Capítulo 08

Dante

O crepúsculo tingia o céu de um roxo profundo, visível através das janelas altas da mansão, enquanto eu estava no escritório, o charuto apagado entre os dedos. A inquietação que me perseguia desde a noite anterior não dava trégua, os olhos castanhos de Emma cravados em minha mente como uma lâmina que eu não conseguia extrair. Um leve toque na porta interrompeu meus pensamentos, e Maria entrou, o avental impecável contrastando com a expressão preocupada que raramente exibia.

— Senhor Dante — começou ela, cruzando os braços —, a garota, Emma... ela não comeu nada o dia todo. Nem no café da manhã, nem no almoço. Mas cuidou bem do Luca. Tomou banho com ele, deu jantar, leu uma história antes de dormir. Ele está encantado com ela.

Eu assenti, o peso das palavras de Maria se somando à culpa que eu tentava ignorar. Emma, com sua teimosia, estava se privando para me desafiar, mas a imagem de Luca sorrindo com ela suavizou algo em mim.

— E as roupas? — perguntei, lembrando-me das malas que mandara entregar.

Maria suspirou, um leve franzir na testa.

— Ela escolheu as mais simples: uma blusa, uma calça jeans e um vestido. Só três peças. Disse que era o bastante e pediu que eu devolvesse o resto.

Três peças. A recusa dela em aceitar mais era um tapa na minha cara, uma rejeição ao que eu oferecia.

— Vou falar com ela — declarei, levantando-me da cadeira. — Chame-a para o jantar.

Maria hesitou, mas assentiu e saiu. Minutos depois, ela voltou, o rosto ainda mais tenso.

— Ela se recusa a descer, senhor. Disse que não está com fome.

Puxei o ar com força, a raiva subindo pelo peito. Ninguém morreria de fome sob meu teto, não enquanto eu tivesse controle. Sem dizer uma palavra, caminhei até o quarto de Emma, a determinação queimando em cada passo.

                                        

                                                               ***

A sala de jantar estava iluminada por candelabros de cristal, o brilho suave refletindo nas taças de vinho e nos pratos de porcelana fina. O aroma de carne assada e ervas frescas preenchia o ar, mas o silêncio entre nós era palpável, carregado de uma tensão que parecia vibrar como uma corda esticada. Emma sentou-se à minha frente, os movimentos rígidos, vestindo um roupão, cabelos molhados, não era de longe um vestimento digno, e o fato dela estar nua debaixo do roupão deixa meu sangue fervendo. Seus olhos castanhos, menos inchados agora, me encaravam com uma mistura de desafio e fadiga, e eu sentia o peso daquela manhã ecoando em cada olhar trocado.

Servi-me de um gole de vinho tinto, observando-a enquanto ela cutucava o prato com o garfo, sem levar nada à boca. A recusa dela em comer, relatada por Maria, me irritava, mas ver aqueles olhos, marcados pelo cansaço e pela luta, trouxe uma pontada de culpa que eu não queria nomear. Eu a trouxera para cá para protegê-la, mas estava claro que havia arrancado muito mais do que uma dívida.

— Mandei ficar todas as roupas que enviaram. — disse, quebrando o silêncio, minha voz ecoando na sala vasta. — Três peças não vão durar por muito tempo. Você precisa de mais.

Ela ergueu o olhar, os lábios apertados em uma linha fina.

— Quando o uniforme chega? — perguntou, o tom seco, como se estivesse negociando em um tribunal.

Franzi a testa, surpreso com a pergunta.

— Uniforme? Você quer um uniforme?

— Se sou empregada — retruquei ela, o queixo erguido —, ao menos quero os direitos de uma empregada.

Um sorriso involuntário curvou meus lábios, uma mistura de diversão e irritação. Aquela garota tinha fogo, desafiando-me mesmo em sua posição precária. A cicatriz em meu rosto pareceu formigar, um lembrete de batalhas passadas, mas ali, à mesa, ela era uma adversária diferente.

— Vou providenciar — respondi, o sorriso ainda presente, mas os olhos fixos nos dela. — Mas as roupas ficam com você.

Ela balançou a cabeça, o garfo parando no prato.

— Não quero que a dívida aumente por causa disso.

O vinho azedou em minha boca por um instante. Ela ainda pensava em dívida, como se eu a visse como uma transação. Apoiei os cotovelos na mesa, inclinando-me ligeiramente para a frente.

— Nada sobre você será cobrado — declarei, a voz firme. — Você fica aqui até pagar a dívida do seu pai. É simples assim.

— Quanto tempo? — insistiu ela, os olhos flamejando.

— Até que eu a libere — respondi, o tom endurecendo. — Pare de fazer perguntas.

O silêncio caiu novamente, mais pesado, e eu vi a frustração em seu rosto. Mas ela não desistiu.

— Posso entrar em contato com a faculdade? — perguntou, a voz baixando, quase suplicante. — Eu começaria medicina hoje.

As palavras me acertaram como um golpe inesperado. Medicina. Um sonho que eu havia destruído sem pensar, arrancando-a de sua vida como se fosse uma peça em meu tabuleiro. Por um momento, visualizei o que tirara dela: aulas, amigos, um futuro além das sombras da máfia. Meu peito apertou, e respirei fundo, forçando a compostura.

— Vou cuidar disso — disse, finalmente, a voz mais baixa do que pretendia. — Mas, até que eu confie em você, não vai ter contato com ninguém de fora desta mansão.

Ela me encarou, os olhos cheios de uma raiva contida, e o ar entre nós pareceu crepitar. A tensão era elétrica, uma dança perigosa de poder e resistência que me atraía de forma inquietante. Levantei-me, sinalizando o fim do jantar, mas, enquanto saía da sala, sabia que aquela mulher estava mudando as regras do meu jogo. E, pela primeira vez em anos, eu não tinha certeza de quem venceria.

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