Mundo ficciónIniciar sesiónApós a morte da mãe, Chantelle foi criada com amor pela avó. Rejeitada pelo pai e constantemente ofuscada pela meia-irmã arrogante, ela aprendeu desde cedo a sobreviver em silêncio. Quando a avó é diagnosticada com uma doença grave e precisa de um tratamento extremamente caro, Chantelle se vê sem saída. Então surge a proposta. Um milhão de euros por cem noites. Sem nome. Sem perguntas. Sem identidade. O homem sempre usa uma máscara. Fala pouco. Mantém o controle absoluto. Deixa apenas transferências bancárias anônimas… e um perfume marcante que ela jamais consegue esquecer. Mas tudo muda na noite em que é obrigada a comparecer a um jantar em família. O noivo da sua meia-irmã é apresentado. Frio. Poderoso. Intocável. O CEO da empresa onde ela trabalha. Os olhares se cruzam. E então ela sente. O mesmo perfume. Ela já passou doze noites nos braços de um desconhecido mascarado. E ainda restam oitenta e oito. Um romance intenso de desejo, poder e segredos, onde um contrato perigoso pode se transformar em algo ainda mais arriscado: amor.
Leer másA suíte presidencial estava imersa numa luz tamisada, difusa, como se cada recanto tivesse sido meticulosamente pensado para que nada fosse visto com clareza. Tanto era feltro. Silêncio. Um luxo discreto, porém sufocante. As cortinas, cerradas, isolavam por completo o mundo exterior, e naquela bolha suspensa sobre a cidade, Chantelle jazia deitada, os pulsos cruzados sobre o ventre, os olhos vendados por uma faixa de seda negra.
Já nem sequer sabia há quanto tempo aguardava. Talvez cinco minutos. Talvez trinta.
Era a décima segunda vez.
Ainda lhe restavam oitenta e oito noites até que tudo findasse. Até que pudesse ser livre.
A porta abriu-se sem o mais leve ruído. Ela não o viu entrar, mas pressentiu de imediato a sua presença. Aquele perfume amadeirado e seco, austero porém inebriante. O seu odor. Aquele que reconheceria entre milhares, porque se lhe impregnava na garganta, nos rins, no âmago das suas pulsações. Ele. Nada dizia. Nunca dizia nada.
Chantelle sentiu o colchão ceder sob o seu peso, a tensão no ar transmutar-se, como se cada molécula do aposento se vergasse sob a autoridade silenciosa daquele homem que jamais divisava. O seu calor aproximou-se, lento, controlado. Reconheceu-o de imediato, aquele calor que tanto receava como anelava.
Jamais lhe perguntava se estava pronta. Escusava-se. O contrato era explícito. Ela conhecia-lhe cada cláusula.
Os seus dedos deslizaram-lhe sobre a anca, pausadamente, com uma precisão desconcertante, e por onde tocavam deixavam um rasto de arrepios que se propagavam sob a epiderme, como ondas nervosas incontroláveis. Percorreu-lhe o contorno da bacia com uma lentidão estudada, explorando-lhe cada curva. Nada via, porém tudo sentia. O roçar subtil do tecido das calças contra a sua coxa nua. Aspereza dos seus dedos, levemente rugosos, em contraste com a maciez das suas próprias formas.
A pressão da palma intensificou-se, desceu em direção ao baixo-ventre e imobilizou-se exatamente antes do íntimo, como se quisesse mantê-la num estado de expectativa febril. Expectativa essa que se convertia em quase dor.
Não lhe era permitido tocar-lhe. Essa era a regra. Mas os seus dedos contraíam-se-lhe independentes da vontade, cravando-se nos lençóis. Desejava retribuir-lhe cada gesto. Roubar-lhe o fôlego. Fixá-lo dentro de si. Porém não o podia fazer. A sua própria mão apertava-se contra a coxa, a garganta, o vazio insuportável entre as pernas. Onde ele ainda não estava. Onde ela já o queria.
Inclinou-se mais, o torso roçando-lhe os seios, a boca descendo lenta, insidiosamente. Ao roçar-lhe a face interna da coxa, ela abafou um gemido, rouco, demasiado cru para ser fingido. As ancas responderam-lhe num sobressalto incontrolável.
