Mundo de ficçãoIniciar sessãoSusan acreditou que algumas feridas jamais cicatrizariam. As perdas, as decepções e as escolhas erradas deixaram marcas profundas, transformando sonhos em lembranças dolorosas. Durante muito tempo, ela apenas sobreviveu, convencida de que a felicidade pertencia ao passado. Mas a vida tem um jeito inesperado de desafiar certezas. Entre recomeços, descobertas e a coragem de enfrentar seus próprios medos, Susan percebe que seguir em frente não significa esquecer o que viveu, e sim encontrar força para construir um novo futuro. Além da Desilusão é uma história sobre reconstrução, amadurecimento e esperança. Um lembrete de que, mesmo depois das maiores tempestades, sempre existe um caminho capaz de levar a um novo amanhecer.
Ler maisUm ano e meio antes.
Inverno de 2022 Aeroporto Santos Dumont, RJ No estacionamento, um Volkswagen preto de quatro portas estacionou às 18h. A porta do motorista se abriu e Durval Rios saiu vestindo seu impecável uniforme. *** Durval Rios era comandante de aeronaves havia cinco anos. Nascido e criado na Urca, no Rio de Janeiro, era casado com Susan Rios havia oito anos. Eles se conheceram na faculdade. Porém, ainda no primeiro semestre, Susan desistiu de se tornar aeromoça e decidiu mudar de carreira para a área da saúde. Logo iniciou a graduação em Enfermagem. A vida dos dois mudou completamente. Pouco se viam, mas continuavam profundamente apaixonados. Quando terminaram suas respectivas faculdades e se formaram, a vida do casal deu um salto. Durval, totalmente focado na carreira, tinha pouco tempo para Susan, que, por sua vez, também estava dedicada ao próprio propósito e não questionava sua ausência. Mesmo assim, seguiram firmes no namoro. Anos depois veio o noivado. Após três anos de noivado, chegou a hora de irem ao altar. Durval se atrasou para a cerimônia, mas chegou a tempo. No entanto, logo após sair da igreja, precisou ir embora, pois tinha uma viagem programada para aquela mesma noite. Assim, com um simples selinho e um rápido “até a volta”, deixou Susan no banco de trás da limusine. Com lágrimas nos olhos, Susan seguiu para a nova casa do casal. Preocupados, seus pais ligaram assim que ela chegou, perguntando se ficaria bem sozinha. Susan havia tirado alguns dias para se dedicar ao marido, acreditando que ele faria o mesmo. Para sua surpresa, isso não aconteceu. Naquela noite, Susan passou horas brindando ao próprio casamento e chorando sozinha em sua cama. Entre taças vazias e sonhos interrompidos, a primeira noite como esposa foi marcada por uma solidão que ela jamais imaginara sentir. CAPÍTULO 1 Dezoito meses depois. Ano de 2024. Mais uma vez após deixar seu Volkswagen preto de quatro portas, no estacionamento, às 6:00 da manhã no Aeroporto Santos Dumont, RJ. Como sempre, Durval saiu pela porta do motorista vestindo o seu primoroso uniforme. Com elegância, atravessou o estacionamento passando pelas portas de vidro, seguindo diretamente para onde precisava ir. Ele havia dito a Susan que aquela viagem duraria três dias. Ela temia que ele não estivesse ao seu lado quando o filho nascesse já que estava somente esperando a hora de um parto natural. Mas não quis aborrecê-lo com reclamações. Susan entraria de licença-maternidade dali a quatro dias. Com a previsão dada pelo marido, ele já teria retornado da viagem quando chegasse o momento do parto. O que Susan sequer imaginava era que, na madrugada do segundo dia da suposta viagem de Durval, seu mundo viraria de cabeça para baixo. Susan não trabalhava em hospital, mas em uma grande clínica particular. Naquela madrugada, porém, uma amiga sua que havia levado a mãe para a emergência, viu Durval acompanhando uma mulher muito mais jovem. Sem perder tempo, a amiga pegou o celular, filmou