Mundo de ficçãoIniciar sessãoO amanhecer em Atenas chegou devagar, tingindo o céu de um azul pálido que antecede o calor do dia. O som distante dos barcos partindo do porto misturava-se ao canto suave das gaivotas.
Larissa Alexandra Botelho mal havia dormido. A noite inteira, seu olhar percorreu as linhas frias do contrato que brilhava na tela do notebook — vinte e sete páginas de termos, cláusulas e confidencialidades. Cada palavra parecia pesar uma tonelada. > “Casamento civil com duração mínima de doze meses…” “A contratada compromete-se a manter aparência de relação conjugal verdadeira perante a sociedade…” “Em caso de descumprimento das cláusulas, o acordo será anulado e os benefícios cessarão imediatamente…” Ela sentia o estômago revirar. O documento era detalhado, quase clínico. Niko não deixara brechas. Tudo ali era pensado para proteger sua imagem, sua empresa, seu império. E, de algum modo, ele ainda conseguira incluir uma cláusula de dignidade para ela — o apartamento em seu nome, o pagamento integral do tratamento médico do pai e uma quantia suficiente para recomeçar a vida após o divórcio. Era o tipo de proposta que resolvia tudo… Exceto a culpa. Larissa se levantou e foi até a janela. Lá fora, o sol já dourava os telhados de Atenas. O mar Egeu brilhava como se zombasse de suas dúvidas. Ela pensou na mãe — no sorriso cansado, nas mãos que costuravam até tarde. Pensou no pai, preso a uma cama em um hospital público de Belo Horizonte, dependendo de remédios caros e de uma filha que, apesar de forte, estava à beira do desespero. Quando o celular vibrou, ela já sabia quem era. Dimitri Karras. — Kalimera, moro mou! — a voz alegre dele atravessou o telefone. — Você sumiu ontem à noite. O que aconteceu? Larissa hesitou. Dimitri era seu melhor amigo, o único que conhecia sua vida em detalhes. Mas como contar algo que nem ela conseguia compreender? — Recebi uma… proposta estranha. — Sua voz saiu baixa. — Estranha como? Ela respirou fundo. — Ele quer que eu me case com ele. O silêncio do outro lado durou longos segundos. — Ti? Casar? Com quem? — Com Nikolaus Andreadis. Dimitri soltou um assobio surpreso. — O CEO grego? Larissa, isso é uma loucura! — Eu sei. — Ela passou a mão pelos cabelos. — Mas ele é sério. Existe um contrato. — Um contrato? — A incredulidade dele se misturou à preocupação. — Isso soa perigoso. Esses homens poderosos… eles jogam com as pessoas, moro mou. Larissa sorriu com tristeza. — Às vezes, a vida nos obriga a jogar também. — Você não precisa disso. Eu posso te ajudar, achar outro trabalho— — Dimitri… — interrompeu, a voz tremendo. — O papai precisa do tratamento. Não há tempo. O silêncio voltou. E, dessa vez, foi o silêncio de quem entende que o amor e o desespero andam de mãos dadas. — Se você for fazer isso, kopéla mou, — disse ele por fim, com a voz baixa —, prometa que vai manter o coração seguro. — Prometo — mentiu ela. Horas depois, o carro preto da Andreadis Corporation estacionava diante do prédio de Larissa. Alexis Damos a esperava, pontual, com a mesma postura cortês de sempre. — O senhor Andreadis pediu que eu a levasse à mansão em Vouliagmeni — informou ele, abrindo a porta do carro. — Ele gostaria de discutir os detalhes pessoalmente. Larissa assentiu, o coração acelerado. Durante o trajeto, olhou a paisagem mudar — do trânsito urbano ao litoral azul intenso, onde mansões de vidro e mármore se alinhavam como joias sobre o penhasco. O carro parou diante de um portão alto, vigiado por câmeras e cercado por jardins bem cuidados. A mansão Andreadis era imponente. De fachada branca e varandas amplas, parecia suspensa sobre o mar. O vento trazia