Mundo ficciónIniciar sesiónAntonella precisava de um recomeço. Determinada a reconstruir sua vida do zero, ela foca toda a sua energia em seu novo emprego no setor administrativo de uma grande empresa. O que ela não esperava era encontrar Frederico, um colega de trabalho de sorriso acolhedor e gentileza contagiante, que parece ser a resposta para os seus dias cinzentos. Aos poucos, uma conexão profunda nasce entre os dois. Um romance limpo, focado no cuidado, no respeito e na admiração mútua. Antonella finalmente sente que encontrou o seu porto seguro, especialmente quando ele afirma que prefere ir devagar e construir um namoro firme antes de avançarem para qualquer intimidade física. Mas as aparências enganam. Por trás do homem perfeito e das desculpas de morar em uma cidade vizinha, esconde-se um segredo devastador. Enredada em uma teia de pequenas omissões, Antonella começará a notar pistas silenciosas até que a verdade venha à tona da forma mais chocante possível. Entre a dor da traição e o peso de se reerguer, ela precisará encontrar forças para romper os laços dessa ilusão e iniciar a jornada mais difícil de sua vida: a de sua própria libertação.
Leer másDizem que os recomeços têm cheiro de chuva fresca.
O meu tinha cheiro de café forte, papel recém-impresso e medo.
Apertei a alça da bolsa com força enquanto atravessava as portas giratórias do edifício onde funcionava a multinacional. Do lado de fora, Londres seguia no ritmo frenético de sempre: pessoas apressadas, ônibus vermelhos cruzando as ruas e o céu acinzentado que parecia nunca abandonar aquela cidade.
Respirei fundo.
Eu precisava daquele emprego.
Não apenas pelo salário.
Precisava provar a mim mesma que ainda era capaz de reconstruir a minha vida.
Portugal havia ficado para trás junto com lembranças que eu preferia não revisitar. Depois da última discussão com meus pais, percebi que permanecer ali significava continuar presa a uma história que já não fazia sentido. Pela primeira vez, escolhi a mim mesma. Arrumei as malas, atravessei o continente e desembarquei na Inglaterra decidida a começar de novo.
Não seria fácil.
Mas precisava dar certo.
Aproximei-me da recepção.
— Bom dia. Sou a nova contratada do setor administrativo.
A recepcionista abriu um sorriso educado e confirmou meu nome no computador.
— Seja bem-vinda, senhorita Antonella. O seu setor fica no quinto andar. A supervisora já está esperando por você.
— Obrigada.
O elevador pareceu subir rápido demais.
Enquanto observava os números mudarem no painel, senti o coração acelerar. Fazia meses que eu repetia para mim mesma que aquele seria o início da minha nova vida. Agora que finalmente havia chegado, tudo parecia assustadoramente real.
As portas se abriram.
O som dos teclados, telefones e conversas tomou conta do ambiente. Pessoas caminhavam de um lado para o outro carregando pastas, cafés e computadores. Apesar da correria, tudo parecia funcionar em perfeita harmonia.
Era um mundo completamente diferente do que eu conhecia.
— Antonella?
Voltei-me para uma mulher elegante de cabelos castanhos presos em um coque impecável.
— Sim.
— Sou Margaret. Vou mostrar o setor.
Enquanto caminhávamos pelos corredores, ela me apresentou rapidamente aos departamentos e explicou as principais rotinas da empresa. Em poucos minutos, chegamos à minha estação de trabalho.
— Aqui será a sua mesa.
Passei os dedos discretamente sobre o tampo branco.
Era apenas uma mesa.
Mas, para mim, representava uma nova oportunidade.
Margaret deixou algumas pastas ao meu lado.
— Não precisa ficar nervosa. No começo parece muita informação, mas você pega o ritmo rapidamente.
Sorri.
— Espero que sim.
Assim que ela se afastou, liguei o computador e comecei a organizar os documentos.
As primeiras horas passaram depressa.
Conferi planilhas, organizei relatórios e revisei documentos fiscais. Quanto mais me concentrava no trabalho, mais a ansiedade dava lugar à tranquilidade.
Talvez eu realmente conseguisse.
Talvez aquele recomeço fosse possível.
Eu estava tão concentrada que só percebi a presença de alguém quando uma sombra parou ao lado da minha mesa.
— Então você é a nova contratação?
Levantei os olhos.
O homem à minha frente segurava uma caneca de café e alguns relatórios. Caminhava pelo escritório com uma naturalidade que chamava atenção. Antes mesmo de chegar até mim, duas pessoas o cumprimentaram pelo caminho. Ele respondeu às duas com a mesma cordialidade, como se tivesse tempo para todo mundo.
Havia algo nele difícil de explicar, não era apenas a boa aparênciara era a segurança silenciosa de quem parecia pertencer completamente àquele lugar.
Sorriu.
Foi um sorriso simples, mas bastou para tornar o ambiente menos impessoal.
— Estava curioso para conhecer quem teve coragem de entrar no nosso setor — disse, bem-humorado.
Ri discretamente.
— Espero não decepcionar.
— Acho difícil.
Houve um pequeno silêncio entre nós.
Curiosamente, não foi constrangedor.
— Sou Antonella.
— Frederico.
Ele estendeu a mão.
Quando nossas mãos se encontraram, o aperto foi firme e respeitoso.
Nem forte demais, nem apressado. Um cumprimento comum.