a cena e enviou o vídeo para Susan, perguntando se aquela moça era alguma parente. Assim que recebeu a mensagem, Susan abriu imediatamente. Ao se deparar com as imagens, gelou. Susan era morena, de longos cabelos negros. As mulheres de sua família e da família de Durval possuíam características semelhantes. Já a mulher do vídeo era loira, completamente desconhecida para ela. Mesmo sentindo as pernas tremerem e o coração disparar, Susan decidiu ir imediatamente ao hospital. Afinal, para ela, Durval ainda deveria estar viajando. Durante o trajeto, já um pouco mais controlada, resolveu ligar para um antigo amigo dos tempos de faculdade. Bernardo era copiloto e frequentemente trabalhava com Durval. A ligação foi atendida rapidamente. — Susan! Não me diga que o bebê já nasceu! Cadê meu amigo? Quero dar os parabéns para ele! — disse Bernardo, animado. As palavras dele fizeram Susan sentir um frio percorrer todo o corpo. — Oi, Bernardo... Quanto tempo não nos falamos, não é? Mas me diga uma coisa... Você não está viajando? — Eu? Sim, sim, estou em São Paulo. Já seu marido pediu uns dias de folga. Disse que queria passar mais tempo com a família antes da chegada do bebê. Eu volto amanhã à tarde. Susan sentiu o estômago afundar. — C-como assim? Durval não viajou? — Não…! — afirmou Bernardo rápido demais e sem se dar conta do que acabara de fazer. Mas ele não podia mais voltar atrás do que dissera. E pensando bem, nem queria encobrir o amigo e suas más escolhas. — Ele ficou no Rio. Sentada atrás do volante, Susan o apertou com força, e ali com os olhos lacrimejados, ela viu tudo nítido. A mentira. O vídeo. A mulher desconhecida. Susan engoliu em seco, tomada pela dolorosa sensação de estar sendo traída. — Bernardo... preciso desligar. Estão me chamando. — Claro, claro, depois me liga. Susan agradeceu e encerrou a chamada. *** Parou o carro na rua em frente ao hospital. Apesar dos nove meses de gestação, a barriga bem grande, ela saiu do veículo e caminhou em passos rápidos até a entrada. Paula, sua amiga, já a aguardava do lado de fora. Sem dizer uma palavra, Paula a conduziu até o setor onde havia visto Durval. Do corredor, Susan observou a dedicação e o carinho que o marido demonstrava à mulher deitada no leito. As mãos dadas. Os sorrisos. Os olhares. Aquilo não deixava dúvidas. Com as mãos trêmulas, ela tirou várias fotos e gravou um vídeo. Em seguida, enviou tudo para um endereço de e-mail que mantinha em segredo, diferente daquele que utilizava diariamente. Depois se afastou alguns metros e ligou para Durval. No quarto, porém, ele havia deixado o celular no modo silencioso para não incomodar a mulher internada. Não ouviu nenhuma das ligações. Do outro lado do corredor, após tentar três vezes sem sucesso, Susan desistiu. Virou as costas e decidiu ir embora. Enquanto isso, Paula, extremamente observadora, aproveitou para conversar discretamente com uma enfermeira do andar. O que descobriu a deixou chocada. A mulher do quarto 009 havia sido internada com risco de aborto. E, segundo os comentários da equipe, o marido estava desesperado com a possibilidade de perder o primeiro filho do casal. Paula ficou alguns segundos em silêncio. Contava ou não contava? Mas em meio a indecisão, ela lembrou-se de que quando se conheceram, dez anos antes, ela e Susan haviam feito um pacto: jamais mentiriam uma para a outra. E Paula sabia perfeitamente que Susan não era do tipo que perdoava nem mesmo pequenas mentiras. Quanto mais uma daquela proporção. Engolindo em seco, decidiu contar tudo o que havia descoberto sobre o casal aparentemente perfeito que ocupava o quarto 009.No quarto andar.— Bom dia. — cumprimentou Susan a uma mulher que a olhou da cabeça aos pés.