Mundo de ficçãoIniciar sessãoOs dias começaram a encontrar um ritmo confortável dentro da empresa. As planilhas já não pareciam tão intimidadoras, os relatórios deixaram de ser um quebra-cabeça e, pouco a pouco, eu me sentia parte daquela rotina. Ainda estava me adaptando a uma nova cidade, um novo país e uma nova vida, mas, pela primeira vez em muito tempo, eu tinha a sensação de estar exatamente onde deveria.
Havia, porém, uma parte dos meus dias que eu aguardava sem admitir nem para mim mesma.
Frederico.
Ele parecia destoar completamente da seriedade daquele ambiente corporativo. Enquanto a maioria caminhava pelos corredores preocupada com prazos e reuniões, Frederico fazia questão de cumprimentar cada pessoa que encontrava pelo caminho. Nunca o vi tratar alguém com impaciência. Do estagiário ao diretor, ele oferecia a mesma cordialidade, o mesmo sorriso tranquilo. Era como se carregasse consigo uma leveza capaz de aliviar a tensão do escritório.
E, para minha surpresa, essa leveza parecia sempre encontrar o caminho até mim.
Tudo começou com gestos tão discretos que poderiam facilmente passar despercebidos.
Na terça-feira pela manhã, encontrei uma xícara de café fumegando sobre a minha mesa antes mesmo de ligar o computador. Ao lado dela, havia um pequeno bilhete escrito à mão.
"Para ajudar a enfrentar as planilhas de hoje. Bom trabalho, Antonella."
Sorri sem conseguir evitar.
Levantei os olhos em direção à mesa dele. Frederico falava ao telefone enquanto analisava alguns documentos. Como se sentisse que eu o observava, ergueu o olhar por um breve instante. Nossos olhos se encontraram, e ele apenas fez um discreto movimento com a cabeça antes de voltar à conversa.
Aquele gesto simples aqueceu meu coração de uma maneira inesperada.
Durante anos, eu me acostumei a acreditar que carinho sempre vinha acompanhado de cobranças ou interesses. Meu pai nunca soubera demonstrar afeto sem críticas, e aquilo deixou marcas profundas em mim. Talvez por isso um simples café, entregue sem que ninguém visse e sem esperar nada em troca, tivesse significado tanto.
Os dias passaram, e aqueles pequenos gestos foram dando espaço a conversas despretensiosas.
Almoçávamos juntos algumas vezes, quase sempre por acaso. Descobrimos que gostávamos dos mesmos livros antigos, de músicas calmas e de caminhar sem pressa pelas ruas de Londres quando o expediente terminava mais cedo.
Frederico era um excelente ouvinte.
Enquanto eu falava sobre a minha mudança para a Inglaterra, meus planos e os sonhos que ainda carregava comigo, ele não interrompia nem tentava completar minhas frases. Apenas escutava, como se cada palavra realmente importasse.
E depois, dias mais tarde, mencionava algum detalhe que eu nem imaginava que ele tivesse guardado, aquilo me surpreendia.
Numa tarde de outono, voltávamos do almoço quando ele diminuiu o passo ao meu lado, o vento bagunçou meus cabelos e, por alguns segundos, caminhamos em silêncio.
Foi ele quem o quebrou.
— Você tem uma força rara, Antonella.
Olhei para ele sem saber o que responder.
— O mundo pode endurecer muita gente... mas não conseguiu endurecer você. Continue assim.
A simplicidade com que aquelas palavras foram ditas fez meu coração acelerar, não havia exagero nem segundas intenções aparentes. Parecia apenas um elogio sincero.
Segurei a alça da bolsa com um pouco mais de força para esconder o nervosismo.
Eu vinha orando desde que deixei Portugal, pedindo que Deus me ajudasse a permanecer firme e não entregasse meu coração à pessoa errada. Ainda assim, perto de Frederico, essa promessa começava a vacilar. Havia algo nele que transmitia segurança, como se sua presença tornasse os dias mais leves.
Naquela mesma semana, depois de uma auditoria que consumiu quase todo o expediente, fomos os últimos a deixar o andar.
O escritório já estava praticamente vazio quando caminhamos até o elevador, as portas se fecharam atrás de nós e ela primeira vez desde que o conheci, o silêncio pareceu dizer mais do que qualquer conversa. Não era constrangedor era tranquilo e confortável.
Permanecemos lado a lado enquanto o elevador iniciava a descida. Por um instante, senti seu olhar sobre mim antes mesmo de levantar os olhos.
Quando o encarei, Frederico sorriu discretamente.
Com toda a delicadeza do mundo, levou a mão até meu rosto e afastou uma mecha de cabelo que insistia em cair sobre meus olhos. Seus dedos apenas roçaram minha pele, num gesto tão respeitoso que me deixou completamente sem reação.
Ele hesitou por um segundo, como se esperasse algum sinal de que deveria recuar.
Como eu não me afastei, aproximou-se apenas o suficiente para tocar minha testa com os lábios.
Foi um beijo breve, cheio de cuidado.
Quando voltou a me olhar, seus olhos pareciam carregar uma ternura que eu nunca havia encontrado em ninguém.
— Obrigado por tornar meus dias muito melhores, Antonella.
Meu coração respondeu antes mesmo que minha razão pudesse dizer qualquer coisa.
Sorri sem conseguir esconder a felicidade que aquecia meu peito.
Naquele instante, eu acreditava em cada gesto, em cada palavra e em cada olhar daquele homem. Acreditava que Deus, finalmente, estava me dando uma oportunidade de viver uma história diferente de tudo o que eu havia deixado para trás.
Enquanto as portas do elevador se abriam no térreo e caminhávamos lado a lado em direção à saída da empresa, eu não fazia ideia de que estava entregando meu coração a um homem que escondia uma vida inteira atrás daquele sorriso sereno.







