Mundo ficciónIniciar sesiónValentina Moretti nunca acreditou que voltar à Irlanda mudaria sua vida. Filha de uma irlandesa que abandonou o país anos atrás, ela cresceu na Itália tentando construir seu próprio caminho, longe de um passado que nunca entendeu completamente. Mas quando surge a oportunidade de trabalhar como cuidadora de uma criança em uma propriedade isolada no interior irlandês, ela aceita, sem imaginar no que está se envolvendo. Cillian O’Rourke não tem escolha. Como alfa de uma das matilhas mais antigas da Irlanda, ele carrega o peso da liderança, da tradição… e da perda. Com a morte do irmão, além de assumir a responsabilidade pela sobrinha, ele também precisa cumprir uma exigência clara: escolher uma companheira. E ele já escolheu. Desde o momento em que Valentina cruzou seu caminho, Cillian reconheceu o que ela é. Sua parceira. Mas Valentina não sabe da existência do mundo ao qual ele pertence — e Cillian pretende manter assim pelo maior tempo possível. Usando a sobrinha como justificativa, ele faz uma proposta fria e irrecusável: um casamento por contrato. O que começa como um acordo necessário rapidamente se transforma em algo muito mais perigoso. Porque quanto mais tempo Valentina passa naquela casa, mais difícil se torna ignorar a forma como ele a observa… como se ela já fosse dele. E talvez sempre tenha sido. Mas quando verdades enterradas começam a emergir, Valentina descobre que seu retorno à Irlanda não foi um acaso e que o sangue que corre em suas veias pode mudar tudo. Inclusive, o destino de uma matilha
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A Irlanda me recebeu com chuva.
Não uma chuva forte, daquelas que anunciam tragédia com barulho nas janelas, mas uma garoa fina, insistente, quase íntima, grudando nos fios do meu cabelo, umedecendo a gola do meu casaco e entrando pela minha pele como se aquele país tivesse dedos frios demais para ser apenas clima.
Apertei a alça da bolsa contra o ombro e olhei pela janela do carro que me levava para longe do aeroporto, longe das ruas conhecidas de Dublin, longe de qualquer coisa que pudesse parecer uma cidade viva. A paisagem mudava aos poucos, prédios cedendo lugar a campos verdes, muros de pedra, árvores antigas e uma estrada estreita que parecia cortar o mundo ao meio.
Eu não devia estar ali.
Essa foi a primeira coisa que pensei quando o motorista virou por uma estrada quase escondida entre as árvores.
A segunda foi a voz da minha mãe.
Ela sempre ficava diferente quando alguém mencionava a Irlanda. Não triste de um jeito simples. Havia uma rigidez nela, uma pausa pequena demais para outras pessoas perceberem, mas grande o bastante para uma filha guardar. Quando eu era criança, perguntava sobre o país onde ela havia nascido, sobre a família que nunca visitei, sobre o motivo de ela ter escolhido a Itália e nunca mais ter voltado.
Ela sorria sem mostrar os dentes, ajeitava meu cabelo atrás da orelha e dizia que algumas terras amavam tanto que acabavam prendendo.
Na época, eu achava bonito.
Agora, olhando para a névoa fechada entre os troncos, aquilo parecia um aviso.
Meu celular vibrou no colo, e o nome de Giulia apareceu na tela com a insistência de quem ainda acreditava que eu podia voltar atrás.
Atendi antes que ela ligasse pela quarta vez.
— Me diz que você ainda está no aeroporto e que decidiu não entrar no carro de um desconhecido rumo a um castelo assombrado.
Fechei os olhos por um segundo, sentindo uma saudade imediata da voz dela, do italiano rápido, da intimidade que não precisava de explicações.
— Não é um castelo assombrado.
— Você viu fotos?
Olhei para a estrada vazia, para o motorista calado desde que segurou minha mala, para o céu baixo cobrindo tudo como uma tampa cinzenta.
— Vi a fachada da propriedade.
— Isso não respondeu.
— Giulia.
— Valentina.
Suspirei, apoiando a testa no vidro frio.
— Eu perdi o emprego. O aluguel está atrasado. Meu pai não me contou tudo, mas eu sei que a oficina não está bem. Essa vaga paga mais do que qualquer coisa que eu encontraria em Florença agora.
Do outro lado, ela ficou em silêncio tempo suficiente para eu entender que tinha vencido a parte prática da discussão, mas não a emocional.
— Cuidar de uma criança em uma propriedade isolada na Irlanda, com um patrão rico que ninguém conhece, não parece solução. Parece começo de documentário.
Um riso baixo escapou de mim, fraco e cansado.
— Eu vou ficar bem.
— Você sempre fala isso quando está tentando convencer a si mesma.
Olhei para minhas mãos. Os dedos estavam frios, embora o aquecimento do carro estivesse ligado. Havia uma inquietação estranha dentro do meu peito desde que o avião tocou o solo irlandês, como se uma parte minha tivesse acordado antes de mim.
— Minha mãe nasceu aqui — falei, mais baixo, sem saber por que aquilo saiu naquele momento. — Talvez eu só precise entender alguma coisa.
Giulia respirou fundo.
— Sua mãe fugiu daí, Vale.
A palavra me atingiu com uma precisão desconfortável.
Fugiu.