— Bom dia, o supervisor já lhe aguarda, por favor. — disse a mulher sinalizando com uma das mãos, conduzindo Susan até a sala do supervisor.A secretária bateu levemente à porta.— Senhor Renato, a senhora Susan Rios.— Pode deixá-la entrar.A mulher afastou-se, dando passagem.Susan respirou fundo antes de cruzar a porta.O supervisor levantou-se imediatamente atrás da ampla mesa.— Senhora Rios... que prazer conhecê-la pessoalmente. Por favor, fique à vontade.Ela agradeceu com um leve aceno e sentou-se na cadeira à frente dele.Por alguns segundos, ambos permaneceram em silêncio.Renato percebeu que ela parecia abatida.— Em que posso ajudá-la?Susan uniu as mãos sobre o colo.— Vim procurar meu marido... Durval Moura Rios.O supervisor assentiu.— Entendo.Abriu uma pasta sobre a mesa e conferiu algumas informações.— Na verdade, o Durval solicitou alguns dias de afastamento.Susan franzi
Naquela tarde, a campainha ecoou pela casa.Poucos instantes depois, Paula entrou sorrindo discretamente.Trazia uma pequena sacola de presentes para Malcollys.Assim que chegou ao quarto, aproximou-se.— Meu Deus... cada dia mais lindo.Sorriu encantada para o pequeno, que mamava tranquilamente nos braços da mãe.Susan sorriu de leve.— Parece um anjinho quando está quietinho.— Por que quando resolve chorar... ninguém segura, é? — perguntou Paula. Susan assentiu. As duas riram. Por alguns segundos, o ambiente pareceu leve outra vez.Depois que Malcollys terminou de mamar, Susan o colocou cuidadosamente para arrotar.Paula a observava em silêncio.Percebeu que havia algo diferente na amiga.Viu que ela ainda sofria, mas já não era o mesmo sofrimento desesperado dos primeiros dias.Era uma dor mais silenciosa.Mais consciente.Quando Malcollys adormeceu novamente, Susan o acomodou no berço.Ficou alguns instantes olhando para o filho.Então falou baixinho:— Sabe... depois que tu
O telefone sobre a ampla mesa de madeira nobre rompeu o silêncio do escritório.Osvaldo interrompeu a leitura de um relatório.Olhou rapidamente para o visor.Era o segurança que havia destacado para acompanhar discretamente a residência de Susan.Atendeu imediatamente.— Fale.— Senhor Osvaldo, estou ligando para atualizá-lo sobre a senhora Susan.O semblante de Osvaldo tornou-se ainda mais atento.— Ela saiu da residência há poucos minutos.— Ela está bem?— Sim, senhor! Saiu sem qualquer sinal de agressão física. Pelo que pude ver de onde estou, o senhor Durval não tentou impedi-la de deixar a casa.— Certo — Osvaldo respira aliviado.— Ela já está a caminho da residência dos senhores.— Continue atento.— Sim, senhor. Ao encerrar a ligação, Osvaldo permaneceu alguns segundos olhando para a tela do celular.O peso que carregava sobre os ombros pareceu diminuir um pouco.Sem perder tempo, selecionou o contato da esposa e levou o aparelho ao ouvido.Isabel atendeu logo no pr
Na agência de segurança.OsBaléssyPor alguns segundos, o silêncio pairou no escritório.Osvaldo permaneceu observando a filha.Os olhos dela estavam cansados.Havia tristeza.Mas, acima de tudo… Havia uma decisão.Susan aproximou-se da mesa sem dizer uma única palavra.Então colocou lentamente a pasta à frente do pai.— Leia. Osvaldo franziu levemente a testa.Seu olhar alternou entre a filha e o volumoso dossiê.Em seguida, puxou a pasta para perto de si.Mas antes olhou rapidamente para Isabel. Ela apenas confirmou com um leve movimento de cabeça.Então ele abriu o dossiê. As primeiras páginas revelavam fotografias.Depois vieram datas.Relatórios.Registros de viagens.Anotações minuciosas. À medida que avançava na leitura, seu semblante endurecia.As linhas de expressão em seu rosto tornavam-se cada vez mais profundas.Em determinado momento, retirou os óculos.Fechou os olhos por um breve instante.Passou a mão pelo rosto.Respirou profundamente.Tornou pôr os óculos
Último capítulo