Com a mão na massa

​Ao acordar, prendi meu cabelo em um rabo de cavalo alto, fiz um delineado fino, passei um pouco de blush e um gloss. Me senti pronta para o que quer que viesse a seguir. Eu não iria mais tomar café da manhã com meus pais, pois agora acordava cedo demais para isso. Tomei um café reforçado e fui trabalhar bem animada.

​Cheguei ao hospital e o segurança do incidente do banheiro estava na portaria; aquele ruivo me dava medo. Ouvi dizer que a ronda dos guardas era rotativa, o que significava que, em algum dia, ele voltaria ao meu andar. Orei em pensamento para que ele ficasse longe de mim.

​Cheguei ao meu andar e fui uma das primeiras. Arrumei o que precisava e fiquei esperando o serviço começar. Os atendimentos iniciavam somente às 8h, mas precisávamos esterilizar algumas coisas e organizar prontuários. Imaginei que o Dr. Mike chegaria próximo ao horário, mas, para minha surpresa, ele apareceu bem antes disso.

​— Bom dia, Clara! — disse ele ao entrar em sua sala de atendimento.

​— Bom dia, Dr... quer dizer, bom dia, Mike — eu disse rapidamente. Ele me intimidava um pouco.

​Enquanto ele se arrumava e ligava o computador, eu não sabia se continuava ali. Fazer algo pela primeira vez não é fácil. Acho que ele reparou meu olhar de dúvida e disse:

​— Como foi a sua noite? Acredito que o primeiro dia de trabalho em algo novo deva ter mexido com você, não é?

​— Nossa, eu dormi muito rápido, mas acredito que estava ansiosa e acordei algumas vezes durante a noite.

​— Ansiosa para vir trabalhar? Isso é bom ou ruim? — perguntou ele em um tom leve.

​Pude ver que Mike era, de fato, um homem muito educado e simpático. Mesmo com tantos problemas, ele estava preocupado com a minha noite?

​— Sim, gostei de todos aqui até então e estou bastante empolgada para a minha nova vida.

​— Que bom. Tentamos sempre manter uma boa convivência por aqui.

​— Pude perceber.

​Assim que terminei minha frase, alguém bateu à porta.

​O Dr. Mike disse para que a pessoa entrasse e só então me dei conta de que estávamos sozinhos na sala com a porta fechada. Mesmo eu tendo 24 anos, aquilo era um pouco estranho para mim; eu evitava, em todas as situações, ficar sozinha com um homem.

​A pessoa entrou e era a Dra. Júlia. Ela me cumprimentou de forma bem simpática e se dirigiu à mesa do doutor. Eu pedi licença para deixá-los a sós, mas, antes de eu sair, o Dr. Mike perguntou se a sala estava toda pronta para os atendimentos. Eu disse que sim e então a Júlia comentou:

​— Que menina rápida! Essa é das minhas — disse ela, dando uma piscadinha.

​— Ela estava ansiosa para vir trabalhar, acredita? — disse ele, em tom de brincadeira.

​— Apenas fiz meu trabalho Dra. — respondi em um tom alegre. Sobre o comentário do Mike, eu não sabia o que dizer, apenas sorri.

​Ele permitiu que eu saísse.

Assim que saí da sala, me deparei com a Nick vindo pelo corredor, eu havia, de fato, gostado dessa garota. Nós nos cumprimentamos e começamos a conversar. ela me deu mais algumas instruções sobre o serviço, falou como foi a sua noite,me contou histórias cômicas dos seus primeiros dias trabalhando ali até que chegou a hora dos atendimentos e cada uma foi para sua sala.

​Ao entrar, senti uma certa tensão no ar. O Dr. me explicou que o próximo paciente era um caso delicado: um menino com autismo, suporte nível 2, que estava extremamente estressado. A mãe dele havia mandado uma mensagem explicando que a situação dele, naquele dia, estava um pouco complicada.

​Quando comecei o atendimento com ele, percebi que ele gostava de música, pois estava agitado o tempo inteiro e, de repente, começava a cantarolar algo. O fato é que ele era não verbal, mas percebi ali os pequenos sinais. Perguntei à mãe se eu poderia colocar uma música para ele ouvir; claro que, antes, pedi autorização ao Dr. Mike, e ele consentiu. A mãe disse que seria uma boa ideia, então o menino se acalmou e pudemos terminar o atendimento. Precisei repetir a mesma música até o final, mas fiquei aliviada por ter dado certo.

