Capítulo 2

Valentina

O carro avançou pela propriedade, e a mansão apareceu aos poucos, surgindo da névoa como se tivesse sido construída pela própria terra, pedra escura, janelas altas, telhado antigo, uma beleza sombria que não tentava acolher ninguém. A casa não parecia abandonada, mas também não parecia habitada do jeito comum. Havia luzes acesas em algumas janelas, fumaça saindo de uma chaminé distante e uma sensação pesada ao redor, como se aquele lugar guardasse segredos demais dentro das paredes.

Quando o carro parou, fiquei alguns segundos sem me mover.

O motorista saiu, retirou minha mala do porta-malas e a colocou ao meu lado.

— O senhor O’Rourke foi avisado da sua chegada.

A voz dele me surpreendeu, grave, impessoal, como se cada palavra tivesse sido escolhida para não entregar nada.

— Obrigada.

Ele apenas inclinou a cabeça.

Fiquei sozinha diante da mansão.

O vento soprou mais forte, trazendo cheiro de terra molhada, madeira antiga e algo selvagem que não consegui identificar. Meu corpo reagiu antes da minha mente, a pele se arrepiando, o estômago apertando, uma vontade irracional de dar um passo para trás misturada com outra, ainda mais estranha, de seguir em frente.

Subi os degraus.

Antes que eu tocasse a aldrava, a porta abriu.

Uma mulher de cabelos escuros presos e expressão rígida apareceu no vão, usando um vestido sóbrio e um olhar que parecia avaliar mais do que minha aparência.

— Senhorita Moretti.

— Sim.

— Sou Fiona Kelly. Governanta da casa.

A forma como ela disse casa me fez pensar que aquela palavra tinha um peso diferente ali.

— Prazer em conhecê-la.

Ela não sorriu, mas seus olhos suavizaram por um instante quase imperceptível.

— Entre. Está fria demais para ficar do lado de fora.

Puxei a mala e atravessei a porta.

O calor da lareira me tocou primeiro. Depois veio o cheiro da casa, cera, pedra úmida, livros antigos, chá escuro e um fundo de floresta que parecia ter entrado pelas frestas e decidido morar ali. O hall era amplo, com escadaria de madeira, retratos antigos nas paredes e um silêncio tão espesso que até meus passos pareceram inadequados.

— O senhor O’Rourke está em uma reunião — Fiona informou. — Antes de falar com ele, a senhora pode descansar alguns minutos.

Senhora.

A palavra me fez franzir o cenho, mas não corrigi. Talvez fosse apenas costume.

— Eu prefiro conhecer a criança, se for possível.

Fiona parou por um segundo.

Foi pouco.

Ainda assim, notei.

— Aoife não costuma receber bem pessoas novas.

— Entendo.

— Ela perdeu os pais recentemente.

A frase veio firme, mas havia algo de cuidado nela.

Minha garganta apertou.

— Eu sei. Sinto muito.

Fiona me observou como se procurasse alguma falsidade no meu rosto. Talvez tenha encontrado apenas cansaço. Talvez tenha encontrado a parte de mim que sempre se inclinava na direção de crianças feridas, mesmo quando eu mesma não sabia onde colocar as próprias dores.

— Espere aqui.

Ela saiu por um corredor lateral.

Fiquei no hall, segurando a alça da mala com força, enquanto a casa rangia ao redor. Em algum lugar distante, uma porta bateu. O vento gemeu pelas janelas. Olhei para um retrato na parede e encontrei olhos verdes pintados em um rosto antigo, duros, vigilantes, quase vivos.

Então ouvi passos pequenos.

Lentos.

Virei.

A menina estava parada no alto da escada.

Tinha cabelos castanho claros, longos e ondulados, caindo sobre os ombros em desordem, pele clara, bochechas coradas e olhos verdes grandes demais para uma criança tão pequena carregar tanta tristeza. Ela segurava um coelho de pano contra o peito e me encarava sem medo.

Meu coração se apertou de um jeito imediato.

— Oi — falei, com cuidado.

Ela desceu um degrau.

Depois outro.

Fiona apareceu atrás dela, tensa, como se esperasse uma reação ruim.

A menina não olhou para a governanta.

Olhou apenas para mim.

— Você veio.

A simplicidade da frase me desconcertou.

— Vim.

— Demorou.

Senti o ar sair devagar dos meus pulmões.

Não havia acusação na voz dela. Havia certeza. Uma certeza absurda, íntima, como se ela tivesse esperado por mim antes mesmo de saber meu nome.

Ajoelhei no primeiro degrau, mantendo distância suficiente para não assustá-la.

— Eu sou Valentina.

— Eu sei.

Fiona ficou imóvel.

Meu coração bateu errado.

— Sabe?

Aoife assentiu, abraçando o coelho com mais força.

— Sonhei com você.

O frio da chuva pareceu voltar para dentro de mim.

Antes que eu pudesse responder, um som diferente atravessou o corredor.

Passos adultos.

Firmes.

Controlados.

A presença chegou antes do homem.

Senti primeiro no silêncio da casa, que mudou, como se tudo ao redor tivesse se endireitado para recebê-lo. Depois senti no meu corpo, uma pressão estranha na pele, no peito, na boca do estômago, algo que me fez levantar antes mesmo de vê-lo.

Cillian O’Rourke apareceu no fim do corredor.

Alto, vestido de preto, cabelos escuros ainda úmidos, barba curta, ombros largos sob o casaco pesado e olhos verdes tão intensos que roubaram por um segundo todo o calor do hall.

Ele parou ao me ver.

Não pareceu surpreso.

Pareceu atingido.

O olhar dele desceu pelo meu rosto com uma lentidão perigosa, como se reconhecesse cada traço, como se eu fosse uma resposta que ele odiava ter recebido e, ao mesmo tempo, não pudesse rejeitar.

Aoife desceu os últimos degraus e veio até mim.

A mão pequena encontrou a minha.

Cillian olhou para nossos dedos unidos.

Algo endureceu em seu rosto.

— Senhorita Moretti — ele disse.

A voz dele era baixa, profunda, controlada demais para ser gentil.

— Senhor O’Rourke.

Ele caminhou até nós, e cada passo pareceu diminuir o espaço do hall. Quando parou diante de mim, precisei erguer o rosto. O cheiro dele me alcançou, chuva, couro, madeira escura e uma nota quente que fez meu corpo reagir de um jeito que me irritou.

— A viagem foi confortável?

— Longa.

O canto da boca dele quase se moveu, mas não chegou a ser sorriso.

— A Irlanda costuma parecer longa para quem tenta deixá-la fora da própria vida.

Prendi a respiração.

— Eu nunca estive aqui antes.

— Não foi isso que eu disse.

A frase entrou em mim como uma chave girando numa fechadura antiga.

Fiona baixou os olhos.

Aoife apertou minha mão.

Eu deveria ter perguntado o que aquilo significava. Deveria ter dado um passo atrás, exigido clareza, lembrado a mim mesma que aquele homem era apenas meu possível empregador e que eu não devia permitir que ele falasse comigo como se soubesse algo sobre o meu sangue, minha mãe ou minhas escolhas.

Mas a porta principal se abriu com violência atrás de nós.

Um homem entrou apressado, molhado pela chuva, rosto tenso.

— Cillian, o conselho está reunido. Eles souberam que ela chegou.

O olhar de Cillian não saiu do meu.

Nem por um segundo.

— Então diga a eles — ele respondeu, numa calma que fez meu estômago afundar — que a mulher que eu esperava está dentro da minha casa.

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