Ele deteve-se. Como se precisasse que ela entendesse que era ele quem ditava o ritmo. Que ela não passava de um território a conquistar. Não buscava dar-lhe prazer. Explorava-a. Dissecava-a. Imperava sobre ela.
E naquela noite... naquela noite não foi suave, nem foi brutal. Foi preciso. Com uma lentidão quase cruel. Uma paciência animalesca. Como se intentasse dissecá-la com as mãos nuas.
Os seus dedos deslizaram entre as suas coxas entreabertas.
A sua bacia elevou-se-lhe malgrado ela mesma. Procurando. Chamando. Reclamando o que ainda tardava.
Deixou a boca subir lentamente, num perder-se, até aos seus lábios. Porém não os roçou. Ficou ali, próximo, ofegante, mudo.
E depois entrou nela. Não de um golpe. Não com um brado. Mas com uma lentidão feroz.
— Ah... ah... oh meu Deus... sim...
Arqueou-se, ofegante, os lábios entreabertos num gemido silencioso, os dedos tão fortemente crispados que sulcavam os lençóis. Impotente para conter o fogo que ascendia. Aquela ascensão espessa, ardente, incontrolável. Que lhe estrangulava a garganta. Que a esvaziava de tudo. Exceto dele. Ele mal se movia. Apenas o suficiente para que ela sentisse. Apenas o suficiente para que ela quisesse mais.
Quis suplicar-lhe, mas a palavra ficou-lhe entalada na garganta. Para palavras não havia lugar ali. Apenas sopros, arrepios, ondas.
A cada movimento, sentia os pensamentos desmoronarem-se-lhe, um a um. Um vaivém calculado no limite do suportável.
— Mmmh... ah... ainda... não pares...
Perdeu o chão. Já não era mais do que corpo. Carne oferecida. Respiração entrecortada. Orgasmo contido.
E naquela escuridão que trazia sobre os olhos, naquela obscuridade úmida, esqueceu tudo. O seu nome. A sua história. O contrato. Os números.
Restava apenas ele. Ele, o desconhecido. Ele, que jamais veria. Ele, cujo rosto nunca conheceria. Nem sequer a voz. Porém que, a cada vez, nela gravava um sulco mais profundo. Mais indelével.
Quando findou, ela ficou ali. Ofegante. Nua. Trêmula. Esvaziada. Desfeita. O ventre ainda espasmado por contrações residuais. O sexo a palpitar com a sua ausência. As pernas abertas.
Permaneceu deitada, a venda ainda sobre os olhos. Escutou o ruído da água a correr na casa de banho.
Na casa de banho, o homem concluíra a higiene e recompusera o seu vestuário impecável.
Vestido, encaminhou-se para a porta. O coração dela acelerou-se. Pela primeira vez, atreveu-se a quebrar o silêncio.
Clareou a garganta e, com voz levemente hesitante, rompeu finalmente o mutismo que por tanto tempo os envolvera.
— Senhor, posso receber mais oito mil euros este mês?
Era a primeira vez que se atrevia a dirigir-lhe a palavra. Até então, a relação limitara-se a trocas mudas, um jogo cruel onde o olhar jamais se cruzara.
Resposta nenhuma. Nem uma palavra.
O homem encaminhou-se para a porta, a sua silhueta rígida na sombra matinal. Fechou-a atrás de si com um baque surdo, um estampido seco que fez Chantelle sobressaltar-se. O quarto remergulhou de imediato no seu silêncio opressivo.
Assim que ouviu a porta bater atrás dele, Chantelle exalou um suspiro de alívio e arrancou rapidamente a venda. Uma deceção amarga apertou-lhe a garganta. Ele não lhe respondera.
Ela precisava desesperadamente daquele dinheiro.
Na véspera, o médico ligara-lhe. A voz grave, carregada de preocupação, anunciara-lhe que o estado da avó se agravara. O cancro renal de que padecia, apesar de todos os tratamentos já pagos que haviam custado mais de um milhão de euros, manifestava novos sintomas inquietantes.
Por isso, naquele dia, ousara pedir, simplesmente tentar.
Porém o mutismo do homem gelara-lhe o coração.
Ergueu-se lentamente e dirigiu-se à casa de banho. Sem verdadeiramente pensar, encheu a banheira de água escaldante, na esperança de que o calor fizesse calar por um instante o peso que lhe oprimia o peito.
