Capítulo 03

O refeitório da empresa estava movimentado, uma sinfonia de talheres e conversas cruzadas. Eu procurava uma mesa vaga com a minha bandeja nas mãos quando uma voz familiar cortou o barulho ao meu redor.

— Antonella! Aqui.

Olhei para o lado e vi Frederico. Ele acenava de uma mesa perto da janela, onde o sol da tarde entrava suavemente. Meu coração deu um leve salto. Caminhei até lá e me sentei timidamente na cadeira à sua frente.

— Espero não estar atrapalhando o seu momento de descanso — brinquei, organizando meus talheres.

— Você nunca atrapalha. Na verdade, olhar para as telas daqueles computadores o dia todo cansa a vista. Olhar para você... bem, é um descanso muito melhor — ele disse, com aquela naturalidade que me deixava sem fala.

Senti minhas bochechas corarem imediatamente. Baixei os olhos para o meu prato, tentando focar na comida, mas eu conseguia sentir o olhar atento dele sobre mim. Não era um olhar invasivo, era um olhar que parecia me admirar por inteira.

— Sabe, Antonella... — Frederico começou, apoiando os braços na mesa e inclinando-se levemente para a frente. — Desde o seu primeiro dia, eu reparei em algo. Você anda muito séria, focada em fazer tudo perfeito. Mas quando você relaxa e sorri... o mundo parece ficar um pouco mais leve.

Ergui os olhos, surpresa.

— Meu sorriso? — perguntei, tocando os lábios de leve.

— Sim. Você tem um sorriso lindo. É genuíno, transmite uma paz que poucas pessoas têm hoje em dia. Promete que vai sorrir mais vezes? Pelo menos quando estiver conversando comigo.

Aquilo foi como um bálsamo. Depois de passar por tantas tempestades antes de chegar ali, ouvir que o meu sorriso transmitia paz foi como um abraço na minha alma. Sorri novamente, dessa vez de orelha a orelha, incapaz de conter a felicidade boba que crescia no meu peito.

— Prometo — respondi, com a voz mansa.

E, naquele almoço, entre garfadas e conversas sobre amenidades, eu senti que estava, finalmente, voltando a viver.

No final daquela mesma tarde, o impacto daquele almoço ainda ecoava na mente de Frederico. Logo após o expediente, ele se encontrou com um grande amigo em um café próximo ao escritório. O som ambiente do lugar estava abafado, mas a mente de Frederico parecia orbitar em outro lugar. Ele girou o gelo no copo, um sorriso de canto entregando seus pensamentos antes mesmo que as palavras saíssem.

— Eu estou te dizendo, cara... é difícil manter o foco naquela sala — Frederico confessou, inclinando-se na mesa em direção ao amigo. — A nova colega de trabalho, Antonella. Ela tem uma elegância que não dá para explicar, daquelas que mudam o clima do ambiente sem precisar fazer nenhum esforço.

O amigo soltou uma risada abafada, instigado pelo brilho incomum nos olhos de Frederico.

— E como ela é?

— Ela é linda, de um jeito clássico — Frederico continuou, o olhar perdido no horizonte enquanto a descrevia. — Tem uns olhos expressivos, atentos, que parecem notar cada detalhe ao redor. Quando ela está concentrada, j**a o cabelo para o lado... é um movimento simples, mas hipnotizante. O sorriso dela no escritório é profissional, contido, mas hoje no almoço eu vi que há uma vivacidade gigante ali por trás. Ela tem uma postura impecável, uma energia que te puxa. É bonita, sim, mas o que pega mesmo é esse magnetismo que ela carrega.

...

Mais tarde, o silêncio do meu quarto à noite era quebrado apenas pelo estalar suave da chuva no vidro da janela. Sentada na cama, iluminada pela luz morna do abajur, segurei meu gravador digital. Eu hesitava por alguns segundos, respirando fundo antes de apertar o botão de gravar, deixando minha voz sair baixa, quase em um sussurro confessional.

— Nota pessoal... Dia dezoito. — Pausei, buscando as palavras certas, tentando manter a racionalidade que sempre me protegia. — É tolice negar que a presença do Frederico tem me afetado no trabalho. Ele... ele domina o espaço onde entra. Tem uma confiança que transparece em cada gesto e que é quase impossível de ignorar.

Mudei de posição na cama, abraçando os joelhos enquanto puxava pela memória os detalhes do dia.

— Fisicamente, ele tem um porte firme, ombros largos e uma postura de quem sabe exatamente o que quer. Mas o que chama a atenção é o contraste: o maxilar é bem definido, as linhas do rosto são marcantes e sérias, mas o trato dele no dia a dia é de uma suavidade extrema. E a voz... ele tem um tom profundo que ressoa na sala de reuniões e parece preencher tudo. Há uma intensidade nele que vai além dos traços simétricos. É o charme, a energia. Uma presença definitivamente perigosa para a minha concentração.

Soltei o botão do gravador, encarando o aparelho em minha mão. Meu coração batia um pouco mais rápido do que deveria, mas, pela primeira vez em muito tempo, aquela agitação não vinha do medo, e sim de uma doce expectativa.

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