Capítulo 06

Dante 

O aroma de café fresco e pão quente pairava na sala de jantar, misturando-se ao leve perfume de cera que polia a longa mesa de mogno. Eu estava sentado à cabeceira, jornal dobrado ao lado do prato intocado, mas minha atenção não estava nas manchetes. Estava na escadaria do outro lado do salão, esperando por ela.

Emma.

A garota que, desde aquela noite na boate, se cravara na minha mente como farpa envenenada  uma que eu não conseguia arrancar, e que doía mais a cada tentativa.

Quando ela finalmente desceu, meu olhar a encontrou como um predador localiza a presa. A mesma blusa simples de ontem, jeans gastos e amarrotados, carregando o peso da noite que passara em lágrimas. Olhos castanhos inchados, pálpebras avermelhadas prova irrefutável de que chorara por horas. A visão me acertou no estômago como soco. Por um segundo, senti-me um idiota completo. Eu deveria ter mandado buscar as coisas dela. Um descuido. Um erro que não se repetiria. Mentalmente, já planejava roupas novas algo que a fizesse sentir o luxo que eu podia dar. 

— Bom dia — disse, voz saindo mais ríspida do que eu queria. — Nesta casa, as pessoas acordam cedo.

Ela parou a poucos passos da mesa, braços cruzados, queixo erguido em desafio puro. Não respondeu. Apenas me encarou, olhos brilhando com mistura de raiva e exaustão que me irritava... e me incendiava ao mesmo tempo.

— Soube que conheceu meu filho — continuei, pousando a xícara com clique seco. — Luca.

Ela assentiu uma vez, lábios apertados, silêncio como arma.

O silêncio dela me irritou. Uma faísca acendendo a raiva que eu tentava conter.

— Apenas as pessoas desta casa sabem sobre ele. E agora você — prossegui, voz baixa, firme, quase ameaçadora. — Luca é meu maior segredo. Ninguém fora destas paredes pode saber que ele existe. Entendeu? Maria cuida dele, mas ela não tem mais energia para acompanhar um menino de seis anos. A partir de agora, você será a babá dele. Vai mantê-lo ocupado, brincar com ele, garantir que fique seguro. É isso que você vai fazer aqui.

Emma permaneceu calada, olhar fixo em mim como se eu fosse um estranho falando outra língua. A tensão na sala cresceu, espessa, elétrica. Minha paciência, já fina, começou a se romper.

— Ficou muda? — perguntei, tom cortante, inclinando-me para a frente. — Ou acha que pode simplesmente me ignorar?

Ela puxou o ar com força, punhos cerrados ao lado do corpo. Quando falou, a voz tremia de ódio, cada palavra afiada como lâmina.

— Eu não converso com sequestradores.

O ar congelou. Minha mandíbula travou, cicatriz ardendo sob a onda de raiva que subiu pelo peito. Levantei-me devagar, cadeira arranhando o chão como aviso.

— Sequestrador? — repeti, voz baixa, quase um rosnado. Caminhei até o lado da mesa, parando perto o suficiente para que ela sentisse o calor do meu corpo. — Foi seu pai que te ofereceu, Emma. Ele te jogou aos lobos — primeiro para mim, depois para Salazar. Eu poderia ter deixado você lá. Um bordel seria seu destino, e ele nem piscaria. Aqui você tem teto, comida, proteção. Um trabalho digno. Mas se prefere bancar a mártir... posso mudar de ideia.

Ela recuou um passo, olhos arregalados por um instante. Mas a raiva voltou rápido, incendiando o olhar. Abriu a boca para retrucar eu via o fogo nos lábios entreabertos , mas então Luca entrou correndo, carrinho na mão, alheio à tempestade que pairava.

— Pai! Emma vai brincar comigo hoje? — perguntou ele, olhos negros brilhando, idênticos aos meus, doendo no peito.

O som da voz dele quebrou o momento. Respirei fundo, forçando a raiva para baixo. Olhei para Emma. Agora ela encarava Luca, expressão suavizando por um segundo — ternura fugaz — antes de endurecer de novo ao me fitar.

— Sente-se e coma — ordenei, apontando a cadeira à minha frente. — Temos regras nesta casa. Você vai segui-las. Quanto a Luca... ele é sua responsabilidade agora. Não me decepcione.

Ela hesitou, orgulho lutando contra a realidade. Acabou se sentando, movimentos rígidos, corpo tenso como corda esticada. O silêncio voltou, pesado, enquanto eu a observava.

Aquela garota era uma tempestade ambulante. Manter ela aqui seria como segurar fogo com as mãos nuas.

Mas enquanto a via cutucar o prato com relutância, evitando meu olhar, uma parte de mim  uma parte que eu odiava admitir queria que ela ficasse. Que se acostumasse. Que olhasse para mim não só com ódio... mas com algo mais.

Algo que queimasse tanto quanto o fogo que ela carregava.

Eu a queria segura.

Queria ela aqui.

E, no fundo, queria que ela me desafiasse todos os dias  até o momento em que não aguentasse mais resistir.

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