Ainda assim, por algum motivo, senti que aquele gesto carregava uma gentileza rara.
Ele soltou minha mão e apontou discretamente para algumas mesas adiante.
— Trabalho logo ali. Se tiver qualquer dúvida sobre o sistema ou precisar de ajuda, pode me procurar.
— Obrigada. Acho que vou precisar.
— Todo mundo precisa no primeiro dia.
Sorri novamente.
Ele fez um breve aceno com a cabeça e voltou para sua mesa.
Continuei olhando para a tela do computador por alguns segundos, embora já não conseguisse lembrar qual relatório estava analisando.
Sem perceber, meus olhos procuraram discretamente por ele outra vez.
Frederico conversava com um colega enquanto folheava alguns documentos, completamente alheio ao fato de que eu ainda o observava.
Balancei a cabeça, repreendendo a mim mesma.
Era só o meu primeiro dia.
Nada além disso.
Voltei ao trabalho convencida de que aquele encontro não tinha significado algum.
Naquele momento, eu acreditava que havia encontrado apenas um colega gentil.
Eu ainda não fazia ideia de que Frederico seria o homem que quebraria, uma a uma, todas as certezas que eu carregava sobre confiança.
Bia permaneceu em silêncio por longos segundos, apenas me estreitando em seus braços enquanto o meu pranto sacudia o sofá da sala. Ela me apertava contra o peito, deixando que aquela torrente de decepção e humilhação saísse de dentro de mim. Ouvir a minha voz embargada confessando a cena da sala antiga pareceu paralisá-la. Quando os meus soluços finalmente começaram a diminuir, ela se afastou o suficiente para olhar bem no fundo dos meus olhos. Sua expressão mudou da surpresa para uma profunda preocupação.— Eu sinto tanto, minha amiga... tanto — ela sussurrou, limpando com os polegares as lágrimas que insistiam em correr pelas minhas bochechas. — Mas, por mais que rasgue o seu peito, você precisava ver. Ele mentiu na sua cara.Encostei a cabeça no estofado, sentindo o peito arder.— O pior de tudo, Bia... o pior é que eu o amo — confessei em um sussurro doloroso, sentindo a vergonha daquela admissão queimar a minha garganta. — Eu o amo demais. É uma coisa ridícula, que eu não consigo
A segunda-feira avançava sob um manto de silêncio e uma tensão que parecia cortar o ar da controladoria como uma lâmina afiada. Frederico se trancara em sua sala de vidro, mantendo uma distância punitiva e profissional ao extremo. Ele não olhava na minha direção, mas eu sabia que cada movimento meu estava sendo monitorado. Sempre que precisava me passar alguma demanda, enviava por e-mail ou pedia para a Letícia intermediar, despejando ordens ríspidas que demonstravam o quanto ele estava furioso por eu ter chegado com o Gustavo. Gustavo, por sua vez, passava pela minha mesa de hora em hora, deixando uma caneca de água ou simplesmente me olhando com um aceno firme, um lembrete silencioso de que ele estava ali para me proteger caso o chefe tentasse algo.Eu tentava me concentrar nas conciliações bancárias, mas a minha cabeça latejava e a minha garganta parecia um deserto de tão seca. O estresse emocional daquela teia de mentiras estava me sufocando aos poucos. Por volta das duas horas da
Eu ainda sentia o corpo trêmulo, o efeito residual do apagão que havia me jogado no chão da controladoria horas antes. O médico havia sido categórico: eu precisava de repouso absoluto devido a um pico de exaustão emocional. Mas como descansar quando o seu mundo está desabando em um território estrangeiro?Gustavo esteve ao meu lado o tempo todo. Ele havia preenchido as fichas, conversado com os enfermeiros e me olhado com uma ternura tão genuína que, por alguns instantes, o meu peito encontrou um porto seguro. No entanto, o silêncio do hospital foi abruptamente quebrado quando o celular dele vibrou. Pelo reflexo do vidro da porta, vi Gustavo tensionar os ombros ao ler o nome na tela. Era Frederico. Ele soube do meu colapso e exigia satisfações. Gustavo se afastou, caminhando em direção ao corredor de serviço e isolamento nos fundos daquela ala, tentando manter a voz baixa.O que Gustavo não esperava era que Frederico não se limitaria a uma ligação. Tomado por uma urgência cega e um ci
A luz pálida do amanhecer de sábado entrou de mansinho pelas frestas da cortina, trazendo-me de volta à realidade. Pisquei os olhos devagar, sentindo um calor aconchegante me envolver. Demorei alguns segundos para lembrar que não estava na minha cama. Eu ainda estava no sofá da sala, e o ritmo calmo e compassado de uma respiração contra o meu topo da cabeça me fez recordar a noite anterior.Gustavo ainda estava ali. Ele havia permanecido na mesma posição para não me acordar, com o braço firmemente ao meu redor, servindo de travesseiro e escudo contra o mundo. Bia e Rodrigo já não estavam na sala; a coberta perfeitamente dobrada no outro sofá indicava que discretamente tinham ido embora ou se recolhido.Mexi-me de leve, e o movimento fez Gustavo abrir os olhos castanhos. Um sorriso sonolento e incrivelmente doce moldou seus lábios ao me ver acordar.— Bom dia — ele sussurrou, a voz grave e macia pelo sono. — Dormiu bem?— Bom dia... — respondi, ajeitando-me e sentindo minhas bochechas
Último capítulo