Mundo ficciónIniciar sesiónValentina
A frase de Cillian ficou suspensa no ar como uma ameaça vestida de boas maneiras.
A mulher que eu esperava está dentro da minha casa.
Não havia intimidade suficiente entre nós para que aquelas palavras coubessem em qualquer explicação aceitável. Eu tinha acabado de chegar, ainda sentia o gosto metálico do medo da viagem na boca, ainda carregava o frio da Irlanda na pele e, mesmo assim, aquele homem falava como se a minha presença não fosse contratação, acaso ou necessidade, mas algo aguardado por ele.
A mão pequena de Aoife continuava presa à minha, quente, firme, com uma confiança que eu não sabia se me comovia ou me assustava.
O homem molhado na porta desviou o olhar para mim, depois para Cillian, e o silêncio que veio depois carregou um respeito quase pesado demais para ser apenas profissional. Não era o tipo de respeito que funcionários tinham por patrões ricos. Era obediência. Uma obediência que parecia antiga, aprendida antes mesmo da palavra ser dita.
Cillian não precisou repetir nada.
O homem apenas inclinou a cabeça.
— Direi a eles.
Ele saiu, fechando a porta com cuidado, como se a pressa tivesse acabado no exato instante em que recebeu uma ordem.
Engoli em seco.
A casa parecia maior por dentro. Talvez fosse a altura do teto, os corredores escuros, as sombras concentradas nos cantos ou a quantidade de portas fechadas que davam a impressão de que cada uma escondia uma vida inteira atrás da madeira. O fogo da lareira não conseguia aquecer o hall por completo. Havia calor perto das chamas, sim, mas além dele tudo permanecia frio, guardado, vigiando.
Eu me obriguei a soltar a mão de Aoife com delicadeza, porque precisava lembrar a mim mesma que estava ali para trabalhar, não para ser absorvida por uma família estranha antes de entender onde tinha colocado os pés.
Ela não gostou.
Seus dedos se fecharam por um segundo, como se quisessem impedir minha retirada, e aquilo doeu em um lugar meu que eu não esperava. Eu sempre tive uma fraqueza perigosa por crianças que pareciam carregar tristeza demais. Talvez porque minha própria infância tivesse sido feita de perguntas respondidas pela metade, de uma mãe que me amava com um medo que eu nunca compreendi, de uma casa italiana cheia de sol onde certos assuntos permaneciam tão fechados quanto aquelas portas.
— Aoife — Fiona chamou, com voz baixa e cuidadosa — a senhorita Moretti precisa se instalar.
A menina não respondeu.
Continuou me encarando.
Os olhos verdes dela eram muito parecidos com os de Cillian, mas sem a dureza. Havia neles uma sinceridade inquietante, quase uma certeza que não combinava com seus cinco anos.
— Você vai embora? — ela perguntou.
A pergunta veio tão direta que senti o peito apertar.
Eu me abaixei um pouco, tentando ignorar a presença de Cillian atrás de mim, pesada como tempestade presa no horizonte.
— Não hoje.
— Amanhã?
Meu coração vacilou.
Eu deveria ter dado uma resposta profissional, suave, daquelas que adultos usam quando não querem prometer nada. Deveria ter dito que dependia da entrevista, do contrato, da adaptação, da decisão do senhor O’Rourke. Mas havia um desamparo quieto no rosto dela que arrancou minha cautela antes que eu pudesse segurá-la.
— Eu vim para ficar um tempo — respondi.
A expressão dela mudou tão pouco que qualquer outra pessoa talvez nem percebesse. Eu percebi. O que estava rígido afrouxou, o que estava escondido respirou.
Cillian também percebeu.
Eu senti antes de olhar.
Quando ergui o rosto, ele estava me observando com uma intensidade desconfortável, e pela primeira vez não vi apenas frieza. Havia algo por trás dela, algo que ele mantinha preso com disciplina brutal, como se cada reação sua fosse medida, reprimida e guardada em algum lugar escuro demais para visita.
— Fiona vai mostrar seu quarto — ele disse.
A voz dele retomou aquele controle absoluto.
— E depois conversaremos sobre minhas funções? — perguntei, fazendo questão de manter a coluna reta.
Os olhos verdes dele pousaram na minha boca por uma fração de segundo, rápido o suficiente para eu quase duvidar, lento o bastante para meu corpo responder com uma tensão absurda.
— Depois.
A palavra não foi rude.
Foi definitiva.