Ninguém dizia isso em voz alta, mas sempre esteve ali, no fundo de cada resposta incompleta, em cada caixa antiga que ela não deixava ninguém abrir, nas noites em que acordava assustada e dizia que tinha sonhado com lobos.
Passei a língua pelos lábios ressecados.
— Ela foi embora há muitos anos.
— E nunca voltou.
Não respondi.
A estrada afundou ainda mais na floresta. As árvores se curvavam sobre o caminho, galhos escuros cruzando o céu como dedos entrelaçados, e a chuva desenhava linhas tortas no vidro. Por um instante, tive a sensação absurda de que havia algo correndo entre os troncos, acompanhando o carro à distância.
Virei o rosto rápido.
Nada.
Só sombra, musgo e neblina.
— Valentina? — Giulia chamou.
— Estou aqui.
— Promete que vai me mandar localização quando chegar.
— Prometo.
— Promete que, se esse homem for estranho, arrogante, abusivo ou bonito demais para ser confiável, você vai embora.
Sorri sem vontade.
— Bonito demais também é motivo?
— Sempre é.
O carro reduziu a velocidade antes que eu conseguisse responder. À frente, um portão de ferro surgiu entre duas colunas de pedra cobertas por hera. O símbolo no alto me chamou atenção, um desenho antigo, entrelaçado, quase familiar de um jeito que me deu um arrepio na nuca.
O motorista baixou o vidro e digitou um código sem falar.
O portão se abriu lentamente.
Meu coração bateu mais forte.
— Cheguei — sussurrei.
Giulia mudou o tom imediatamente.
— Me manda mensagem. Agora.
— Vou mandar.
— Valentina.
— Eu sei.
Desliguei antes que ela pudesse dizer para eu fugir mais uma vez.
ValentinaSenti o homem antes de vê-lo.A casa já era estranha desde o primeiro passo, mas aquela sensação foi diferente. Não era o frio das paredes, nem o peso dos retratos, nem o silêncio antigo que parecia pousar sobre os móveis como poeira. Foi uma pressão repentina no ar, como se alguém tivesse entrado em um cômodo e, sem dizer nada, obrigasse tudo ao redor a se reorganizar.Aoife, que segurava minha mão, ficou completamente imóvel.Fiona também.Essa reação me fez virar antes mesmo
CillianEu a senti antes de vê-la.A chuva tinha entrado na mansão com o primeiro abrir da porta, trazendo o cheiro comum da noite irlandesa, pedra molhada, terra revolvida, vento frio e folhas esmagadas sob pneus. Eu estava no corredor superior, perto da janela que dava para a entrada principal, ouvindo Niall falar sobre a movimentação do conselho, sobre Seamus exigindo respostas, sobre meu pai tratando meu silêncio como fraqueza.Depois ela atravessou o limiar.E todo o resto perdeu importância.Meu corpo reconheceu.Não minha mente.Não minha vontade.Meu corpo.O ar mudou primeiro. Tornou-se mais denso, mais quente, como se a casa inteira prendesse a respiração comigo. O lobo dentro de mim, sempre atento, sempre contido sob anos de disciplina, ergueu a cabeça com uma violência silenciosa que quase me fez fechar os punhos.Ela estava no hall, com os cabelos castanho claros úmidos pela garoa, a pele clara marcada pelo frio, uma mala ao lado e os olhos atentos demais para alguém que
ValentinaEla sustentou meu olhar sem baixar a cabeça. Era pequena perto de mim, humana em aparência, recém-chegada, dependente daquele emprego, cercada por uma casa que claramente a assustava. Mesmo assim, me enfrentava como se medo nenhum tivesse direito de decidir por ela.Meu instinto reagiu com orgulho.Minha razão tentou esmagar isso.— Você ouviu parte de uma conversa que não deveria.— Eu vi uma sombra na floresta, ouvi um uivo, encontrei uma criança descalça no corredor e fui chamada de italiana humana como se isso fosse um defeito. Minha noção de “deveria” está bastante prejudicada hoje.Quase sorri.Não sorri.— Ninguém aqui vai machucar você.— Essa frase seria mais reconfortante se alguém tivesse tentado me explicar por que eu precisaria ser machucada.Ela era rápida.Mais rápida do que eu gostaria.— A propriedade é antiga. Existem conflitos familiares. Pessoas de fora nem sempre entendem a dinâmica.Valentina inclinou o rosto.— Essa é a versão educada?— É a versão pos
ValentinaO quarto de Aoife parecia menor quando estávamos apenas nós duas.Talvez porque, sem os adultos tensos ao redor, a tristeza dela ocupasse mais espaço. Estava nos brinquedos arrumados demais, na cama impecável demais, nos desenhos colados com cuidado, nos vestidos pendurados em um cabideiro infantil sem nenhum amassado de uso recente. Crianças saudáveis bagunçavam. Crianças seguras deixavam rastros. Aoife parecia viver tentando não perturbar a casa.Sentei no tapete ao lado dela, sem perguntar se podia. Havia momentos em que pedir permissão criava distância demais, e a menina já tinha vivido distância suficiente.Ela abriu uma caixa de madeira com livros pequenos, alguns gastos pelo uso, outros tão novos que pareciam nunca ter sido tocados. Escolheu um com capa verde e colocou no meu colo.— Minha mãe lia esse.Passei os dedos pela borda.— Você quer que eu leia?Aoife assentiu, sentando perto, mas não encostada. Havia cautela na forma como ela se aproximava, como um passarin
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