As Primeiras Regras

A chuva fina da manhã tingia o céu de Atenas de um cinza elegante quando Larissa Alexandra Botelho atravessou os portões da mansão Andreadis pela segunda vez — desta vez, não como convidada, mas como a nova senhora Andreadis.

Era um título que ainda soava estranho.

Ela mal conseguia acreditar que, em poucas horas, sua vida havia se transformado de forma irreversível.

Do apartamento pequeno em Piraeus para aquela propriedade que mais parecia um palácio moderno, cercado por jardins, fontes e o som distante das ondas quebrando nas rochas abaixo.

O motorista estacionou sob o pórtico principal, e Alexis Damos apareceu quase imediatamente, como se já a esperasse.

— Senhora Andreadis — cumprimentou com um leve sorriso. — O senhor Nikolaus pediu que eu a acompanhasse até seus aposentos e a informasse sobre as regras de convivência.

Larissa sentiu um arrepio ao ouvir o nome “senhora Andreadis”.

Por mais que soubesse que tudo aquilo era apenas um contrato, a formalidade do título parecia carregar um peso estranho — quase real.

— Regras? — perguntou, descendo do carro.

— O senhor Andreadis é um homem que preza pela ordem. — Alexis respondeu com diplomacia. — Algumas delas são apenas protocolos; outras, digamos… preferências pessoais.

Larissa assentiu, tentando esconder o desconforto.

Enquanto caminhavam pelo hall, ficou fascinada com o interior da casa: pisos de mármore branco, colunas de vidro, quadros de artistas gregos, e o cheiro discreto de jasmim no ar. Tudo ali exalava luxo e controle.

O quarto que lhe designaram ficava no segundo andar — amplo, com varandas duplas que se abriam para o mar. As cortinas brancas esvoaçavam com o vento salgado, e o armário já estava repleto de roupas novas, dobradas com precisão quase militar.

— Tudo foi escolhido conforme suas medidas — explicou Alexis. — O senhor Andreadis prefere evitar aparições públicas com uma esposa mal vestida.

Larissa engoliu em seco.

— Que generosidade. — A ironia escapou antes que ela pudesse conter.

Alexis sorriu de leve, mas não respondeu.

Sobre a penteadeira, havia um envelope.

Dentro, um cartão com a caligrafia firme e elegante de Niko:

> “Jantar às 20h. Sala principal.

Pontualidade é uma virtude que aprecio. — N.A.”

Larissa suspirou. Era oficial.

Aquele não seria um casamento de amor, mas um acordo de disciplina.

Às oito em ponto, ela entrou na sala de jantar.

O ambiente era amplo, decorado em tons neutros e iluminado por um lustre de cristal.

No centro, uma mesa de madeira maciça, onde Nikolaus Andreadis já a esperava — impecável como sempre, em uma camisa preta e calça escura.

Ele levantou-se quando ela se aproximou.

— Boa noite, Larissa.

— Boa noite, senhor Andreadis.

— Niko. — Ele a corrigiu com calma. — Quando estivermos sozinhos, me chame de Niko.

— Certo… Niko. — O nome soou íntimo demais em sua boca, e ela desviou o olhar.

Ele gesticulou em direção à mesa.

— Sente-se.

Enquanto serviam o jantar — salmão grelhado, legumes e vinho branco —, o silêncio entre eles era espesso. O único som vinha do mar, lá fora, e do estalar suave dos talheres de prata.

Larissa tentou disfarçar o nervosismo.

— Então, sobre as tais regras… devo me preocupar?

Niko apoiou o garfo e a encarou.

— Não se preocupe. Elas são simples. — Pausou, medindo as palavras. — Regra número um: discrição. Ninguém além de nós e de Alexis sabe sobre o contrato. Para o resto do mundo, somos um casal legítimo.

Larissa assentiu.

— Compreensível.

— Regra número dois: aparências. Haverá eventos sociais, jantares de negócios, viagens. Você deverá agir como minha esposa — falar pouco, sorrir quando for necessário e nunca contradizer publicamente o que eu disser.

