Capítulo 05

Eu mal consegui pregar os olhos naquela noite. Sempre que eu fechava as pálpebras, o calor do toque de Frederico na minha mão e a pressão suave dos lábios dele na minha bochecha pareciam se repetir em câmera lenta na minha mente. Minha pele ainda parecia queimar naquele ponto exato. Aquela sensação avassaladora de borboletas no estômago, que eu julgava ter esquecido como era sentir, insistia em me lembrar de que eu estava viva — e perigosamente vulnerável.

Quando a manhã de sexta-feira finalmente chegou, caminhei até o prédio da empresa com o coração ligeiramente acelerado. Cruzei as portas giratórias do saguão tentando vestir minha melhor armadura de profissionalismo. Eu precisava focar no trabalho. Afinal, estávamos no meio de uma auditoria e qualquer distração poderia ser fatal para a minha carreira ali.

Assim que o elevador abriu no nosso andar, o burburinho habitual de telefones e teclados me envolveu. Respirei fundo e caminhei até a minha baia. No entanto, antes mesmo de ligar o computador, senti um par de olhos cravados em mim.

Olhei de relance para o lado. Letícia já estava em sua mesa. Ela usava um terninho cinza impecável, os cabelos presos em um coque tenso e a postura rigidamente ereta. Quando nossos olhares se cruzaram, ela não se deu ao trabalho de disfarçar. Seus olhos castanhos estavam gelados, estreitados em uma linha de pura desconfiança. O descontentamento da noite anterior claramente não havia passado; pelo contrário, parecia ter amadurecido.

— Bom dia, Letícia — cumprimentei de forma polida, tentando quebrar o gelo.

Ela apenas deu um aceno de cabeça milimétrico, os lábios colados em uma linha fina, antes de voltar a folhear uma pasta de relatórios com uma força desnecessária. A mensagem estava dada: ela estava de olho em mim.

Tentei ignorar o clima pesado e comecei a digitar. Mas a verdadeira prova de fogo veio cerca de uma hora depois, quando a silhueta alta e imponente de Frederico surgiu no corredor.

Ele vestia uma camisa social azul-clara com as mangas dobradas até os antebraços, caminhando com aquela confiança natural que descrevi no meu gravador. Meu peito deu um solavanco involuntário. Ele vinha em direção às nossas mesas, segurando um tablet e algumas anotações da auditoria.

— Bom dia, equipe — a voz profunda dele ecoou, pausada e calma, preenchendo o espaço de um jeito que sempre me desconcertava.

— Bom dia, Frederico — Letícia adiantou-se imediatamente, levantando-se com um sorriso que parecia ensaiado e caminhando até ele. — Já separei os balancetes que o diretor pediu antes de viajar. Estão todos na sua mesa. Se precisar que eu revise os dados com você... com calma... estou totalmente disponível.

Ela enfatizou as palavras de um jeito cortante, lançando um olhar de soslaio na minha direção para garantir que eu estivesse ouvindo.

Frederico ofereceu a ela um sorriso profissional, mas educado.

— Obrigado, Letícia. Vai ajudar muito. Vou dar uma olhada nisso agora mesmo.

Em seguida, os olhos dele finalmente se moveram e encontraram os meus. Por um segundo que pareceu durar uma eternidade, o escritório ao redor pareceu sumir. Não houve palavras, mas a intensidade no olhar dele — o mesmo olhar escuro da noite anterior — fez meu estômago revirar novamente em um misto de nervosismo e expectativa. Ele deu um leve aceno de cabeça específico para mim, um cumprimento quase imperceptível para os outros, mas cheio de significado para nós dois.

— Bom dia, Antonella. Tudo bem por aqui? — ele perguntou, mantendo o tom de voz profissional, mas com uma suavidade que Letícia certamente notou.

— Tudo bem, Frederico. Os relatórios de ontem já estão arquivados no sistema — respondi, lutando para manter a voz firme e mansa, sem deixar transparecer o caos que estava o meu peito.

— Excelente trabalho — ele elogiou, demorando o olhar no meu rosto por mais um instante antes de se virar e caminhar em direção à sua sala.

Assim que a porta dele se fechou, o silêncio na nossa área ficou sufocante. Voltei meus olhos para a tela, mas pelo reflexo do vidro do monitor, eu conseguia ver Letícia parada no meio do corredor, de braços cruzados, encarando a minha baia com uma expressão que misturava ciúme e uma promessa silenciosa de que ela não facilitaria as coisas para mim.

O jogo no escritório estava mudando de nível, e eu estava bem no centro do tabuleiro.

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