Capítulo 06

O restante da manhã seguiu sob uma calmaria aparente, mas a tensão na nossa fileira de mesas era quase palpável. Eu tentava manter meus olhos fixos nas planilhas, mas minha mente insistia em repassar o olhar que Frederico havia me direcionado mais cedo.

Por volta das onze horas, o som de saltos altos estalando no piso anunciou a aproximação de Letícia. Ela parou bem ao lado da minha baia, segurando uma caneca de café fumegante. Ao invés de falar sobre trabalho, ela adotou um tom de voz casual, alto o suficiente para que apenas eu ouvisse, mas com aquela falsa simpatia que esconde garras afiadas.

— O ritmo hoje está insano, não é, Antonella? — ela começou, apoiando-se de leve na divisória da minha mesa. — Ver o Frederico assumindo a chefia assim me traz tantas lembranças... Sabe, no ano passado, passamos por uma auditoria parecida. Ficávamos até de madrugada trancados na sala dele, resolvendo tudo sozinhos.

Eu ergui os olhos, tentando manter a expressão neutra, mas senti meu estômago dar um nó.

— Ah, é? — foi tudo o que consegui responder.

— Sim — Letícia sorriu, um sorriso nostálgico e ensaiado, enquanto girava a aliança falsa ou o anel no dedo. — O Frederico tem hábitos muito específicos quando está sob pressão. Ele adora que tragam café sem açúcar depois das duas da tarde e fica extremamente... bom, digamos que a proximidade de tantas noites em claro trabalhando juntos acaba criando uma intimidade que não some fácil. Há coisas que ficam guardadas entre quatro paredes, entende? O Frederico sabe ser muito grato a quem esteve com ele antes de toda essa calmaria atual.

Ela deu um gole no café, sustentando meu olhar por um segundo a mais antes de piscar e dar as costas, caminhando elegantemente em direção à copa.

Aquelas palavras entraram em mim como pequenas farpas. Embora Letícia não tivesse dito com todas as letras, a insinuação de que eles já haviam tido um envolvimento íntimo no passado ficou flutuando no ar. Uma onda de ciúmes, quente e desconfortável, subiu pelo meu peito. Sentir aquilo me assustou. Quem era eu para ter ciúmes dele? Nós tínhamos apenas dividido um almoço e um beijo roubado na bochecha. Mas a simples imagem de Frederico compartilhando olhares, segredos ou qualquer outra coisa com Letícia no passado fez minhas mãos tremerem sobre o teclado. Um aperto incômodo tomou conta de mim, misturando a doçura da noite anterior com um gosto amargo de dúvida.

Do outro lado do andar, atrás da porta de vidro fosco da chefia, Frederico observava a movimentação. Ele havia notado a aproximação de Letícia e a postura defensiva que Antonella adotara logo em seguida.

Aproveitando o horário de almoço, enquanto o escritório esvaziava, ele pegou o celular e discou o número do seu amigo de confiança.

— Cara, você precisava ver o que acabou de acontecer aqui no andar — Frederico disse em voz baixa, encostando-se na cadeira com um sorriso convencido no rosto.

— O que você aprontou agora, Frederico? — a voz do amigo soou preocupada do outro lado da linha.

— Eu não fiz nada, mas a Letícia acabou de ir até a mesa da Antonella e claramente tentou marcar território. Usou aquele papo de intimidade antiga, de quando trabalhávamos até tarde. Dava para ver de longe o desconforto e o ciúme nos olhos da Antonella. Para ser sincero... eu achei bem interessante essa reação. Essa disputa, sabe? Mostra que a Antonella não está tão indiferente quanto tenta fingir.

Do outro lado da linha, o silêncio durou alguns segundos antes de o amigo soltar um suspiro pesado, o tom de brincadeira sumindo completamente.

— Olha, Frederico, eu não estou achando isso nada legal, cara. De verdade. Você está alimentando uma situação perigosa no seu ambiente de trabalho.

— É só um jogo bobo, qual o problema? Gosto de me sentir desejado — Frederico minimizou.

— O problema é que você está brincando com o sentimento de duas pessoas e com a sua própria reputação profissional — o amigo alertou, firme. — A Letícia acha que tem alguma chance ou direito sobre você, e a Antonella está chegando agora, sem saber o que é real ou não. Você não deveria inflar o seu ego com essa disputa. Se você tem decência e quer algo sério com a Antonella, você precisa cortar essas gracinhas da Letícia de uma vez por todas ou colocar as cartas na mesa com ela. Não deixa essa fofoca crescer, ou você vai acabar perdendo o controle e machucando quem não merece.

Frederico desfez o sorriso aos poucos, as palavras sensatas do amigo pesando em seus ombros. Ele olhou através do vidro, vendo a baia vazia de Antonella, que havia saído para almoçar, e percebeu que o jogo que ele considerava divertido estava prestes a se tornar complicado demais.

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