O convite chegou numa tarde comum, desses dias em que nada parece anunciar grandes viradas. Júlia estava sentada à mesa da cozinha, folheando distraidamente um caderno antigo quando encontrou, entre páginas amareladas, anotações feitas com outra caligrafia. A dela, anos atrás. Fragmentos de pensamentos, sonhos interrompidos, planos que nunca chegaram a existir de verdade.
Daniel observava de longe, encostado no balcão, atento demais para alguém que fingia casualidade.
— O que foi? — perguntou.
Júlia levantou o olhar, os olhos marejados, mas serenos.
— Eu estava lendo coisas que escrevi antes do acidente — disse. — E percebi que aquela Júlia achava que amor era certeza. Que segurança vinha de promessas feitas cedo demais.
Daniel se aproximou.
— E o que essa Júlia diria da mulher que você é hoje?
Ela sorriu.
— Diria que eu demorei… mas aprendi.
Antes que Daniel respondesse, o telefone dela vibrou. Uma mensagem. Depois outra. Júlia franziu a testa, leu com atenção e levou a mão à boca.
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