o cheiro salgado das ondas e o som distante de gaivotas. Niko a esperava na varanda principal, vestindo uma camisa branca e calça de linho. Era a primeira vez que Larissa o via sem terno — e, curiosamente, ele parecia ainda mais intimidante. Seu olhar era o mesmo: firme, penetrante, impossível de decifrar. — Senhorita Botelho — cumprimentou, com um leve aceno. — Espero que o caminho não tenha sido cansativo. — Foi tranquilo, senhor Andreadis. — Ela tentou parecer serena. Ele indicou uma mesa sob a sombra. Sobre ela, repousava uma pasta de couro com o contrato impresso. — Li o documento? — perguntou ele, servindo dois copos de suco. — Li. — Ela engoliu em seco. — E tenho perguntas. — Ótimo. Prefiro honestidade à hesitação. Larissa abriu a pasta, as mãos trêmulas. — Por que eu não posso rescindir o contrato antes de um ano? Niko se recostou na cadeira. — Porque eu não posso correr o risco de especulações ou escândalos. A estabilidade da minha imagem é essencial. Se alguém descobrir que o casamento é falso, perco tudo. Ela o encarou. — E se eu me arrepender? — Então você terá que aprender a fingir muito bem — respondeu ele, sem alterar o tom. Larissa soltou o ar devagar. — O senhor parece confiar demais na capacidade das pessoas de esconder sentimentos. — Eu confio apenas em cláusulas. A frieza dele a irritava, mas havia algo fascinante naquele controle absoluto. — E o senhor? — arriscou. — Já se arrependeu de algo? Ele ficou em silêncio por um instante, o olhar perdido no horizonte. — Uma vez. — Depois, voltou a fitá-la. — E aprendi a nunca mais repetir o erro. Ela entendeu que aquele era o limite. O passado de Niko era um território proibido. — Há mais alguma dúvida? — perguntou ele. Larissa hesitou. — Sim. Por que eu? Há tantas mulheres dispostas a fazer qualquer coisa por você. Niko sorriu de leve, sem humor. — Justamente por isso. A maioria faria isso esperando algo em troca: status, poder, amor. Você, senhorita Botelho, só quer sobreviver. E isso me torna… seguro. Larissa se sentiu dividida entre o insulto e a sinceridade. — Seguro? — Sim. — Ele se inclinou, encarando-a. — Porque você não vai se apaixonar por mim. Ela sentiu o rosto arder. — O senhor é bastante confiante. — Apenas realista. O silêncio que se seguiu foi denso, quase palpável. O som das ondas batendo nas pedras abaixo parecia marcar o compasso do que estava prestes a acontecer. Por fim, Niko empurrou a caneta prateada em direção a ela. — Se aceitar, assine aqui. Larissa olhou o papel. As palavras dançavam diante dos olhos, entre promessas e advertências. Ela pensou no pai. Pensou na vida simples que deixara para trás. E pensou naquele homem à sua frente — frio, intransponível, mas de alguma forma… humano. Com as mãos trêmulas, pegou a caneta. E assinou. O som da caneta riscando o papel foi quase solene. Niko observou em silêncio, e por um instante — um instante apenas — seu olhar suavizou. — Bem-vinda ao contrato, senhorita Botelho. — Sua voz era baixa, quase rouca. — A partir de agora, você é oficialmente minha esposa. Larissa ergueu os olhos para ele. E naquele segundo, percebeu que o casamento que começava ali era mais perigoso do que qualquer amor verdadeiro. Mais tarde, enquanto o carro a levava de volta à cidade, Larissa observava a paisagem pela janela. As mãos ainda tremiam. Ela não sabia se tinha assinado um acordo ou uma sentença. Mas algo dentro dela — uma centelha que nem ela sabia nomear — dizia que aquele homem mudaria tudo. E, pela primeira vez, o medo e a curiosidade caminharam lado a lado. > “Ele acha que eu não vou me apaixonar…”, pensou. “Talvez eu devesse ter medo de provar o contrário.”






