Mundo de ficçãoIniciar sessãoO desconhecido respirou fundo.
Não era médico. Não era enfermeiro. E definitivamente nunca havia feito um parto. Mas naquele momento não havia escolha. Ele retirou o relógio do pulso, arregaçou as mangas da camisa social e assumiu o controle da situação. — Augusto! — chamou em voz firme. O senhor mais velho imediatamente se aproximou. — Sim, senhor. — Vá até o carro. Na minha mala há algumas toalhas limpas. Traga tudo o que encontrar. — Agora mesmo. Augusto correu de volta ao veículo. Enquanto isso, outra contração fez Susan se curvar de dor. O desconhecido ajoelhou-se ao lado dela. — Ei, olhe para mim. Ela ergueu os olhos marejados. — Vai ficar tudo bem. Susan quase riu. Não porque acreditasse. Mas porque aquele estranho parecia mais preocupado com ela do que seu próprio marido. Aquela constatação doeu. E muito. — Eu sou enfermeira — disse ela entre respirações difíceis. Os olhos dele se iluminaram. — Ótimo. Então me diga exatamente o que fazer. — Eu... eu nunca fiz um parto... — Nem eu. Por um segundo os dois se encararam. E, apesar do momento desesperador, quase sorriram. Augusto voltou correndo com três toalhas limpas e brancas como a neve. — Aqui, senhor. — Perfeito. Mais uma contração veio. Susan apertou os olhos. Seu corpo inteiro trabalhava sozinho. A natureza assumia o comando. O bebê estava chegando. Não havia mais como impedir. O desconhecido seguiu cada orientação que Susan conseguia fornecer. Palavra por palavra. Passo por passo. Mas, na verdade, o pequeno parecia determinado a vir ao mundo por conta própria. Como se tivesse escolhido aquele instante. Aquela noite. Aquele momento. Como se quisesse mostrar à mãe que ela não estava sozinha. Que, apesar da dor. Apesar da traição. Apesar do abandono. Ela ainda tinha alguém. Alguém que a amaria antes mesmo de conhecê-la. Outra contração. Outra força. Outro impulso. E então... Um choro. Forte. Potente. Vivo. O som ecoou pela estrada silenciosa. Por um instante, ninguém se moveu. Ninguém falou. Susan apenas ficou ali, ofegante, tentando compreender o que acabara de acontecer. Lágrimas escorriam livremente por seu rosto. Mas agora eram diferentes. Já não eram lágrimas de tristeza. Nem de decepção. Nem de abandono. Eram lágrimas de amor. O desconhecido segurava o recém-nascido com extremo cuidado. Seus olhos demonstravam admiração. — Ele é lindo. A voz de Susan saiu fraca. — Meu filho... Com todo o cuidado do mundo, o homem colocou o bebê em seus braços. Assim que sentiu o calor da mãe, o pequeno pareceu se acalmar. Susan o abraçou contra o peito. E naquele instante, todo o restante perdeu a importância. Durval. A amante. As mentiras. A traição. Nada importava. Somente aquele pequeno milagre. Somente aquele menino. Somente seu filho. Ela beijou a testa do bebê e fechou os olhos por alguns segundos. — Bem-vindo ao mundo, meu amor. Uma lágrima deslizou por sua face. — Bem-vindo, Malcollys. O recém-nascido abriu os olhinhos por um breve instante. E Susan sorriu. Talvez pela primeira vez naquela noite. Um sorriso verdadeiro. Porque, pela primeira vez em muito tempo, ela compreendeu uma coisa. Ela e seu filho ficariam bem. Juntos. E isso bastava. *** O choro de Malcollys havia diminuído. Enrolado na felpuda toalha improvisada, ele descansava tranquilamente nos braços da mãe, como se ignorasse completamente o caos que antecedera sua chegada ao mundo. O desconhecido observou a cena por alguns instantes. Havia algo bonito naquele momento. Algo raro. Então limpou discretamente as mãos na calça social e estendeu a mão para Susan. — Acho que ainda não me apresentei. Ela ergueu os olhos. — Não mesmo. Um leve sorriso surgiu nos lábios dele. — Trevis. Fez uma breve