— Então devo parecer uma boneca?

O canto da boca de Niko se ergueu, quase em um sorriso.

— Se for uma boneca que sabe quando calar e quando observar, sim.

Larissa sentiu o sangue subir ao rosto.

— E eu achando que o casamento seria uma parceria…

— É. — Ele a fitou intensamente. — Só não é romântica.

O silêncio voltou, carregado de tensão.

Larissa bebeu um gole do vinho, tentando recuperar o controle.

— Mais alguma regra? — perguntou, por fim.

Niko recostou-se na cadeira, cruzando os braços.

— Regra número três: o quarto.

Ela arqueou as sobrancelhas.

— O que tem o quarto?

— Cada um terá o seu. Não haverá intimidade física. — Ele foi direto, sem desviar o olhar. — Isso não é um casamento de verdade, Larissa. É um acordo.

A clareza dele a atingiu como uma lâmina.

Parte dela se sentiu aliviada. A outra, curiosamente… decepcionada.

— E se alguém nos vir dormindo em quartos separados?

— Não verá. — A voz dele era firme. — As aparências serão mantidas. Nas viagens, dividiremos o mesmo quarto, a mesma cama se for necessário — mas apenas como fachada.

Larissa ficou em silêncio por um momento, absorvendo o peso das palavras.

Era estranho pensar que sua vida agora estava organizada por regras que lembravam um roteiro de teatro.

— E quanto à sua família? — perguntou. — Eles sabem?

Niko desviou o olhar para o copo.

— Minha mãe, Elena, saberá no momento certo. É uma mulher… exigente.

— E vai acreditar?

— Ela sempre acredita no que a convence socialmente. — Ele deu um meio sorriso sem alegria. — Você só precisa parecer perfeita.

Larissa soltou uma risada breve.

— Perfeita não é exatamente o meu forte.

— Não subestime a si mesma. — O tom dele mudou, quase suave. — A perfeição é só uma questão de treino.

Os olhos dele permaneceram sobre os dela por tempo demais.

Foi o suficiente para Larissa sentir algo se mover dentro de si — um fio tênue de curiosidade e perigo.

Mais tarde, ela se recolheu ao quarto.

A chuva havia cessado, e o vento trazia o cheiro do mar.

Na mesa de cabeceira, encontrou uma pequena caixa embrulhada em papel dourado.

Dentro, um colar delicado, com uma pedra azul.

E um bilhete curto:

> “Para ocasiões públicas.

Nenhuma esposa de Andreadis deve parecer invisível. —

Larissa segurou o colar por um instante.

Não sabia se era um gesto de gentileza… ou de posse.

Colocou-o sobre a mesa e deitou-se. Mas o sono não veio.

Cada vez que fechava os olhos, via o rosto dele — sério, controlado, mas com algo nos olhos que contradizia a frieza.

Algo que parecia… ferido.

E, no fundo, algo nela começava a querer entender o que havia por trás daquela máscara de aço.

Do outro lado da mansão, Niko permanecia no escritório, observando a chuva retomar sua dança sobre o vidro.

Tinha o contrato assinado sobre a mesa e uma taça de uísque na mão.

Deveria sentir alívio. O plano estava em andamento.

Mas, pela primeira vez em anos, sentia algo diferente: inquietude.

Larissa Botelho não era o tipo de mulher que ele esperava.

Não havia vaidade excessiva, nem segundas intenções — apenas aquela honestidade desconcertante que o desarmava.

Ela não jogava.

E talvez fosse isso o que mais o intrigava.

— Perigosa… — murmurou para si mesmo. — Mesmo sem tentar.

Naquela noite, enquanto a lua se refletia nas águas do Egeu, dois estranhos dormiam sob o mesmo teto, unidos por um contrato — e separados por muros invisíveis que começavam, lentamente, a rachar.

Larissa ainda acreditava que podia manter o coração intacto.

Niko ainda acreditava que podia manter o controle.

Mas o destino — como sempre — tinha planos muito diferentes.

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