Mundo de ficçãoIniciar sessão
Dizem que os recomeços têm cheiro de chuva fresca.
O meu tinha cheiro de café forte, papel recém-impresso e medo.
Apertei a alça da bolsa com força enquanto atravessava as portas giratórias do edifício onde funcionava a multinacional. Do lado de fora, Londres seguia no ritmo frenético de sempre: pessoas apressadas, ônibus vermelhos cruzando as ruas e o céu acinzentado que parecia nunca abandonar aquela cidade.
Respirei fundo.
Eu precisava daquele emprego.
Não apenas pelo salário.
Precisava provar a mim mesma que ainda era capaz de reconstruir a minha vida.
Portugal havia ficado para trás junto com lembranças que eu preferia não revisitar. Depois da última discussão com meus pais, percebi que permanecer ali significava continuar presa a uma história que já não fazia sentido. Pela primeira vez, escolhi a mim mesma. Arrumei as malas, atravessei o continente e desembarquei na Inglaterra decidida a começar de novo.
Não seria fácil.
Mas precisava dar certo.
Aproximei-me da recepção.
— Bom dia. Sou a nova contratada do setor administrativo.
A recepcionista abriu um sorriso educado e confirmou meu nome no computador.
— Seja bem-vinda, senhorita Antonella. O seu setor fica no quinto andar. A supervisora já está esperando por você.
— Obrigada.
O elevador pareceu subir rápido demais.
Enquanto observava os números mudarem no painel, senti o coração acelerar. Fazia meses que eu repetia para mim mesma que aquele seria o início da minha nova vida. Agora que finalmente havia chegado, tudo parecia assustadoramente real.
As portas se abriram.
O som dos teclados, telefones e conversas tomou conta do ambiente. Pessoas caminhavam de um lado para o outro carregando pastas, cafés e computadores. Apesar da correria, tudo parecia funcionar em perfeita harmonia.
Era um mundo completamente diferente do que eu conhecia.
— Antonella?
Voltei-me para uma mulher elegante de cabelos castanhos presos em um coque impecável.
— Sim.
— Sou Margaret. Vou mostrar o setor.
Enquanto caminhávamos pelos corredores, ela me apresentou rapidamente aos departamentos e explicou as principais rotinas da empresa. Em poucos minutos, chegamos à minha estação de trabalho.
— Aqui será a sua mesa.
Passei os dedos discretamente sobre o tampo branco.
Era apenas uma mesa.
Mas, para mim, representava uma nova oportunidade.
Margaret deixou algumas pastas ao meu lado.
— Não precisa ficar nervosa. No começo parece muita informação, mas você pega o ritmo rapidamente.
Sorri.
— Espero que sim.
Assim que ela se afastou, liguei o computador e comecei a organizar os documentos.
As primeiras horas passaram depressa.
Conferi planilhas, organizei relatórios e revisei documentos fiscais. Quanto mais me concentrava no trabalho, mais a ansiedade dava lugar à tranquilidade.
Talvez eu realmente conseguisse.
Talvez aquele recomeço fosse possível.
Eu estava tão concentrada que só percebi a presença de alguém quando uma sombra parou ao lado da minha mesa.
— Então você é a nova contratação?
Levantei os olhos.
O homem à minha frente segurava uma caneca de café e alguns relatórios. Caminhava pelo escritório com uma naturalidade que chamava atenção. Antes mesmo de chegar até mim, duas pessoas o cumprimentaram pelo caminho. Ele respondeu às duas com a mesma cordialidade, como se tivesse tempo para todo mundo.
Havia algo nele difícil de explicar, não era apenas a boa aparênciara era a segurança silenciosa de quem parecia pertencer completamente àquele lugar.
Sorriu.
Foi um sorriso simples, mas bastou para tornar o ambiente menos impessoal.
— Estava curioso para conhecer quem teve coragem de entrar no nosso setor — disse, bem-humorado.
Ri discretamente.
— Espero não decepcionar.
— Acho difícil.
Houve um pequeno silêncio entre nós.
Curiosamente, não foi constrangedor.
— Sou Antonella.
— Frederico.
Ele estendeu a mão.
Quando nossas mãos se encontraram, o aperto foi firme e respeitoso.
Nem forte demais, nem apressado. Um cumprimento comum.
Ainda assim, por algum motivo, senti que aquele gesto carregava uma gentileza rara.
Ele soltou minha mão e apontou discretamente para algumas mesas adiante.
— Trabalho logo ali. Se tiver qualquer dúvida sobre o sistema ou precisar de ajuda, pode me procurar.
— Obrigada. Acho que vou precisar.
— Todo mundo precisa no primeiro dia.
Sorri novamente.
Ele fez um breve aceno com a cabeça e voltou para sua mesa.
Continuei olhando para a tela do computador por alguns segundos, embora já não conseguisse lembrar qual relatório estava analisando.
Sem perceber, meus olhos procuraram discretamente por ele outra vez.
Frederico conversava com um colega enquanto folheava alguns documentos, completamente alheio ao fato de que eu ainda o observava.
Balancei a cabeça, repreendendo a mim mesma.
Era só o meu primeiro dia.
Nada além disso.
Voltei ao trabalho convencida de que aquele encontro não tinha significado algum.
Naquele momento, eu acreditava que havia encontrado apenas um colega gentil.
Eu ainda não fazia ideia de que Frederico seria o homem que quebraria, uma a uma, todas as certezas que eu carregava sobre confiança.