Não era feliz com o que fazia. Em criança, jamais se imaginara a vender o corpo, nem a trocar a sua dignidade por dinheiro. Mas a vida, cruel e implacável, ensinara-lhe que os sonhos por vezes se esvaem sob o peso das realidades.
Desde os cinco anos, desde que a mãe sucumbira a uma doença fulminante, tudo se desmoronara. O pai, rapidamente recasado, relegara-a para um papel de sombra, uma estranha entre os seus.
A avó, não obstante os seus parcos recursos, assumira as rédeas, criando-a e educando-a com um amor rude porém sincero.
Chantelle crescera entre aqueles dois mundos, pouco conhecera do calor do lar paterno, preferindo evitar os olhares gélidos do pai e da madrasta.
Depois, um ano antes, a doença voltara a bater-lhe à porta: o cancro renal da avó.
Os médicos falaram num milhão de euros, quantia impossível de alcançar sozinha.
Fora suplicar ao pai, esperando um gesto, um auxílio.
Porém ele expulsara-a, sem um olhar.
« Não é minha mãe, porque gastaria eu com ela? » cuspira ele, desdenhoso.
Após a recusa brutal do pai, Chantelle viu-se contra a parede. Não lhe restava opção, nem amparo. Então, destroçada porém determinada, tomou uma decisão que jamais julgara ter de tomar: dirigiu-se a um clube privado, onde se negociavam corpos e silêncios.
Ainda não entrara e já as pernas lhe tremiam. Mas já não tinha o luxo de hesitar. A avó estava a morrer.
E foi ali que encontrou uma oferta... colossal. Inesperada. Chocante.
Um contrato de um milhão de euros, em troca de cem noites com um homem. Cem noites de intimidade, de submissão... com um desconhecido. Jamais saberia o seu nome, o seu rosto, nem a sua verdadeira identidade. Um contrato talhado no mistério, assinado em segredo.
Um único detalhe não deixava dúvidas: aquele homem era imensamente rico. Porque nenhum pobre teria podido, nem querido, pagar quantia semelhante para comprar noites de sombra.
Assinara. Sem fazer perguntas. Sem sequer reler a cláusula. Tinha demasiado receio que retirassem a oferta se hesitasse.
A condição essencial do contrato era estrita: jamais deveria ver o homem. Em cada uma das cem noites, seria conduzida a uma suite presidencial. Usaria uma venda nos olhos, e teria apenas um papel: obedecer. Submeter-se. Estar ali para ele, e não questionar.
O homem era seu senhor. Por cem dias.
Hoje, ia no décimo segundo encontro. E embora tivesse aprendido a dominar o medo, nunca se habituara totalmente.
Porém resistia. Porque a cada pagamento, economizava com avareza. Cada cêntimo. Contava, anotava. Pela sua avó, por aquela que tudo sacrificara por ela.
Chantelle regressou a casa. O seu pequeno apartamento, modesto mas acolhedor, envolveu-a como um casulo reconfortante. As paredes, pintadas em tons suaves, traziam a marca da sua personalidade — pequenas molduras, algumas plantas, livros amontoados numa estante barata. Nada de luxuoso, mas tudo tinha alma. Ao contrário da casa do pai, gelada e imponente, ali sentia-se em casa. Em segurança. Em paz.Tirou os sapatos, suspirou longamente, depois deixou-se cair no sofá. Mal tinha pousado o telemóvel na mesa de centro quando uma notificação apareceu no ecrã. Uma mensagem, sem assinatura. Como sempre.« Esta noite, 23h. »Franziu o sobrolho. Era invulgar. Aquele homem que a comprava na sombra nunca tinha pressa. Contactava-a com intervalos espaçados, como se quisesse manter uma distância fria e metódica. Mas naquela noite, chamava-a de novo, apenas dois dias depois do último encontro.Algo estava errado, mas ela foi mesmo assim.Às 22h50, saiu do apartamento, como uma autómata, os gestos p