pausa antes de completar: — Trevis Kinly. Susan o encarou por alguns segundos. Aquele nome lhe era completamente desconhecido. Ainda assim, sentia uma estranha sensação de segurança perto dele. Talvez porque, naquela noite, enquanto o próprio marido mentia para ela, aquele estranho havia parado o carro para ajudá-la. — Prazer, Trevis. Ela assentiu levemente. — Susan Rios. — E este pequeno guerreiro? Ela baixou o olhar para o bebê. Um sorriso suave surgiu em seu rosto. — Malcollys. — Belo nome. — So não sei ainda se coloco o Rios, já que eu mesma vou me desfazer desse maldito sobrenome. Naquele exato momento. Malcollys soltou um pequeno resmungo, arrancando um sorriso dos três. Entre risos, o senhor augusto soltou: — Parece que o guerreirinho concorda com a mãe. Trevis voltou a ficar sério. — Certo. Agora precisamos levá-la para um hospital. A reação de Susan foi imediata. — Nããão. Trevis franziu a testa. — Não…! Como assim não? — Eu não posso. — Susan, você acabou de dar à luz no acostamento de uma estrada. — Eu sei. — Então, precisa ser examinada. Ela desviou o olhar. Por alguns segundos ficou em silêncio. Como se estivesse travando uma batalha interna. Então respirou fundo. — Tem alguém naquele hospital que não pode me ver. Trevis permaneceu imóvel. — Como assim? Susan apertou Malcollys contra o peito. — Ele não pode me ver. Sua voz falhou. — Nem saber de nós dois. A expressão de Trevis mudou. Ele não insistiu. Não perguntou nomes. Não exigiu explicações. Apenas observou a dor escondida por trás daquelas palavras. E compreendeu que havia uma história muito maior ali. Uma história que ela ainda não estava pronta para contar. Trevis ficou pensativo por alguns instantes. Então uma ideia lhe ocorreu. — Talvez exista outra solução. Susan voltou a olhá-lo. — Qual? — Se confiar em mim… Ela permaneceu em silêncio. — Moro a poucos minutos daqui. Augusto assentiu discretamente. — É verdade. Trevis continuou: — Tenho uma casa grande. Minha avó mora comigo. Um sorriso sincero surgiu em seu rosto. — Foi ela quem me criou desde os quatorze anos. Susan ouviu atentamente. — Posso chamar o médico da família. Ele atende minha avó há anos. — Médico? — Sim. — E você faria isso por uma desconhecida? Trevis deu de ombros. — Depois do que aconteceu hoje, acho que já passamos da fase de desconhecidos. Pela primeira vez naquela noite, Susan soltou uma pequena risada. Fraca. Mas verdadeira. — Você e seu filho podem ficar lá pelo tempo que precisarem. Ela permaneceu em silêncio. Olhou para Malcollys. Depois para a estrada escura. Em seguida, pensou em Durval. Pensou na mulher do hospital. Pensou na mentira. Na traição. Na vida dupla. Talvez fosse exatamente disso que precisava. Tempo. Tempo para pensar. Tempo para se recuperar. Tempo para descobrir a verdade. Porque uma coisa era certa. Ela não pretendia confrontar Durval sem antes saber de tudo. Quem era aquela mulher? Há quanto tempo aquilo acontecia? Quantas mentiras haviam sido contadas? Quantas viagens nunca existiram? Susan baixou os olhos para o filho. Uma determinação silenciosa nasceu dentro dela. Durval acreditava estar no controle. Mas não estava. Pela primeira vez em muitos anos, seria ela quem observaria. Ela quem investigaria. Ela quem descobriria cada segredo escondido. E quando chegasse a hora do confronto… Ele não teria para onde fugir. Susan ergueu a cabeça. — Certo. Trevis arqueou uma sobrancelha. — Certo? — Eu aceito sua ajuda. O sorriso dele surgiu imediatamente. — Então vamos para casa. Sem perceber, Susan voltou a olhar para o bebê. E pela primeira vez desde que recebera aquele vídeo no hospital, sentiu que talvez a vida ainda não tivesse terminado. Talvez estivesse apenas começando.






