos ao banheiro para nossa higiene. Ao perceber que esquecera minha nécessaire no armário, saí apressada e acabei esbarrando em um dos seguranças. — Boa tarde, moça. Está tudo bem? — perguntou ele. Ele era alto, magro, mas nitidamente forte; mal se moveu com o impacto. Era ruivo, sem barba, e o boné do uniforme deixava alguns fios à mostra. Pedi desculpas, explicando minha pressa, mas quando ia saindo, ele me deteve: — Você precisa de ajuda para encontrar o que procura? O tom mudara. Não era mais amigável; era carregado de uma malícia que fez meu sangue gelar. Precisei ser firme. Olhei fixamente em seus olhos e disse um "NÃO" bem claro. Saí dali sem olhar para trás, certifiquei de não estar sendo seguida antes de voltar ao banheiro. Nick me esperava animada e insistiu para tirarmos uma foto. No reflexo do espelho, o contraste era lindo: a pele morena bem mais escura que a minha e os cabelos negros com alguns fios dourados dela brilhavam. Ela era uns dez centímetros mais alta que eu e tinha um sorriso radiante. — Seu sorriso é lindo, Nick — elogiei. — Trabalhar em um centro odontológico tem suas vantagens! — respondeu ela, rindo. Passamos o resto do dia juntas, já que a Dra. Julia permanecia em reunião com o advogado. Nick me contou histórias sobre o hospital e sobre os quatro irmãos Cavalcanti: Alice, a mais velha que morava fora; os gêmeos de 29 anos; e o caçula, Antonny, de 17, que jurava que jamais seguiria a medicina. O expediente chegou ao fim e não vi mais o Dr. Mike. No entanto, ao passar pela porta de sua sala para ir embora, senti uma necessidade irresistível de entrar. Não era curiosidade; era um chamado. Entrei, fechei os olhos e comecei a orar em voz baixa. Abençoei o hospital, os pacientes e, por fim, orei especificamente por Mike — por sua saúde, sua família e pela paz que lhe fora roubada. Quando abri os olhos, meu coração saltou. Mike estava parado à porta, observando-me em silêncio. A vergonha subiu pelo meu pescoço. Peguei minha mochila rapidamente e me dirigi a ele. — Me desculpe, doutor. Eu não sabia que o senhor voltaria para cá. Sei que deveria ter pedido permissão... é que eu não pude deixar de orar pelo senhor e por este lugar. Houve uma pausa longa. O cansaço em seu rosto era evidente. — Não precisa se desculpar — ele disse, a voz mais suave do que o normal. — Eu preciso de um pouco de paz depois do dia de hoje. Obrigado pela oração. — Imagina. Sempre que precisar, estou à disposição. Boa tarde, doutor. — Boa tarde, Clara. Ah... e pode me chamar de Mike, ok? — Ok. Boa tarde, Mike. - Eu disse um pouco sem jeito- Até amanhã, às seis em ponto. Saí e fechei a porta com cuidado, lembrando-me do peso que ele carregava e das dores de cabeça que o perseguiam. Fui para casa sentindo que, de alguma forma, aquela oração iria surtir algum efeito. Cheguei em casa e pude tomar um banho demorado e conversar com meus pais. Eles de fato eram adoráveis. Lembro que, na minha adolescência, conversar com eles não era prazeroso, mas acho que o problema estava em mim — pensei, me divertindo sozinha. Tomamos um café da tarde juntos. Já que o setor onde eu trabalhava não era 24 horas, o horário era adaptado: tínhamos que chegar bem cedo, mas não saíamos muito tarde. Os finais de semana eram intercalados e não envolvia toda a equipe; isso foi uma ótima mudança que o Dr. Mike fez. Ele não havia assumido o lugar do pai há muito tempo, mas, pelo pouco que percebi, ele mexeu em muitas coisas para melhor. Assisti a um filme com meus pais, mas passei metade do tempo mexendo nas redes sociais; percebi que, no serviço, eu não tinha muita cabeça para isso. Quando anoiteceu, comi algo leve e fui dormir. Peguei no sono fácil, mas, devido à euforia da nova vida, não foi um sono muito tranquilo.