Assim que o menino e a mãe saíram, eu me joguei na cadeira e respirei bem fundo. Estive tensa em todo o atendimento. Logo, o Dr. Mike se aproximou de mim e perguntou:

​— Está tudo bem?

​Na hora me coloquei de pé, tentando demonstrar profissionalismo, e disse:

​— Sim, está, obrigada por perguntar. Eu fiquei um pouco tensa devido à complexidade do caso e por ser o primeiro paciente do dia.

​— Eu entendo. Quando eu estava estagiando, ficava tão nervoso que esquecia de respirar — disse ele rindo — Só lembrava quando o corpo gritava pedindo ar.

​— Mas o senhor faz parecer fácil!

​— Hoje tenho mais controle. Mas ainda assim é uma enorme responsabilidade. Fico nervoso, mas me coloco no lugar deles e imagino que eles sempre estão mais nervosos que eu, então tento transmitir paz. Sempre que precisar respirar um pouco, me avise de forma discreta e saia da sala um pouco, tá?

​— Muito obrigada. Mas espero não ser necessário. Sempre que eu ia me apresentar ficava nervosa, mas com a "mão na massa" me concentro no que tenho que fazer e faço.

​Notei que conversar com ele era fácil e pude perceber que ele de fato ama essa profissão e seus pacientes.

​Chamei o próximo e começamos mais um atendimento. Notei que ele estava de olho em mim e dei o meu máximo. Mantive a calma, fiz meu trabalho e, ao encerrar, permaneci forte. Esse paciente de fato estava um pouco mais calmo que o anterior, e isso me ajudou.

​Chamamos, então, mais um e vi uma linda moça entrar. Estava toda de rosa, inclusive a maquiagem. Ao me ver, ela ficou tensa e pediu que eu saísse da sala. Olhei para o doutor e ele prontamente explicou que precisava de mim ali. Após muita conversa, ela aceitou, mas pediu que eu não tocasse nela. E eu, de fato, não tocaria.

​Ajudei o doutor o máximo que pude; a menina não parava de conversar. Achei engraçado em certos momentos, mas percebi que estava atrapalhando o Mike e o deixando um pouco agitado. Então, eu tentei puxar assunto com ela, o que não deu certo. A avó dela me chamou no canto da sala e explicou que ela havia passado com uma médica anteriormente e tinha sido maltratada; a médica não tinha paciência e, em certo momento, acabou machucando-a um pouco. Isso quebrou meu coração em pedaços.

​Então, tive uma ideia. Comecei a conversar com o Mike. Comecei falando o quanto a roupa rosa dela era linda, os cabelos... e o Mike, logo de cara, entendeu minha estratégia e foi no meu embalo. A menina começou a prestar atenção na nossa conversa e, finalmente, o doutor conseguiu terminar o atendimento.

​Percebemos que havia demorado mais do que o esperado. Assim que ela saiu, o Dr. Mike demonstrou preocupação com a demora e a espera dos próximos pacientes. Ele sempre marcava com uma folga entre um atendimento e outro justamente para casos como esses.

​Ele disse, então, que teríamos apenas mais um atendimento e eu poderia ir almoçar. Quando chamamos o próximo, a recepcionista disse que eles haviam ido embora. Eles tinham chegado um pouco mais cedo e, como o último atendimento havia demorado, a mãe pediu para remarcar; a filha estava cansada de esperar e estava ficando estressada.

​Vi, na hora, que o Mike ficou abalado com a notícia. Ele pediu que nos retirássemos da sala e, assim que saímos, pudemos ouvi-lo resmungando algo. Parecia, de fato, frustrado.

​— Ele odeia atrasos — disse a moça. — Faz de tudo para que todos, inclusive seus funcionários, se sintam bem. Com essas questões da administração e o escândalo do irmão, pude perceber que ele está quase em seu limite.

​Eu não soube o que responder, então apenas fiz uma cara triste e demonstrei empatia o máximo que pude. Eu não era tão boa com as palavras; confesso que me expressar através da música era mais fácil.

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