Cap. 5

Valentina

Promessas para crianças deveriam ser dadas com cautela. Minha mãe dizia isso. Ela também prometeu que me contaria sobre a Irlanda quando eu fosse mais velha, e a morte chegou antes da verdade.

— Prometo tentar.

Aoife não pareceu satisfeita.

— Promete de verdade.

Fiona ficou tensa novamente.

Eu deveria ter oferecido uma resposta leve, mas a solidão dela tocou fundo demais.

— Prometo.

A menina soltou minha manga.

Quando saí do quarto, senti como se tivesse deixado algo meu lá dentro.

Fiona caminhou comigo pelo corredor. As janelas eram altas e estreitas, deixando entrar uma luz cinza que parecia não tocar o chão. A cada porta fechada, minha curiosidade crescia, embora eu tentasse empurrá-la para longe. Havia alas proibidas em casas antigas, eu dizia a mim mesma. Havia regras de família, privacidade, luto. Nem tudo precisava ser conspiração.

Ainda assim, meu corpo não acreditava em mim.

— A casa é grande — falei, tentando soar casual.

— Grande demais para quem não conhece os caminhos.

— Parece fácil se perder.

— É.

Esperei que ela continuasse.

Ela não continuou.

— Existem áreas onde eu não devo entrar?

— Sim.

A resposta veio seca.

— Vai me dizer quais?

Fiona parou diante de uma porta no fim do corredor.

— A ala oeste está fechada. A biblioteca só pode ser usada com autorização. A floresta é proibida sem acompanhamento. Depois do anoitecer, a senhorita deve permanecer dentro da casa.

Encarei-a.

— Isso é uma propriedade ou uma prisão bonita?

Pela primeira vez, algo parecido com pena atravessou o rosto dela.

— É um lugar antigo, senhorita Moretti. Lugares antigos têm regras que nasceram de coisas que pessoas novas não entendem.

— E o senhor O’Rourke espera que eu obedeça sem entender?

— O senhor O’Rourke espera que todos sobrevivam ao que não entendem.

A frase me calou.

Fiona abriu a porta.

Meu quarto era amplo, elegante e frio. Havia uma cama grande com colcha clara, cortinas pesadas, uma lareira apagada, uma escrivaninha perto da janela e um vaso com flores brancas sobre a cômoda. Minha mala já estava aos pés da cama, embora eu não tivesse visto ninguém subi-la.

Aproximei-me da janela.

A vista dava para a floresta.

Árvores intermináveis, névoa baixa e, ao longe, uma linha de pedras antigas formando um círculo quase escondido pelo musgo.

Meu coração bateu mais forte.

— O que é aquilo?

Fiona veio até metade do quarto, mas não se aproximou da janela.

— Pedras antigas.

— Eu percebi.

— Não vá até lá.

Virei para ela.

— Por quê?

— Porque não é seguro.

— Por causa de animais?

Fiona demorou um pouco demais para responder.

— Entre outras coisas.

O incômodo subiu pela minha garganta.

— Todos aqui falam como se as palavras custassem dinheiro.

Ela sustentou meu olhar por um instante.

— Algumas custam mais.

Antes que eu pudesse responder, um som veio da floresta.

Baixo.

Distante.

Tão profundo que pareceu atravessar o vidro e se espalhar pelo meu peito.

Um uivo.

Meu corpo congelou.

Não era como nos filmes, nem como qualquer som que eu tivesse ouvido de um cachorro. Havia dor nele. Havia chamado. Havia uma nota longa e grave que fez meus olhos arderem sem motivo.

Dei um passo involuntário em direção à janela.

Fiona segurou meu braço.

O toque foi rápido, mas firme.

— Afaste-se.

Olhei para a mão dela no meu braço.

Depois para o rosto dela.

— Era um lobo?

Ela soltou-me no mesmo instante.

— Há animais na floresta.

— Lobos?

— Animais.

A repetição me deu a resposta que ela não queria dar.

Meu coração continuava acelerado, mas não era apenas medo. Havia algo dentro de mim respondendo àquele som, uma inquietação que parecia velha demais para ter começado naquele dia.

