Capítulo 5

Chantelle regressou a casa. O seu pequeno apartamento, modesto mas acolhedor, envolveu-a como um casulo reconfortante. As paredes, pintadas em tons suaves, traziam a marca da sua personalidade — pequenas molduras, algumas plantas, livros amontoados numa estante barata. Nada de luxuoso, mas tudo tinha alma. Ao contrário da casa do pai, gelada e imponente, ali sentia-se em casa. Em segurança. Em paz.

Tirou os sapatos, suspirou longamente, depois deixou-se cair no sofá. Mal tinha pousado o telemóvel na mesa de centro quando uma notificação apareceu no ecrã. Uma mensagem, sem assinatura. Como sempre.

« Esta noite, 23h. »

Franziu o sobrolho. Era invulgar. Aquele homem que a comprava na sombra nunca tinha pressa. Contactava-a com intervalos espaçados, como se quisesse manter uma distância fria e metódica. Mas naquela noite, chamava-a de novo, apenas dois dias depois do último encontro.

Algo estava errado, mas ela foi mesmo assim.

Às 22h50, saiu do apartamento, como uma autómata, os gestos precisos, o fôlego curto, os pensamentos abafados. As ruas estavam calmas, escuras, cheias daquele silêncio cúmplice que envolve as faltas premeditadas. Um carro negro esperava-a já, motor ligado, na esquina habitual. Mal abriu a porta, uma mão enluvada avançou para lhe estender a venda. Ela própria a colocou, lentamente, docilmente. As regras não tinham mudado.

O percurso foi mudo, denso, saturado de uma calma perigosa. Nada via. Não falava. Não fazia perguntas. Como sempre.

A porta abriu-se. Ele fê-la entrar sem uma palavra, a mão pressionada firmemente na base das suas costas. Nenhum gesto terno. Nenhuma hesitação. Empurrou-a para dentro do quarto e fechou a porta com um movimento seco, sem suavidade.

Ela reconheceu de imediato o odor amadeirado, familiar. Mas naquela noite, era diferente. Mais pesado. Quase sufocante.

Ele virou-a bruscamente, apertando-lhe o ventre contra a parede fria.

As suas mãos percorreram-lhe o corpo, mas não era uma carícia. Era uma tomada de posse. Afastou-lhe as pernas, baixou-lhe a cueca, inclinou-se sobre a sua orelha. O seu hálito era quente, rápido, ardente.

Ela gemeu, surpreendida, tensa, os braços contra a parede.

— Espera... por favor... – murmurou ela.

Mas ele não parou.

Penetrou-a de um só golpe, profundamente, depois imprimiu um ritmo preciso e implacável, embatendo contra o seu ventre, subindo-lhe até à garganta, fazendo-a ofegar, gritar, perder o chão.

Não era dor pura, nem um medo real. Era o pânico de perder o controlo, a vertigem de um prazer demasiado brutal, demasiado imediato. Ele ia rápido, com força. Cada movimento parecia um castigo.

Ela não podia fugir. Cada tentativa de virar a cabeça era travada pela mão dele na sua nuca. Cada suspiro convocava uma penetração mais dura. Ele não falava. Impunha.

Ela ofegava, as pernas trémulas, a testa apoiada contra a parede.

— É demais... – murmurou ela com voz quebrada.

Ele mal abrandou. Depois retomou com mais força. Outra vez. Outra vez. Até que ela não aguentou mais, até que todo o seu corpo se abandonou contra ele.

Cada investida era uma declaração sem palavras, um ato selvagem, bruto, destinado a gravar a sua marca no mais profundo dela, onde mais ninguém poderia jamais apagar.

— Hhn... aaah...

As suas unhas deslizavam pelas costas dele, ali se agarravam, arranhavam-no, sem que ela sequer decidisse. Procurava um apoio, um ponto de referência, algo a que se agarrar naquela tempestade. Mas só existia ele. Só a sua pele. Só a sua força. Só aquela necessidade que ele tinha dela.

Ergueu-a, atirou-a para a cama, afastando-lhe as pernas para continuar sem trégua.

Ela já não sabia se chorava ou se ria. Tudo ardia. Tudo vibrava. Ele mordia-lhe o ombro, segurava-a com firmeza, voltava a virá-la. Ela suplicava-lhe que parasse, mas a cada vez, ele empurrava-a mais longe, até que ela chegou ao orgasmo a gritar, confusa e perdida.

Repetira várias vezes "para... por favor...", mas ele continuava, como se cada um dos seus gemidos o alimentasse, o excitasse ainda mais.

E depois, tudo mudou.

O seu ritmo abrandou.

Os seus gestos tornaram-se mais suaves.

Acariciou-lhe o peito, a garganta, depois beijou-a na boca, pela primeira vez. Longamente. Silenciosamente. Penetrou-a de novo, sem violência. Lentamente. Profundamente.

A sua mão deslizou sobre as suas costelas, o seu ventre. Desta vez, acompanhava-a. Quase a embalava.

Ela já não lutava. Abandonava-se completamente. Apertava-o, os dedos ainda trémulos, mas serenos. Ele continuava sem falar. Mas ficava. E ela, pela primeira vez, já não queria fugir.

Não sabia quantas vezes ele a tomara.

Ele levou-a para o duche. Penetrou-a ainda ali, contra a parede húmida.

Depois na cama. Outra vez. E outra.

Ela montou-o. Suplicou-lhe que parasse. Os seus lábios roçaram a venda sobre os seus olhos. Depois ele recomeçou.

O seu espírito flutuava algures longe do seu corpo. Perdera completamente a noção do tempo.

Já não sabia se gritara.

Já não sabia se houve um fim.

Tudo se tornou difuso.

Ele não disse nada.

E ela não perguntou nada.

Adormeceu sem dar por isso.

Quando reabriu os olhos, a luz do dia batia na parede em frente. Ergueu-se de repente, o coração a bater forte. Procurou um relógio, um despertador, o telemóvel. Quando finalmente o encontrou, teve um sobressalto.

12h42.

— Merda... O almoço com o tal chato do Paterne!

Levantou-se apressadamente, cambaleante. O corpo estava dorido, marcado. Beijos, manchas vermelhas, impressões de dedos na cintura, no peito, nas ancas. Ele deixara a sua assinatura nela. Uma assinatura invisível ao mundo, mas que ela sentia a cada passo.

Apanhou um vestido preto de mangas compridas, que cobria tudo. Maquilhou-se à pressa. Prendeu o cabelo para esconder a nuca. Não havia tempo para comer. Não havia tempo para pensar.

O hotel Le Grand desdobrava o seu luxo sem reservas: mármore reluzente, lustres de cristal, empregados de sala impecáveis. Chantelle avançou, o coração ainda pesado da noite anterior, os seus saltos ressoando suavemente no chão brilhante.

Na mesa reservada, viu-o.

Um arrepio de nojo atravessou-a.

O homem ali sentado, vestido com um fato mal talhado, um relógio dourado grotesco no pulso, era baixo, careca, os olhos brilhantes com um brilho demasiado insistente. O seu sorriso pegajoso esticou-se quando a viu aproximar-se, como se tivesse acabado de ver uma sobremesa muito aguardada.

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
capítulo anteriorcapítulo siguiente
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP