É melhor que o porão, repito para mim mesma pela centésima vez. Ou pela milésima. É a frase que me mantém respirando quando a mente ameaça quebrar.
A frase que recito como um mantra torto, tentando acreditar que existe algum consolo nesta escuridão controlada, nesta prisão silenciosa onde cada centímetro parece pulsar sob a presença invisível dele... Luciano.
Levanto-me, lenta, como quem carrega peso nos ossos. Caminho até o banheiro, que é o único espaço onde uma lâmpada funciona. A luz fraca amarela pinga do teto como um resto de misericórdia.
Sim, há eletricidade no quarto inteiro, mas, não há lâmpadas nas luminárias. Isso não é acidente.
Nunca foi.
É assim desde que cheguei. Ou melhor, desde que fui trazida para cá. Luciano não gosta de ser visto. Não gosta de claridade. Não quer que eu veja. E quer menos ainda que eu seja vista.
Penso no que sei sobre meu marido. Marido. A palavra pesa como ferro. A verdade é que não sei muito, quase nada. Sei que ele é feito de sombras, de r