Capítulo 3

O rosto do homem permaneceu impassível enquanto ele simplesmente inclinou a cabeça em resposta à saudação de Chantelle. O seu olhar deslizou sobre ela brevemente, sem emoção aparente, como se procurasse avaliá-la… ou talvez esquecê-la.

O que Chantelle ignorava era que aquele homem, sentado hoje na sala de família como o noivo oficial de Mégane, havia sido destinado a ela.

Ela.

Algumas semanas antes, Gérard, o seu pai, apresentara-se no vasto escritório acolchoado de Collen Wilkerson, na torre central do grupo.

O homem de negócios, rígido atrás da sua secretária, erguera uma sobrancelha ao ouvir Gérard começar com uma voz falsamente constrangida:

— Lamento, senhor Wilkerson. A minha filha mais nova… aquela que deveria ser a sua noiva…

Fizera uma pausa, como se medisse o impacto das suas palavras.

— Recusou categoricamente o casamento. Não é cooperante. Não é estável. Seria um erro da sua parte esperar mais por ela.

Collen limitara-se a fixá-lo. Nem uma palavra. Nem uma pergunta.

Então Gérard sorrira, educado, ávido por propor uma solução:

— Tenho outra filha. A mais velha. Mégane. Bela, obediente, muito culta. Saberá corresponder às suas expectativas.

E concluíra, como quem encerra um processo:

— Com toda a honestidade, é uma escolha melhor.

Collen nada dissera. Observara o homem sair, depois desviara o olhar para a cláusula do testamento do seu avô, emoldurada na parede:

"Só tocarás na herança se desposares uma filha de Gérard Lemoine. Nenhuma outra."

Isso convinha-lhe.

Não se tratava de sentimento.

Nem de atração.

Apenas de lealdade contratual a um morto e de herança a preservar.

Assim, aceitara Mégane.

Passados alguns minutos, Mégane desceu do seu quarto, empoleirada em saltos demasiado altos para a discrição. O seu vestido justo, de ombros nus, conferia-lhe ares de estrela de cinema, e o sorriso que ostentava era o de uma mulher segura do seu triunfo.

Os seus olhos percorreram a sala, depois iluminaram-se com um falso calor ao avistar Chantelle, sentada ligeiramente afastada, ereta e silenciosa numa poltrona de vime no fundo da sala, uma chávena de chá na mão.

Com um passo gracioso mas calculado, aproximou-se.

— Ah, Chantelle! – exclamou com um entusiasmo quase afetuoso. – Estás aqui, estou tão contente! Vem, deixa-me ter a honra de te apresentar o meu noivo… Collen Wilkerson.

Segurou delicadamente no braço de Chantelle, como se aquele simples contato provasse uma cumplicidade intacta entre elas. Mas sob os seus dedos perfeitamente manicurados, Chantelle sentiu a insistência, a posse, e talvez um toque de triunfo mal dissimulado.

Chantelle ergueu calmamente os olhos para ela. O seu olhar não era hostil nem terno. Apenas… neutro.

— Sim, a tua mãe já mo apresentou. – respondeu simplesmente, sem se mexer, inclinando apenas ligeiramente a cabeça na direção de Collen.

A sua voz era suave mas desprovida de calor, como se cada palavra pesasse o seu peso de lucidez.

Mégane soltou uma risadinha embaraçada, antes de se voltar para Collen. Deslizou naturalmente para o seu lado no sofá, o ombro nu roçando a manga escura do fato perfeitamente talhado do presidente. Recostou-se nele, como para marcar claramente o seu território, e cruzou as pernas lentamente.

Mas Collen, esse, não reagiu. O seu olhar permanecera pousado, por um pouco mais de tempo do que deveria, em Chantelle, antes de regressar friamente ao centro da sala.

O jantar foi servido. Os pratos fumegantes estavam dispostos com cuidado sobre a comprida mesa de mogno brilhante, decorada com castiçais esguios e pratos de porcelana fina. A atmosfera pretendia ser calorosa, quase solene.

