Cap. 4

Valentina

Virei o rosto para baixo e encontrei Cillian parado exatamente onde o havíamos deixado, mas sua presença parecia ter subido a escada antes dele. Os olhos estavam fixos na sobrinha, e a advertência ali era clara, embora eu não entendesse a razão.

A raiva voltou, pequena, incômoda, alimentada pela sensação de estar cercada por adultos que sabiam o que não queriam que eu soubesse.

Aoife puxou minha mão novamente.

— Meu quarto é por aqui.

Continuei subindo.

Cillian

Eu devia ter mandado Niall levá-la embora no instante em que ela atravessou a porta.

Esse teria sido o gesto sensato.

O gesto de alfa.

O gesto de um homem que conhecia o peso de um vínculo antes que ele destruísse tudo em seu caminho.

Valentina Moretti não deveria estar na minha casa, não com aqueles olhos cor de mel esverdeado observando detalhes que uma humana comum ignoraria, não com aquele rosto que carregava traços de uma linhagem enterrada sob mentiras, não com aquele cheiro invadindo cada corredor da mansão e fazendo o lobo dentro de mim levantar a cabeça como se tivesse encontrado o centro do próprio mundo.

Parceira.

A palavra não foi pensamento.

Foi instinto.

Desde a primeira respiração que puxei ao vê-la no hall, meu corpo reconheceu o que minha razão ainda tentava negar. Havia chuva nela, viagem, cansaço, perfume suave, pele aquecida pelo nervosismo e algo antigo sob tudo isso, algo adormecido, escondido, mas inconfundível para mim.

Sangue de lobo.

Fraco na superfície.

Profundo na origem.

Ela não sabia.

E esse era o único motivo pelo qual ainda estava de pé diante de mim sem fugir.

Observei do hall enquanto Aoife a conduzia pelo corredor superior. Minha sobrinha segurava a mão de Valentina como não segurava a de ninguém desde que Ronan e Siobhan morreram. A criança que gritava quando estranhos tentavam se aproximar, que se escondia sob a cama quando o conselho visitava a mansão, que recusava qualquer cuidadora antes mesmo do primeiro almoço, simplesmente a havia escolhido.

Não por carência.

Por instinto.

O mesmo maldito instinto que me fazia querer subir aquela escada, arrancar Valentina da curiosidade dela, trancá-la longe dos olhos do conselho e manter todo o mundo afastado até eu descobrir como lidar com a violência silenciosa que o vínculo causava em mim.

Fiona se aproximou com passos discretos.

— Ela notou o símbolo.

— Eu vi.

— Aoife quase falou.

Virei o rosto para a governanta.

Fiona sustentou meu olhar por pouco tempo. Ela era leal à minha família havia anos, rígida o bastante para não se assustar facilmente, mas até ela parecia inquieta.

— A menina sente algo por ela — Fiona disse.

— Todos sentimos quando algo muda dentro de casa.

— Não é só isso, Cillian.

Meu maxilar travou.

Não permitia a muitas pessoas o uso do meu nome sem título, sem distância. Fiona tinha conquistado esse direito cuidando de Aoife em noites em que eu não conseguia entrar no quarto da menina sem ver o rosto morto do meu irmão.

— Ela é humana — falei.

A mentira soou inútil até para mim.

Fiona baixou a voz.

— Tem certeza?

Olhei para a escada vazia.

A pergunta não precisava de resposta.

Valentina havia parado diante do nó da família como se a madeira tivesse chamado seu sangue. Havia reconhecido sem entender. A inquietação em seu rosto não era curiosidade de visitante, era memória herdada se movendo no escuro.

Meu pai diria que isso era mau presságio.

Brigid diria que sangue antigo sempre encontra o caminho de volta.

Eu queria que todos estivessem errados.

Niall entrou sem bater pela porta lateral do corredor, trazendo com ele cheiro de chuva, ferro e floresta. Meu beta estava tenso. Isso raramente era bom.

— O conselho não vai esperar até amanhã.

— Eles vão esperar o quanto eu mandar.

— Seamus já sabe que ela chegou. Maeve também.

O nome dela fez meu lobo reagir com irritação.

Maeve Gallagher esperava ocupar um lugar que nunca prometi. O conselho alimentou a esperança dela porque era conveniente. Uma loba forte, nascida dentro da matilha, educada nas tradições, ambiciosa o bastante para gostar do poder e inteligente o bastante para fingir que chamava isso de dever.

Ela seria a escolha perfeita para um alfa que quisesse apenas estabilidade política.

Eu nunca quis Maeve.

Meu silêncio foi longo demais, e Niall entendeu.

— Eles vão questionar o motivo de uma estrangeira ter sido trazida para dentro da propriedade no meio da tensão com os MacAuley.

— Ela foi contratada para Aoife.

— Todos sabemos que não é só isso.

Virei completamente para ele.

Niall não recuou. Era por isso que eu confiava nele. Lealdade cega era útil em soldados. Em um beta, era perigosa.

— Cuidado — avisei.

— Estou tendo. É por isso que estou falando antes que seu pai fale.

A menção a Eamon tornou o hall mais frio.

