Mundo de ficçãoIniciar sessãoEmma
O café da manhã na sala de jantar ainda estava intacto à minha frente, o pão quente e o café fumegante intocados, Dante saiu, sem dizer mais nada, ele mentia: meu pai nunca me venderia para Salazar. Ele tinha fama de torturar as garotas; era um monstro muito pior que Dante. Não conseguia imaginar que o homem que me criara seria capaz de algo assim.
Luca, por outro lado, não parecia notar a tensão. Ele estava sentado no chão, perto da mesa, empurrando um carrinho de brinquedo em uma pista imaginária, os cabelos castanhos bagunçados caindo sobre os olhos negros que brilhavam com uma inteligência viva.
— Emma, vem brincar! — chamou ele, a voz cheia de entusiasmo. — Olha, esse é o carro mais rápido! Quer apostar uma corrida?
Hesitei, mas o sorriso dele era difícil de resistir. Sentei-me no chão ao seu lado, pegando um carrinho vermelho que ele me oferecera. Enquanto empurramos os brinquedos, ele tagarelava sobre pistas, motores e regras inventadas, e eu não pude deixar de notar como ele era articulado, como se tivesse aprendido a observar o mundo com uma atenção incomum para uma criança.
— Luca — perguntei, mantendo o tom leve enquanto alinhava o carrinho —, por que você não sai muito da casa? Não gosta de brincar lá fora?
Ele parou, o carrinho suspenso no ar, e seus olhos se estreitaram, como se pesasse o que dizer.
— Meu pai diz que o mal está à espreita — respondeu, a voz baixando para um tom quase conspiratório. — Ele diz que eu sou a fraqueza dele, então tenho que ficar seguro aqui.
As palavras me acertaram como um choque. A fraqueza de Dante? Meu olhar vagou para a memória do rosto dele, a cicatriz profunda cortando da sobrancelha à mandíbula, uma marca que parecia gritar violência. Todo mundo dizia que ele perdera a esposa e o filho em um acidente de carro anos atrás. Mas Luca estava aqui, vivo, escondido. E se o acidente não tivesse sido um acidente? E se a cicatriz de Dante e a morte de sua esposa fossem obra de alguém? A ideia de que Dante escondia Luca para protegê-lo de um perigo real fez meu estômago revirar. Não por pena, mas por medo do que isso significava sobre o homem que me mantinha aqui.
— Vamos fazer outra corrida? — perguntou Luca, alheio aos meus pensamentos, e eu forcei um sorriso, voltando ao jogo.
Brinquei com Luca até a hora da soneca, e, quando não havia mais suas risadas para preencher o lugar, tudo se tornava inquieto.
Decidi sair para explorar a mansão, precisando de ar e espaço para pensar. Os corredores eram largos, com quadros de paisagens escuras e portas trancadas que pareciam guardar segredos. Quando cheguei ao jardim, fiquei sem fôlego. Era lindo, quase mágico: canteiros de rosas vermelhas, uma fonte de pedra murmurando ao centro, árvores altas que balançavam com o vento. Mas, até ali, a beleza parecia carregada de sombras, como se o lugar refletisse o dono — deslumbrante, mas perigoso.
De volta ao quarto, encontrei Maria esperando com várias malas de couro alinhadas contra a parede. Ela abriu uma delas, revelando vestidos, blusas e calças de tecidos tão finos que pareciam irreais. Marcas de grife, cores ricas, cortes que eu só via em revistas. Meu queixo caiu.
— Dante mandou trazer — disse Maria, com um tom prático. — Escolha o que quiser. Eu reporto à loja o que você selecionar.
Fiquei abismada. Nunca estivera tão perto de roupas tão caras, tão luxuosas. Uma parte de mim quis recusar tudo, jogar as malas na cara dele, mas a verdade era que eu precisava de um banho. A poeira da noite anterior ainda grudava na minha pele, e aquelas roupas amarrotadas eram um lembrete da minha humilhação. Relutante, escolhi três peças — uma blusa preta, uma calça jeans de corte impecável e um vestido simples, mas elegante.
— Isso é o bastante — murmurei, entregando as peças a Maria.
Ela ergueu uma sobrancelha, mas assentiu, levando as malas embora. Passei o resto da tarde com Luca, ajudando-o com o banho, servindo-lhe o jantar e colocando-o na cama. Ele segurou minha mão enquanto eu lia uma história, os olhos pesados de sono, e, por um momento, senti um aperto no peito. Ele era apenas uma criança, presa naquele mundo tanto quanto eu.
Quando saí do quarto de Luca, tomei um banho, deixando a água quente lavar o peso do dia. Envolvi-me em um roupão macio, ainda processando tudo, quando Maria voltou.
— Dante a espera para o jantar — disse ela, parada na porta.
— Não estou com fome — respondi, secando o cabelo com uma toalha.
Maria franziu a testa.
— Não a vi comer nada o dia todo, Emma.
— Não estou com fome — repeti, mais firme, e virei-me para a janela, esperando que ela saísse.
Minutos depois, a porta se abriu com força, e Dante entrou, o rosto sombrio, a cicatriz parecendo mais cruel sob a luz suave do quarto. Seus olhos negros me perfuraram, e o ar pareceu ficar mais pesado.
— Desça — ordenou ele, a voz grave e autoritária. — Não me importo com o que você quer. Você vai jantar.
O tom bruto dele me assustou, e meu coração disparou. Dei um passo para trás, cruzando os braços.
— Você não pode me obrigar — retruquei, a voz tremendo, mas cheia de desafio.
Ele deu um passo à frente, encurtando a distância entre nós, o olhar tão intenso que quase me fez recuar.
— Posso, sim — disse ele, cada palavra cortante como uma lâmina. — Se você não comer sozinha, eu mesmo vou fazer você engolir a comida. Não me teste, Emma.
A fúria queimou em meu peito, misturada com um medo que eu odiava admitir. Ele me encarava, imóvel.
— Você tem uma escolha — continuou ele, a voz baixando para um tom perigoso. — E tem dois minutos para decidir.
Sem forças para lutar, senti o peso da derrota. Ele não cederia, e eu sabia que não venceria aquela batalha. Com os punhos cerrados, passei por ele, descendo as escadas em silêncio, a raiva fervendo em cada passo. Ele poderia me forçar a comer, a viver naquela casa, mas nunca me faria dobrar. Não completamente.