Lembrei da minha mãe acordando de madrugada, suor na testa, mão no pingente escondido no peito.

Sonhei com lobos, ela dizia.

E depois fechava todas as janelas.

— Preciso falar com Cillian — falei.

Fiona ficou séria.

— Senhor O’Rourke está ocupado.

— Eu também estou cansada de respostas pela metade.

Dei um passo em direção à porta.

Ela não me impediu, mas sua voz me alcançou antes que eu saísse.

— Cuidado com o modo como desafia homens que carregam mais do que parecem.

Parei com a mão na maçaneta.

— Eu cresci com uma mãe que fugia de fantasmas sem me dizer seus nomes, Fiona. Não atravessei meio continente para obedecer novos fantasmas.

Saí antes que ela respondesse.

O corredor parecia diferente agora. Mais estreito. Mais escuro. Talvez fosse a chuva engrossando lá fora, talvez fosse o uivo ainda vibrando dentro do meu corpo, talvez fosse apenas aquela casa encontrando formas de me fazer duvidar da minha própria coragem.

Desci a escada seguindo vozes masculinas.

Não precisei procurar muito.

Elas vinham de uma porta entreaberta no corredor lateral, baixa o bastante para serem discussão, contidas o suficiente para pertencerem a pessoas acostumadas a esconder conflitos.

Aproximei-me.

Eu sabia que não deveria.

Meu bom senso, cansado mas ainda vivo, me avisou que escutar conversas atrás de portas era péssimo começo para qualquer emprego. Minha intuição respondeu que aquele emprego já tinha começado errado muito antes de mim.

A voz de Cillian veio primeiro.

— Ela fica.

Outro homem respondeu, mais velho, mais duro.

— Você trouxe uma desconhecida para dentro da nossa casa em um momento de ameaça.

— Eu trouxe uma cuidadora para Aoife.

— Não insulte o conselho com mentiras pequenas.

Meu coração subiu para a garganta.

Uma terceira voz entrou, grave e cortante.

— A criança pode gostar dela, mas isso não explica sua reação. Nem a forma como você olha para aquela mulher.

Silêncio.

Meu corpo se aproximou mais um centímetro da fresta.

— Cuidado, Seamus — Cillian disse.

A voz dele estava baixa demais.

Perigosa demais.

— A matilha precisa de estabilidade — o homem continuou. — Precisa de uma companheira legítima ao seu lado, não de uma italiana humana que tropeçou aqui por conveniência.

Italiana humana.

A expressão me atingiu com estranheza. Como se humana fosse defeito, categoria inferior, risco.

Minha respiração ficou presa.

Outra voz, mais fria e conhecida de algum modo pelo peso autoritário, falou em seguida.

— Se pretende usá-la por causa da menina, faça isso com discrição. Não permita que essa mulher confunda caridade com posição.

Senti raiva.

Raiva limpa, quente, necessária.

Eu estava prestes a empurrar a porta quando Cillian respondeu.

— Ninguém vai tocar nela.

A sala ficou muda.

— Ninguém vai testá-la, humilhá-la, ameaçá-la ou falar dela como se eu não pudesse ouvir. Valentina está sob minha proteção enquanto respirar dentro desta propriedade.

Meu coração bateu com tanta força que quase me denunciou.

Eu não queria gostar daquilo.

Não queria sentir alívio ao ouvir um homem que mal me conhecia me defender com aquela violência contida.

Não queria me perguntar por que a proteção dele parecia menos uma gentileza e mais uma reivindicação.

Um passo soou atrás de mim.

Virei de súbito.

Aoife estava no corredor, descalça, segurando o coelho de pano.

O rosto dela estava pálido.

— Você ouviu? — sussurrei, indo até ela.

Ela não olhou para a porta.

Olhou para a janela ao fim do corredor.

A chuva escorria pelo vidro.

Lá fora, entre a névoa e as árvores, havia uma sombra parada.

Grande.

Escura.

Imóvel.

Meu sangue gelou.

— Aoife…

A menina segurou minha mão com força.

Os olhos verdes dela estavam enormes.

— Ele também ouviu você.

 

 

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