A inquietação não desapareceu de um dia para o outro. Ela apenas mudou de lugar. Júlia percebeu isso ao acordar naquela manhã seguinte: o peso no peito já não pressionava tanto, mas ainda estava ali, como uma pergunta sem resposta definitiva.
Daniel dormia profundamente. Júlia observou o rosto dele por alguns instantes, sentindo algo novo misturado ao amor: responsabilidade compartilhada. Não no sentido de obrigação, mas no de cuidado mútuo. Ela não queria ser poupada. Queria ser verdadeira.
Levantou-se em silêncio e foi até a cozinha. Preparou café, abriu a janela, deixou o ar da manhã circular. Enquanto mexia a colher na xícara, pensou em quantas versões de si mesma já tinham existido. Quantas ainda viriam.
Quando Daniel apareceu, percebeu de imediato que o dia começaria diferente.
— Você acordou pensativa — ele disse, sentando-se à mesa.
— Acordei consciente — Júlia respondeu. — Não é ruim. Só… é novo.
Ele assentiu, sem pressa.
— Quer falar agora ou prefere deixar o dia falar um po