Dezembro chegou sem pedir licença. O escritório ganhou luzes discretas, um aroma constante de café misturado a especiarias e uma pressa diferente, quase afetiva. Não era só o fechamento do ano. Era o peso das memórias, das ausências, das promessas que pareciam mais urgentes quando o calendário começava a faltar páginas.
Ágata sentia isso no corpo. No cuidado maior ao escolher a roupa. No jeito como arrumava a mesa antes de ir embora. Havia algo no fim de ano que a deixava mais sensível, como se as defesas baixassem junto com as luzes da cidade. Henrique também estava diferente. Menos contido. Não em gestos, mas em presença. O olhar demorava mais. O silêncio, quando existia, era compartilhado.
Naquela semana, trabalharam próximos. Riram de detalhes bobos. Comentaram sobre o Natal, sobre filhos, sobre tradições que já não seguiam, mas que ainda moravam na memória. Não houve promessas. Só uma intimidade crescente, tranquila.
Foi numa quarta-feira, quase sem planejamento, que Henrique fez