Cap. 7

Cillian

Aoife sorriu.

Não foi um sorriso inteiro, livre, igual aos que tinha antes de Ronan e Siobhan serem enterrados sob a chuva fria de novembro. Não foi o riso alto que costumava atravessar a casa quando meu irmão a erguia nos braços e fingia ser derrotado por uma criança de três anos.

Foi apenas uma rachadura pequena na parede que ela construiu ao redor de si.

Mesmo assim, me tirou o chão.

Fiona levou a mão à boca quando Valentina subiu com a menina. Moira teria chorado se estivesse ali. Meu pai ficou rígido, incapaz de entender qualquer emoção que não pudesse ser convertida em decisão. Seamus observava com olhos de conselheiro, calculando significado, risco e consequência.

Eu só conseguia olhar para a mão da minha sobrinha envolvendo os dedos de Valentina.

A casa inteira tinha tentado alcançar Aoife durante meses.

Minha mãe sentava no chão ao lado da cama dela por horas. Fiona levava leite morno, penteava seus cabelos quando ela permitia, fingia não sofrer quando era rejeitada. Eu ficava na porta, noite após noite, ouvindo o choro baixo de uma menina que não aceitava meu colo porque meu cheiro lembrava o pai dela demais.

Quatro cuidadoras foram embora em três meses.

Uma chorou no segundo dia. Outra pediu demissão depois que Aoife passou horas dentro do armário sem responder. A terceira disse que a menina parecia assombrada. A quarta não voltou depois de escutar uivos durante a madrugada.

Valentina Moretti chegou com a chuva, com o sangue adormecido e os olhos da mãe que fugiu da nossa história, e Aoife a segurou como se tivesse encontrado algo que a dor não conseguiu destruir.

Meu lobo sabia.

A criança sabia.

A casa parecia saber.

Eu era o único tentando fingir que ainda existia escolha.

— Isso não é normal — Seamus disse.

Virei o rosto devagar.

O conselheiro mantinha uma expressão severa, mas havia inquietação atrás dela. Ele era velho o bastante para reconhecer instinto quando via, orgulhoso demais para aceitar quando o instinto contrariava a política.

— Cuidado com sua próxima frase — avisei.

Meu pai se aproximou.

Eamon O’Rourke ainda carregava a postura de alfa antigo, embora o título estivesse comigo. Em muitos membros do conselho, essa diferença importava pouco. Para eles, meu pai era tradição viva. Para mim, era uma lâmina que nunca aprendeu a descansar.

— A criança reagiu a ela de forma incomum — ele disse. — Isso precisa ser observado, não romantizado.

— Ninguém está romantizando nada.

— Você está.

Meu olhar encontrou o dele.

A velha disputa entre nós estava sempre ali, mesmo quando falávamos de outra coisa. Ele me olhava e via o filho que precisou substituir o herdeiro mais querido. Eu o olhava e via o homem que transformou meu luto em dever antes que o caixão do meu irmão fosse coberto de terra.

— Valentina foi contratada para cuidar de Aoife — falei.

— Valentina foi trazida para dentro da propriedade no mesmo dia em que o conselho exige uma companheira para o alfa.

Niall se moveu ao meu lado, discreto, preparado para interferir caso meu controle falhasse.

Não falharia.

Não por eles.

— Não misture assuntos.

Seamus soltou um som baixo.

— São o mesmo assunto se você decidir que são.

Meu lobo avançou dentro de mim. O impulso de silenciá-lo fisicamente passou pelo meu corpo antes que a razão o contivesse.

— A reunião acabou.

Meu pai estreitou os olhos.

— Não acabou.

— Na minha casa, acabou quando eu digo que acabou.

O silêncio que se seguiu carregou dentes.

Meu pai deu um passo à frente, baixo o suficiente para que a conversa não subisse pela escada, duro o bastante para me atingir.

— Seu irmão morreu porque confiou demais em sentimentos.

A frase abriu algo antigo dentro de mim.

Niall murmurou meu nome, mas eu já estava perto demais do limite para responder a qualquer aviso.

— Não use Ronan para me dobrar.

— Eu uso Ronan para lembrar que a matilha sangra quando um alfa esquece o que protege.

— Eu não esqueci.

— Então prove escolhendo uma companheira adequada.

Adequada.

Maeve. Sempre Maeve. Uma mulher criada para esperar uma coroa que nunca coloquei em sua cabeça.

Olhei para o alto da escada, onde o cheiro de Valentina ainda pairava, misturado ao de Aoife, chá, chuva e algo doce que meu corpo já reconhecia contra a minha vontade.

— Não vou discutir isso agora.

Seamus respirou fundo.

— Lorcan MacAuley mandou batedores para perto da fronteira norte. Os uivos desta noite não foram todos nossos.

Eu já sabia.

A sombra na floresta não era animal perdido.

Era provocação.

A guerra rondava minha propriedade enquanto uma mulher que não sabia o próprio sangue caminhava pelos corredores com minha sobrinha pela mão. Tudo que eu devia fazer era afastá-la. Pagar uma indenização generosa, mandá-la de volta para a Itália, apagar seu nome antes que os MacAuley entendessem o que ela poderia significar.

Meu corpo rejeitou a ideia com violência.

Minha alma também.

— Patrulhas dobradas — ordenei a Niall. — Ninguém se aproxima da ala leste.

— E Valentina? — meu beta perguntou.

Meu pai soltou uma risada sem humor.

— A humana já virou prioridade?

Não olhei para ele.

Se olhasse, talvez dissesse algo que não poderia retirar.

— Valentina fica sob minha proteção.

Seamus inclinou a cabeça.

— Essa proteção tem nome, Cillian?

Senti meu lobo rosnar por dentro.

O nome existia.

Parceira.

Destino.

Perdição.

— Tem limite — respondi. — E vocês acabaram de encontrá-lo.

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