A estrada parecia mais longa do que realmente era. Júlia observava a paisagem pela janela do carro, mas não via nada de fato. O mundo passava borrado, distante, enquanto dentro dela as memórias antigas e as novas se misturavam como peças de um quebra-cabeça que finalmente começava a fazer sentido.
Daniel dirigia em silêncio, as duas mãos firmes no volante. Não era um silêncio desconfortável. Era o tipo que antecede algo importante, como o instante antes de uma confissão ou de uma despedida.
— Você ainda pode desistir — ele disse, quebrando o silêncio. — Não precisa ir se não quiser.
Júlia virou o rosto para ele.
— Passei tempo demais fugindo do que doía — respondeu. — Não vou fazer isso agora.
Daniel assentiu, respeitando a força dela. Aquela mulher não era mais a Júlia que ele encontrara entre chamas e confusão. Era alguém que havia se reconstruído com dor, amor e escolhas difíceis.
Chegaram ao prédio indicado pela polícia pouco depois do meio-dia. Um lugar discreto, quase invisível