Capítulo 2

Na manhã seguinte, Chantelle despertou com o corpo pesado, carregado de cansaço e incertezas. Sentou-se lentamente, tomou o telemóvel nas mãos trémulas e abriu a aplicação Notas. Os seus dedos teclaram mecanicamente: décima segunda vez. Aquelas palavras ressoavam-lhe profundamente, carregadas de significado.

Pousou o telemóvel na mesinha de cabeceira, pronta para prosseguir, quando subitamente uma notificação soou. Curiosa, ergueu os olhos para o ecrã e um sorriso frágil iluminou-lhe o rosto fatigado. Uma transferência bancária de 8.000 euros acabara de ser creditada na sua conta.

Um suspiro de alívio escapou-lhe dos lábios. Aquele gesto, por mais discreto que fosse, trazia-lhe um pouco de conforto em meio ao caos.

Tornou a sentar-se, ainda sob o efeito da surpresa, e abriu o W******p. Procurou um número que nunca ousara contactar antes. Os dedos hesitantes, teclou uma palavra simples, carregada de gratidão: Obrigada.

Ficou suspensa por um instante antes de pressionar "Enviar". Era a primeira vez que tomava a iniciativa de lhe escrever. Até ali, as suas trocas limitavam-se aos locais que ele indicava, sempre na penumbra da noite e no silêncio. Desta vez, era diferente.

Levantou-se e saiu para apanhar um táxi em direção ao hospital.

Deteve-se diante de uma porta de vidro. A placa indicava:

"Dr. E. Wood, Médico Referenciador". Inspirou suavemente, bateu.

— Entre, lançou uma voz pausada do outro lado.

Ela entrou.

O consultório era sóbrio, arrumado, banhado por uma luz tamisada por persianas entreabertas. Sentado atrás da secretária, um homem jovem, de trinta anos quando muito, ergueu a cabeça. Usava óculos de armação fina, e o seu jaleco branco estava impecavelmente passado.

— Doutor Wood, disse ela simplesmente, tomando lugar em frente a ele.

Ele assentiu com um sorriso profissional.

— Menina Chantelle?

— Sim. Venho regularizar os custos da hospitalização da minha avó. Pousou o envelope sobre a secretária. Oito mil, conforme combinado.

O médico observou-a por um instante, surpreso talvez por vê-la regressar tão rapidamente com a quantia.

— Perfeitamente. Isto permitir-nos-á acelerar os procedimentos. Abriu uma gaveta, pegou numa ficha e começou a rabiscar algumas notas.

— Vamos iniciar com uma série de exames aprofundados: TAC cerebral, análises sanguíneas completas e uma avaliação neurológica. O estado de coma é estável, mas queremos excluir qualquer edema ou hemorragia lenta. Ergueu os olhos. Depois, ajustaremos o tratamento conforme os resultados.

Chantelle anuiu lentamente.

— Quanto tempo para os resultados?

— Entre vinte e quatro e quarenta e oito horas. Fez uma pausa. Não vou ocultar-lhe que o prognóstico dependerá sobretudo da reação dela nos próximos dias. Mas agora, pelo menos, temos meios para intervir.

Ela comprimiu os lábios, retinindo a emoção na garganta.

— Obrigada. A voz era baixa, porém sincera.

— Poderá visitá-la. Ela não acordará hoje, mas… por vezes, ouvir uma voz familiar pode ajudar. Mesmo inconsciente, o cérebro capta.

Ela anuiu novamente.

— Passarei lá. Apenas um momento.

Recolheu o recibo, guardou-o na mala e saiu sem acrescentar palavra.

Atrás do vidro, a silhueta da sua avó parecia minúscula naquele leito hospitalar. Tubos saíam dos seus braços frágeis, ligados a um monitor que emitia um bip regular. Uma perfusão gotejava lentamente, como se contasse os segundos por ela.

Chantelle ficou imóvel.

Pousou uma mão no vidro.

— Avó…, sussurrou através do vidro. A voz quebrou-lhe.

Não chorou. Ali não. Agora não.

Mas sentiu um rasgo surdo no peito.

— Estou aqui. Faço tudo o que posso. Agüenta… por favor.

Permaneceu ali mais uns segundos, o olhar fixo naquele rosto imóvel, depois ergueu-se e abandonou o hospital.

Chantelle entrou no táxi, silenciosa. Direção: a casa do pai. Naquela noite, o noivo da sua meia-irmã vinha jantar pela primeira vez, e Gérard insistira para que ela estivesse presente.

Chegada ao bairro nobre, observou brevemente as grandes vivendas bem alinhadas atrás dos seus portões automáticos. Diante da sua, o pai esperava-a.

— Chantelle, bem-vinda, disse ele com um tom seco.

— Obrigada, respondeu ela, tentando passar.

Ele deteve-a.

— Sinto-me honrado por estares aqui. Creio que a tua irmã Mégane e a tua madrasta ficarão muito contentes.

— Vim apenas porque insististe. Não paraste de me martelar os ouvidos. Nada me interessa aqui hoje.

Sem acrescentar palavra, entrou em casa.

Assim que transpôs a porta, um perfume amadeirado chegou-lhe. O interior estava impecavelmente decorado: mármore polido, lustre de cristal suspenso no teto, mobiliário moderno em tons de bege e dourado. Mas tudo se tornou difuso, insignificante, no instante em que os seus olhos pousaram no homem sentado no sofá.

Ele estava ali, como saído de um sonho glacial.

Alto, a postura ereta e elegante, as pernas cruzadas com descontração. Os cabelos negros cuidadosamente penteados contrastavam com a palidez da sua pele. Um maxilar angular, traços simétricos, uma boca fina porém cerrada. Os seus olhos de um cinzento claro quase translúcido pareciam sondar o mundo com uma indiferença gelada. Vestia um fato de três peças cor de antracite, feito por medida, sem a mais pequena imperfeição. Um homem belo. Mas de uma beleza distante. Intocável. Quase intimidante.

Ela ficou imóvel por um segundo, surpreendida.

Foi nesse instante que Rhonda, a sua madrasta, chegou a passos largos, empoleirada nos seus saltos agulha, um sorriso deslumbrante colado ao rosto.

— Ah, finalmente chegaste! – disse, tomando-lhe suavemente o braço, como se fossem as melhores amigas do mundo.

Depois, voltou-se para o homem sentado:

— Apresento-te o teu futuro cunhado, o Presidente do Grupo Wilkerson. Senhor Collen, eis Chantelle, a filha mais nova do meu marido.

Chantelle sentiu o estômago contrair-se.

O Grupo Wilkerson? Era lá que ela trabalhava. Nunca vira o presidente, nunca soubera que aspeto tinha. Era conhecido por permanecer nas sombras, não comparecer a nenhum evento e delegar os seus negócios aos diretores de filial. Podia tê-lo cruzado sem saber quem era.

E agora descobria-o… ali, na casa do pai, sob o rótulo de "cunhado".

Engoliu a surpresa, obrigou-se a manter a dignidade, ereta. A sua voz, pausada e distante, rompeu o silêncio:

— Senhor Collen.

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