Gérard aproximou-se da pequena sala onde a filha estava perdida no ecrã do telemóvel.

— Chantelle, vem. O jantar está servido.

Ela ergueu os olhos para ele sem dizer palavra. Depois, com a mesma elegância distante que a caracterizava, levantou-se sem reagir.

Na sala de jantar, os lugares pareciam já atribuídos. Por um estranho acaso, o lugar que ficava defronte de Collen estava vazio. Sem uma palavra, Chantelle instalou-se aí, endireitando as costas, o olhar direito, as mãos cruzadas sobre os joelhos.

Mégane, essa, já tomara lugar precisamente à direita de Collen. Mal se sentara, apressara-se a colar-se a ele, passando o braço à volta do seu com uma familiaridade ostensiva. A sua risada estridente pontuava cada uma das suas frases como um meio de preencher o silêncio do homem ao seu lado.

— Queres provar o meu gratinado? Ajudei a prepará-lo. Pronto, um bocadinho… – gracejava ela, aproximando um garfo da sua boca, que ele afastou educadamente sem lhe prestar atenção.

Collen, fiel a si mesmo, permanecia impassível, os traços lisos, a atitude irrepreensível. Não a afastava, mas também não a olhava. Mastigava lentamente, o olhar perdido na toalha da mesa ou… de tempos a tempos, cruzando os olhos de Chantelle.

Rhonda, radiante com a cena, inclinou-se para Gérard, os olhos brilhantes:

— Olha só para estes dois. É como se tivessem sido feitos um para o outro, não achas?

Gérard, o copo de vinho na mão, ostentava um sorriso forçado, um daqueles sorrisos que dizem muito:

— Absolutamente. Collen é um homem excecional, de uma classe rara, um verdadeiro chefe de empresa. A Mégane tem muita sorte. Esta aliança vai elevar a nossa família como nunca. Sabes, Chantelle, é uma grande oportunidade para todos nós.

Depois, voltando-se para a filha, a sua voz tornou-se doce, quase melíflua:

— Estou orgulhoso por estares aqui esta noite. É importante para mim, e para a tua irmã também. Sei que compreendes que certas coisas estão acima dos ressentimentos. A família primeiro, sempre.

Chantelle, por seu lado, sentia o estômago contrair-se. Nunca aceitara aquela farsa familiar. Desde a morte da sua mãe, o pai Gérard trouxera para casa Rhonda, a sua nova "esposa", e Mégane, uma filha dois anos mais velha do que ela, que lhe apresentara como a sua nova "mãe" e a sua nova "irmã". Tudo aquilo não fazia senão reforçar as suas suspeitas: Gérard certamente as enganara muito antes da morte da sua mãe.

Não suportando mais aquela comédia, Chantelle pousou os talheres com um ligeiro estalido seco, depois declarou com voz firme:

— Já comi bem. Vou tomar um pouco de ar.

— Fica aí! Não tens modos?! – exasperou-se Gérard, os olhos a lançarem relâmpagos.

Rhonda, falsamente magnânima, interveio com um sorriso glacial, quase trocista:

— Deixa-a, não tem importância. Afinal, ela não cresceu connosco. Não admira que lhe falte um pouco de educação…

Aquelas palavras gelaram o coração de Chantelle, como uma lâmina invisível trespassando-lhe o peito. Cerrou os dentes, as mãos crispadas, e depois, sem um olhar, abandonou a sala de jantar, o fôlego curto, sufocada por aquela atmosfera familiar tóxica, tão pesada como uma tempestade prestes a rebentar.

Lá fora, Chantelle entediava-se e quis regressar para ver a sua avó. O que acabara de viver naquela noite já era suficiente. Caminhava rapidamente pelo jardim, os seus passos apressados a denunciarem a sua impaciência.

Sem olhar onde punha os pés, embateu de repente contra um peito sólido.

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