Chantelle recuou um passo rápido, quase em pânico. A proximidade de Collen Wilkerson, o seu olhar penetrante, a sua presença imponente… tudo isso a oprimia. Mas sobretudo, um medo visceral a roía: Mégane, a sua meia-irmã histérica, podia surgir a qualquer instante. Não precisava de muito para se sentir traída, ainda menos quando se tratava de um homem que decidira possuir.— Desculpe… – murmurou ela, insegura, o fôlego curto.Virou costas, determinada a afastar-se, mas o pé escorregou numa pedra húmida. O coração deu um salto no peito e, antes que tocasse o chão, uma mão firme e ardente a segurou pela cintura.Uma descarga elétrica atravessou-a. Tinha o nariz quase colado ao seu peito e, sem conseguir evitar, inspirou… aquele perfume. O mesmo. Aquele que a assombrava, à noite. O do misterioso desconhecido com quem passara doze noites.O mundo pareceu desabar.O seu olhar subiu lentamente até aos olhos de Collen, que a observava sem a menor emoção aparente.— Tem cuidado – disse ele, n
O rosto do homem permaneceu impassível enquanto ele simplesmente inclinou a cabeça em resposta à saudação de Chantelle. O seu olhar deslizou sobre ela brevemente, sem emoção aparente, como se procurasse avaliá-la… ou talvez esquecê-la.O que Chantelle ignorava era que aquele homem, sentado hoje na sala de família como o noivo oficial de Mégane, havia sido destinado a ela.Ela.Algumas semanas antes, Gérard, o seu pai, apresentara-se no vasto escritório acolchoado de Collen Wilkerson, na torre central do grupo.O homem de negócios, rígido atrás da sua secretária, erguera uma sobrancelha ao ouvir Gérard começar com uma voz falsamente constrangida:— Lamento, senhor Wilkerson. A minha filha mais nova… aquela que deveria ser a sua noiva…Fizera uma pausa, como se medisse o impacto das suas palavras.— Recusou categoricamente o casamento. Não é cooperante. Não é estável. Seria um erro da sua parte esperar mais por ela.Collen limitara-se a fixá-lo. Nem uma palavra. Nem uma pergunta.Então
Na manhã seguinte, Chantelle despertou com o corpo pesado, carregado de cansaço e incertezas. Sentou-se lentamente, tomou o telemóvel nas mãos trémulas e abriu a aplicação Notas. Os seus dedos teclaram mecanicamente: décima segunda vez. Aquelas palavras ressoavam-lhe profundamente, carregadas de significado.Pousou o telemóvel na mesinha de cabeceira, pronta para prosseguir, quando subitamente uma notificação soou. Curiosa, ergueu os olhos para o ecrã e um sorriso frágil iluminou-lhe o rosto fatigado. Uma transferência bancária de 8.000 euros acabara de ser creditada na sua conta.Um suspiro de alívio escapou-lhe dos lábios. Aquele gesto, por mais discreto que fosse, trazia-lhe um pouco de conforto em meio ao caos.Tornou a sentar-se, ainda sob o efeito da surpresa, e abriu o WhatsApp. Procurou um número que nunca ousara contactar antes. Os dedos hesitantes, teclou uma palavra simples, carregada de gratidão: Obrigada.Ficou suspensa por um instante antes de pressionar "Enviar". Era a
A suíte presidencial estava imersa numa luz tamisada, difusa, como se cada recanto tivesse sido meticulosamente pensado para que nada fosse visto com clareza. Tanto era feltro. Silêncio. Um luxo discreto, porém sufocante. As cortinas, cerradas, isolavam por completo o mundo exterior, e naquela bolha suspensa sobre a cidade, Chantelle jazia deitada, os pulsos cruzados sobre o ventre, os olhos vendados por uma faixa de seda negra.Já nem sequer sabia há quanto tempo aguardava. Talvez cinco minutos. Talvez trinta.Era a décima segunda vez.Ainda lhe restavam oitenta e oito noites até que tudo findasse. Até que pudesse ser livre.A porta abriu-se sem o mais leve ruído. Ela não o viu entrar, mas pressentiu de imediato a sua presença. Aquele perfume amadeirado e seco, austero porém inebriante. O seu odor. Aquele que reconheceria entre milhares, porque se lhe impregnava na garganta, nos rins, no âmago das suas pulsações. Ele. Nada dizia. Nunca dizia nada.Chantelle sentiu o colchão ceder sob





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