A noite caiu devagar, como se o tempo tivesse aprendido a respeitar o ritmo deles. Júlia estava sentada no tapete da sala, cercada por caixas abertas, envelopes espalhados, lembranças que não sabiam mais onde morar. O apartamento parecia diferente quando se começa a empacotar a vida. Cada objeto ganha peso emocional. Cada escolha carrega um pequeno adeus.
Daniel a observava encostado na porta, com uma xícara de café já frio nas mãos. Havia algo bonito naquela cena doméstica, quase banal, e ainda assim carregada de significado. Não era apenas uma mudança de endereço. Era a confirmação de que eles estavam avançando.
— Você percebeu que estamos mesmo fazendo isso? — Júlia perguntou, sem levantar o olhar.
— Mudando de casa ou de vida? — ele respondeu.
Ela riu de leve.
— As duas coisas.
Daniel se aproximou e sentou ao lado dela, pegando uma fotografia antiga que estava sobre o tapete. Júlia mais jovem, sorrindo, ao lado dos pais.
— Às vezes parece que vivi várias versões de mim mesma — ela