Meu pai já havia perdido um filho e transformado o luto em cobrança. Para ele, a matilha vinha antes da dor, antes da família, antes do amor. Talvez sempre tivesse sido assim. Talvez ser alfa por tempo demais arrancasse de um homem a capacidade de separar proteção de controle.

Olhei para o corredor superior.

Valentina estava lá em cima com Aoife, respirando dentro da minha casa, tocando o corrimão da minha família, acordando segredos que haviam permanecido enterrados tempo suficiente para parecerem mortos.

— Quero patrulhas dobradas na ala norte — ordenei. — Ninguém se aproxima das janelas dela. Ninguém fala sobre matilha, vínculo, lua ou qualquer coisa que ela não possa entender.

Niall estreitou os olhos.

— Então você sabe.

A frase ficou entre nós.

Eu poderia negar.

Seria inútil.

— Sei o suficiente.

— Ela é sua?

O lobo dentro de mim avançou contra a palavra como se fosse ameaça.

Minha.

Não era posse humana, embora ela fosse ouvir assim se algum dia eu dissesse. Era mais antigo, mais perigoso, um reconhecimento que me atravessava a carne e exigia que eu a protegesse antes mesmo de saber se ela desejava minha proteção.

— Ela não sabe o que é — respondi.

Niall respirou devagar.

— Cillian.

— Não.

— Você não pode esconder isso dela por muito tempo.

— Posso esconder o bastante para mantê-la viva.

— Ou o bastante para fazê-la odiar você quando descobrir.

A verdade me atingiu com precisão, mas não mudei a expressão.

Eu já havia sido odiado antes. Pelo conselho, por inimigos, por homens que queriam minha posição, por mulheres que confundiram recusa com insulto. Poderia suportar o ódio de Valentina se isso significasse que ela respiraria.

O problema era que o vínculo dentro de mim não raciocinava assim.

Ele já detestava a possibilidade.

— Traga Seamus para a sala do conselho — falei. — Meu pai também. Quero resolver isso antes que tentem chegar até ela.

— Resolver como?

Olhei para o topo da escada, onde o cheiro de Valentina ainda parecia preso ao ar.

— Do meu jeito.

Valentina

O quarto de Aoife ficava na ala leste, atrás de uma porta pintada de verde suave, com pequenas flores desenhadas à mão próximas à maçaneta. Era o primeiro espaço da casa que parecia pertencer a alguém vivo. Havia livros infantis empilhados perto da cama, um tapete macio diante da lareira apagada, bonecas alinhadas em uma poltrona e desenhos presos na parede com fita.

A maioria mostrava três pessoas.

Um homem alto.

Uma mulher ruiva.

Uma menina de cabelos castanhos.

Em alguns desenhos, havia uma quarta figura pintada com lápis mais claro, quase sem rosto, sempre ao lado da menina.

Cheguei mais perto antes de perceber que estava prendendo a respiração.

— Você desenhou sua família?

Aoife assentiu.

— Esse é meu pai. Essa é minha mãe.

A voz dela não quebrou, e talvez por isso a minha quase tenha quebrado. Havia dores que crianças aprendiam a dizer sem chorar porque já tinham chorado tudo antes.

Toquei de leve a borda de um papel.

— Eles parecem felizes.

— Eram.

Fiquei quieta, respeitando a simplicidade brutal daquela resposta.

— E essa pessoa aqui? — perguntei, apontando para a figura clara.

Aoife se aproximou, ficando ao meu lado.

— Eu não sabia o rosto ainda.

Meu braço arrepiou.

— Ainda?

Ela olhou para mim com naturalidade.

— Agora sei.

O quarto ficou pequeno demais para o meu desconforto.

Tentei sorrir, mas não consegui.

— Aoife, você sonhou comigo quando?

— Muitas vezes.

A chuva bateu na janela com mais força.

Lá fora, a floresta se movia sob a névoa. Havia algo hipnótico naquelas árvores, na maneira como pareciam se aproximar da mansão, como se a casa não estivesse cercada por elas, mas guardada.

— E o que acontecia nesses sonhos?

Aoife abraçou o coelho.

— Você vinha quando eu chamava.

Meu peito doeu.

Sentei na beirada da cama sem pedir permissão, porque minhas pernas precisavam de apoio e porque aquela criança estava desfazendo minhas defesas com uma facilidade assustadora.

— Você chamou?

Ela assentiu.

— Todas as noites.

A porta rangeu.

Fiona entrou com uma bandeja de chá e biscoitos, mas sua expressão mudou quando percebeu nossa posição junto aos desenhos. Ela pousou a bandeja sobre uma mesinha com cuidado exagerado.

— Senhorita Moretti, seu quarto está pronto.

Aoife segurou minha manga.

— Ela fica perto?

— Fica na ala dos hóspedes — Fiona respondeu.

A menina franziu a testa.

— É longe.

— É adequado.

A forma como Fiona disse aquilo deixou claro que havia mais uma regra invisível naquela casa.

Levantei devagar.

— Eu posso vê-la mais tarde.

Aoife me encarou.

— Promete?

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