Eu não gostei da sensação de que ele não estava sugerindo um horário, e sim decidindo uma parte do meu dia como se eu já pertencesse à rotina daquela casa. O impulso de contestar subiu rápido, alimentado por cansaço, orgulho e por uma inquietação que continuava se espalhando por mim desde que atravessei o portão.
— Senhor O’Rourke, eu prefiro clareza desde o início.
Fiona ficou imóvel ao meu lado.
Aoife olhou de mim para ele.
Cillian inclinou a cabeça muito lentamente, como se minha frase tivesse provocado uma curiosidade perigosa.
— Clareza sobre o quê?
— Sobre o trabalho, sobre as regras, sobre o motivo de terem me trazido de tão longe para cuidar de uma criança quando claramente existem pessoas suficientes nesta propriedade.
O silêncio que se seguiu não foi vazio.
Ele cresceu.
A casa pareceu escutar.
Cillian deu um passo na minha direção, apenas um, e eu odiei perceber que meu corpo identificou sua aproximação antes da minha mente formular qualquer reação. Ele era grande demais, presente demais, e havia nele uma espécie de força contida que tornava o ar mais denso ao redor.
— Aoife não aceitou nenhuma delas.
A menina baixou o rosto e abraçou o coelho de pano.
Meu incômodo cedeu espaço a algo mais delicado.
— Quantas cuidadoras tentaram?
Fiona respondeu antes dele, como se quisesse amenizar o peso.
— Quatro.
Olhei para Aoife.
— Em quanto tempo?
Fiona hesitou.
— Três meses.
Aquela informação entrou em mim com força.
Três meses. Quatro cuidadoras. Uma menina órfã, uma casa antiga, um tio frio e um luto ainda fresco demais nas paredes.
Senti vontade de tocar o ombro de Aoife, mas me segurei. Afeto também podia assustar quando chegava cedo demais.
— Eu entendo — falei, mais baixo.
— Não entende ainda — Cillian disse.
Meu olhar voltou para ele.
A frase tinha mais camadas do que deveria. Não parecia se referir apenas à dificuldade de cuidar de uma criança enlutada.
— Então me explique.
Algo nos olhos dele se fechou.
— No momento certo.
Eu quase ri, sem humor.
— Essa casa tem muitas respostas guardadas para o momento certo?
Fiona inspirou de leve.
Cillian não se alterou.
— Tem mais do que você gostaria.
A honestidade inesperada me calou.
Por um instante, não soube se aquilo era aviso, provocação ou uma tentativa torta de me proteger. Talvez fosse tudo ao mesmo tempo, e essa possibilidade me incomodou ainda mais.
Aoife se aproximou novamente e tocou a manga do meu casaco.
— Eu posso mostrar meu quarto para ela?
Fiona abriu a boca para responder, mas Cillian levantou a mão, impedindo-a sem olhar.
— Pode.
A menina pareceu ganhar vida naquele pequeno consentimento. Segurou minha mão de novo e começou a me puxar pela escada, como se tivesse esperado tanto por aquele momento que não pretendesse desperdiçar mais nenhum segundo.
Subi com ela.
A madeira antiga rangeu sob nossos passos. Ao lado da escadaria, retratos de gerações O’Rourke acompanhavam a subida, homens e mulheres de olhos claros, expressões severas, roupas de outras épocas. Havia uma continuidade neles que me deu a sensação de caminhar dentro de uma linhagem, não de uma casa. Cada rosto parecia ocupar seu lugar com uma autoridade silenciosa, e no alto da parede, acima de todos, havia um símbolo entalhado na moldura: três linhas entrelaçadas ao redor de algo que lembrava uma lua.
Meu coração apertou sem motivo.
Minha mãe tinha um pingente parecido.
Lembrei dele escondido sob a blusa dela durante a minha infância, aparecendo só quando ela se inclinava para me colocar na cama ou quando preparava molho de tomate na cozinha da nossa casa em Florença. Quando eu perguntava, ela dizia que era apenas uma lembrança antiga. Quando cresci e toquei no assunto de novo, ela o guardou em uma caixa e nunca mais usou.
Parei no meio da escada.
Aoife percebeu.
— Você viu?
A voz dela era baixa.
Olhei para a menina.
— Vi o quê?
Ela apontou para a moldura.
— O nó.
Um frio sutil percorreu minha nuca.
— Você sabe o que significa?
Aoife abriu a boca, mas Cillian falou antes, do hall.
— Aoife.
Não foi um grito.
Nem precisou ser.
A menina fechou os lábios no mesmo instante.







